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OS "BRAVOS " DOS PINHAIS INTERIORES

por Júlio Cortez Fernandes, em 31.07.17

Não esqueço esforçados trabalhadores do tempo de menino,personagens importantes da Pampilhosa durante o século passado: os resineiros.

Quando chega o verão os incêndios aparecem, retorna  imagem dos "povoadores do pinhal", onde com sangue suor e lágrimas arrancavam sustento das famílias, sujeitos a desenfreada exploração. Determinadas terras onde passo, é hábito perpetuar no espaço público, ofícios e ocupações que marcaram a história das localidades, pescadores, mineiros,arrancadores de cortiça, oleiros, almocreves etc. na Pampilhosa da Serra, não sucede ...

 Na solidão do pinheiral,  elemento importante na prevenção e combate a focos de incêndio, a  lida promovia  limpeza do terreno, para adequadamente extrair a resina, passagem por locais ermos permitia conhecer a zona exacta onde lavrava  fogo assim possibilitava adequado combate,  maioria das vezes  através de contra fogo.

A resinagem e resineiros foram "alma" e  prosperidade de actividade económica onde ganharam fortunas proprietários das fábricas de agua-rás e pez. Os donos dos pinhais os humildes "sangradores" dos pinos, ficavam com a côdea do "bolo".

Durante as décadas 30, 40 e 50 do século passado quotidiano da Pampilhosa estava impregnado de assuntos relativos a resina e pinhal.

Começava a campanha diziam andar na "descarrasca", consistia limpar o tronco onde seria a ferida ou sangria para "brotar" a seiva, caia  no púcaro de barro, suportado em estaca de madeira, sobre o púcaro ficava  cravada  no pinheiro chapa metálica de forma curva: a bica, púcaro cheio procedia-se a "colha" com uma espátula, para recipiente metálico, a "ferrada" ou balde. Esta tarefa competia a mulheres, "ferrada" cheia, poisava na rodilha  na cabeça, vazada em barris de madeira colocados  nas veredas, carros de bois, transportavam a sítios onde já podia chegar camioneta que levava  a fábrica "resineira".

Algumas ocasiões caminhando com a ferrada a cabeça as mulheres escorregavam na caruma,  resina entornava-se no cabelo, e vai de cortar  rente as tranças para se livrarem do pegajoso líquido. Infelizes ficavam sem  belo adereço capilar, durante muito tempo. Uma dor de alma.

Estes trabalhos eram motivo de conversa  a vida organizava-se conforme  as tarefas a realizar nos pinheirais.

O estatuto de responsável pela exploração do pinhal, implicava ser detentor de carta de aptidão, obtida na frequência de 15 dias de aulas, numa escola  de Candosa concelho de Tábua. Normalmente  pagavam  curso  as resineiras, no fim mediante aprovação, passavam cartão de "comissário empreiteiro". Estes profissionais respondiam perante a fiscalização Estado pelo cumprimento das regras da lei de resinagem.  .

Recordo  resineiros que conheci,  meus avós, meu pai, e tios, Ti António , marido da ti Laura da tenda, morava na minha rua, Ti Isac, Ti Laranjo,  muitos outros cujo nome esqueci. Gente esforçada, sujeita a trabalho durissimo para granjear  pão de cada dia. Praças rasas no  "regimento" dos assalariados mais explorados de Portugal.

Antepassados que labutaram na faina da resina são credores de  respeito,  exemplo de sacrifício resistência e luta por vida melhor, não deve ser olvidado.  Deixo referencia: mereciam fosse erigido na Pampilhosa, "memória" tal qual fizeram  outras terras em honra do  valor das classes laboriosas. Oxalá!   

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publicado às 12:59


O Monumento Dedicado a Evocação de "CRISTO REI"

por Júlio Cortez Fernandes, em 18.09.16

Quem chega A vila da Pampilhosa da Serra,transitando pela antiga estrada nacional 344,vindo das bandas de Pedrogão Grande ou Oleiros , via Alvaro,depara  na grande curva, entrada do burgo, um monumento de considraveis dimensões, no cimo levanta-se imagem de Cristo. O espaço envolvente está  impecavelmente cuidado pelos serviços da Câmara Municipal do Concelho.

Num  bancos do pequeno largo onde  costumo descansar enquanto contemplo o casario da vila,dei comigo meditando acerca do motivo pelo qual teria sido o motivo se  construiiu o monumento.

Não encontrei resposta, fui relembrando: A povoação guarda no perímetro urbano, várias capelas. São Sebastião , junto ao Cemitério numa das antigas saídas da Vila, São Jerónimo,na encosta sobranceira encimando conjunto das casas que formam zona da Pampilhosa, situada na margem direita do Rio Unhais ou Pampilhosa.A maioria da população residia outrora na margem esquerda, onde de situa a casa onde nasci, as pessoas diziam: São Jerónimo "santo dos do outro lado".No cume do monte por cima de S.Jerónimo ficava a ermida de Nossa Senhora de Fátima, curiosamente antes da capela já era "o sítio de Nossa Senhora".

No interior  da povoação encontramos capela de Santo António, passa por ser de grande devoção entre os Pampilhosenses,pela razão da maioria dos naturais do sexo masculino se chamarem "António". O culto foi iniciado aqui pelos frades do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a quem pertenciam os rendimentos da Paróquia.Existiu a Capela de São Pedro Mártir, demolida nos anos 60 do século passado, de que resta memória na toponímia " Rua de S. Pedro ".

A padroeira da Vila é Santa Maria ,com a designação de Nossa Senhora do Pranto, representada em imagem de grande beleza, recolhida na Igreja Matriz,oferecida por abastado comerciante natural da Pampilhosa  residente em Lisboa e lá falecido na decada de 1930.

Com toda esta profusão de elementos motivo da religiosidade fervorosa dos meus patrícios. porque se construiu o monumento a Cristo Rei e não á padroeira ou outro dos Santos?

Não consegui encontrar resposta naquele momento. Alguém saberá? Gostaria  conhecer a razão  porque no alto do Calvário , nome deste sítio, é Cristo Rei, quem simbolicamente, abençoa o burgo. 

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publicado às 17:29


Pampilhosa da serra roteiro dum futrica IV

por Júlio Cortez Fernandes, em 26.09.13

Demorem-nos um pouco mais ainda no "barreiro", há muita coisa, a bulir na nossa memória. Na zona do barreiro, chegada ao Couço no caminho para S. Martinho próximo dos "cortinhais" ficava a casa da Ti Maria Angélica, de quem me lembro. Contígua morava a Ti Maria Cortez, casada com o Ti César Antão, era sobrinha do meu avô Augusto Cortez, algumas ocasiões, franqueei a casa, deliciava-me com a vista a partir da varanda. Um pouco adiante, numa grande casona  habitava a Ti Maria da Quinta e o meu amigo Manuel, cujo pai Eduardo Antão exercia a profissão de cantoneiro da estrada nacional.

Esta casa, hoje em parte arruinada tem uma história ligada um pouco à da minha família. Era a casa do nossos quintos avós Simão Fernandes Barreiros, e Josefa Cortez. Nela viveu depois durante toda a vida o primogénito, também de nome Simão, nascido  em 25 de Janeiro de 1722, faleceu solteiro aos 15 dias de Fevereiro de 1801. Anteriormente referimos, a origem do nome Barreiro, relacionada com actividade dos Fernandes: fabrico e comercialização da telha. No sitio abundava barro, matéria prima indispensável,para a feitura daquelas.no entanto, Simão Fernandes expandiu o negócio conseguiu fornecer o produto do seu fabrico, para os telhados das fábricas em Tomar cuja correição pertencia a Pampilhosa no séc. XVIII. O relacionamento com os industriais tomarenses devia ser, profícuo e próximo o padrinho do seu filho, foi Rodrigo Jacome Reymonde industrial, morador e natural da Vila de Tomar testemunhou o acto do baptismo o Reverendo João Barata, da Vila de Oleiros amigo e parente, outro indicio da situação social desafogada do "dono" do barreiro.

Continuando, defronte da casa do meu avô Carloto, vivia o casal: Ti António Custódio e Ti Angelina senhora afável natural de Trevões. Não fazia ideia onde seria, desde a infância tive curiosidade de conhecer a terra, já consegui visitá-la, confesso gostei, a localidade é Vila e freguesia no concelho de S. João da Pesqueira. O Ti Custódio conheceu a Ti Angelina uma ocasião durante a faina, das vindimas no Douro, hábito de muitos patrícios nossos no séculoXIX. Não tinham filhos; o Ti Custódio era "manejeiro" viviam bem. A função de manajeiro consistia em recrutar a pedido de agricultores da Estremadura espanhola, mão de obra, para as tarefas da ceifa de cereais naquela província Castelhana. A empreitada,começava com correspondência remetida pelos proprietários "dos Cortigos", assim se chamavam as herdades em Espanha, normalmente, em Março, depois de avaliarem as perspectivas da colheita e efectvos de trabalhadores que necessitariam. Recebida a missiva, conhecidas as condições. Quando não concordava, voltava a escrever, chegados a acordo, o Ti Custódio tratava de conseguir  "companha" de homens pretendida. Esta situação dava-lhe poder para arregimentar discricionariamente privilegiando parentes e amigos, uma posição de poder económico e ascendência sobre quem precisava do dinheiro da "ceifa "como de pão para a boca. O manajeiro além do salário recebia percentagem sobre o pessoal recrutado; algumas vezes dividia com a suas "companhas" motivando ,desse modo, a conclusão   mais rápida do trabalho para agradar ao patrão, reforçar  o vínculo com ele e salvaguardar a sua posição, como elemento de ligação em Portugal.

Completado o recutamento informados os patrões extremenhos, o pessoal abalava, normalmente em Maio, quedando cerca de dois meses em  Espanha, onde iriam deparar com condições laborais duras de autentica escravatura, dormindo no campo, muitas vezes sofrendo à mingua de água, trabalhando "de sol a sol", sábados e domingos incluídos, folga? Só dia de Corpo de Deus, se "caísse" quando ainda estivessem nas terras de "nuestros hermanos". Os espanhóis dedicavam devota veneração à festa do "corpus Cristi", em qualquer "pueblo" por mais humilde, realizava-se imponente procissão naquele dia. Os Portugueses associavam aquele acto ao final da safra.

As viagens a pé desde a Pampilhosa ou  aldeias do Concelho, até a estação de Sarnadas do Rodão, daí  em diante de comboio, com transbordo no Rossio de Abrantes em direcção a Espanha por Caia Badajoz. No entanto, muitas ocasiões, segundo fui ouvindo o caminho percorria-se todo a pé, passando por várias localidades alentejanas, como Nisa, por exemplo. Corria na Pampilhosa de então o seguinte ditado: "quem quiser saber o que as léguas são vá de Nisa a Alpalhão". As povoações extremenhas, de destino, espécie de "terras da rota da ceifa", situavam-se a cerca de 30 quilómetros da raia: Montijo,Torremejia, Lobon, Almendralejo, Etrín e Albuera. Esta última exercia sobre mim um grande fascinio, meu avô João Carloto vizinho e amigo do ti Custódio, algumas vezes esteve em Albuera, contava-me ao ceifarem reparavam na terra  cheia de capsulas de balas, restos dum combate que ali houvera. Muito mais tarde aprendi. Tinha sido uma batalha em 1811, 100 anos antes daquela observação dos milhares de capsulas misturadas com o solo. O relato dos ceifeiros Pampilhosenses datava de1914, nesse tempo os processos de lavra com recurso a rudimentares arados, revolvendo a terra a pouca profundidade, possibilitavam, a visibilidade e melhor conservação dos vestígios. Tombaram em Albuera, mortífera batalha da Guerra Peninsular à volta de 15000 combatentes entre aliados (ingleses,portugueses e espanhóis) e franceses. No imaginário de menino, Albuera era tal qual, uma espécie de apocalipse, depois confirmado, porque em nenhum outro sítio até aquela época, havia morrido tanta gente.

O regresso ás terras de origem seguia o trajecto da ida, as mulheres iam esperar os maridos, no Alto da Lontreira um cabeço nas cercanias da vila de Oleiros, onde recebiam os sacos com "pão da ceifa" resultado da poupança feita não comendo a ração que o patrão lhes atribuía. Pão de farinha de trigo alvo não ganhava bolor, um manjar para, os que ficavam durante a ausência dos seus, ansiavam o momento de saborear o "pão espanhol". O dinheiro das jornas, contribuía para o equilíbrio das contas das famílias, permitindo comprar aquilo que não se produzia na economia de subsistência alguns hábeis no negócio aumentavam o património das suas "casas",comprando terras. Tudo á custa de sacrifício escravo,e ambição nunca desmentida de conseguir superar uma vida de frugalidade e miséria.


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publicado às 18:45


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