Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

25.Mai.20

PANORAMA DA PAMPILHOSA EM 1905

Júlio Cortez Fernandes

No alvor do século XX, deslocou-se a Vila, a convite de um parente nosso, patrício residente em Lisboa. Permaneceu na terra, cerca de um mês, durante o qual escreveu a primo residente, em Elvas, carta datada de Fevereiro 1905, onde relata factos elucidativos da fisionomia da Pampilhosa naquela época.

Caro Primo

Cá estou na Pampilhosa, e chegar aqui foi um fadário, faltam abrir dez quilómetros de estrada, para conseguir ligação desta vila com as de Góis, Lousã e outras, e assim também contribuir para o seu engrandecimento comercial, que é como sabes alavanca do progresso.

Em breves traços vou contar-te o estado lastimoso em que se encontra a Vila.

Se lançarmos vistas para o adro da igreja, custa a crer que haja desleixo de tal ordem, porque está cheio de cascalhos, lenhas e outras coisas, que para ali são conduzidos, sem que ninguém cuide de reprimir o abuso.

O adro o melhor largo da terra, não só pela extensão, mas também pelas bonitas árvores que o ornam, e pois quase intransitável, atendendo, também ao desmoronamento de um muro, para uma rua que chamam do "Pedregal", a qual está também quase cortada ao trânsito.

Se olharmos para a igreja que não merece este nome tal é o acanhamento, e estado em que se encontra, com portas quase em terra, no forro grande quantidade de tábuas despregadas, e parece que ninguém olha para tal estado de coisas.

Na vila não existe iluminação pública, e as calçadas, feitas a mais de quarenta anos, com pedras das cascalheiras da ribeira, que atravessa a vila; nunca sofreram qualquer reparo.

Conservam-se estrumeiras nos pontos mais concorridos da vila. Quanto a água para abastecimento público é insuficiente por não ser devidamente aproveitada, e respeito das limpezas nas fontes respectivas, nem é bom falar.

O local onde realizam uma grande feira todos meses, nunca mereceu a atenção do Município.

Vou terminar, não quero abusar da tua benevolência, mas é muito triste que haja na Monarquia Portuguesa, uma terra tão desprezada.

Ao ler esta carta fico convicto, incêndio da igreja em 1907, atendendo ao miserável estado do edifício, seria deliberado; as pessoas não aguentavam mais a situação humilhante de assistirem  os ofícios religiosos numa espécie de "pardieiro".

Outra noticia relevante, confirma na Pampilhosa, poucos gostavam de árvores, porque tendo o adro árvores frondosas, todas foram derrubadas, quando construção do templo actual, tendo ficado o "pau-ferro" junto a casa dos Coira, que ainda conheci, mas que também acabou em lenha para a fogueira.

Este achado causou-me alguma tristeza; verifiquei nossa terra, há pouco mais de um século, seria das mais pobres, humildes e esquecidas sedes de concelho de todo Portugal. Dar a conhecer é um dever: "Pampilhosa super omnia".

acoreto.png