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aguadouro

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09.Ago.15

O ENTERRO DA FIDALGA

Elementos para a história da vila de Pampilhosa da Serra

 No mês de Junho do ano de 1917, plena guerra mundial, o clima na vila da Pampilhosa da Serra decorria ameno, ligeiramente fresco, enevoado, pouco condizente ao período estival. O quotidiano das gentes, marcado pela faina das regas expectativas das colheitas, regresso das ceifas na “Hespanha”, ocupação de numerosos braços durante os dois anteriores meses, este dia a dia, sofreu sobressaltado causado pela doença da pessoa mais importante da sociedade serrana de então.

Maria da Natividade de Mello Figueiredo e Nápoles, viúva, quem os populares carinhosamente apelidavam “ velha da feteira”, nome da quinta onde viveu algum tempo em vida de seu marido. Proprietária das quintas de São Martinho São Silvestre São Sebastião e da Feteira, esta quinta estendia-se desde o cume do cabeço, onde hoje existe propriedade com o mesmo nome até a ribeira da Pampilhosa, incluía a quinta das garrazelhas ,Sítio de Nossa Senhora e São Silvestre terminando na Foz da Moura , local da antiga “resineira”, lagares de azeite, destilarias de aguardente. Era sua uma das maiores adegas de vinho da região situada em São Martinho, sortida de vasilhame de dezenas de pipas e pipos fabricados de madeira nobre sobretudo castanho, onde estagiavam vinhos provenientes das vinhas plantadas com castas escolhidas, designadamente trincadeira, moreto e fernão pires . Quem afirma que na Pampilhosa não havia vinho de qualidade, nunca provou o vinho da Quinta de São Martinho. Moinhos de rodízio com duas mós. Olivais, soutos, pinhais, centenas de cabeças de gado ovino e caprino, pastoreados em milhares de hectares de matos e boiças por todo o concelho de Pampilhosa da Serra, principalmente na freguesia da Vila.

 Nasceu na vila de Góis a 3 de Março de 1830,filha legitima de António da Cunha Figueiredo e Nápoles, e D. Maria de Melo Castelão de Brito, baptizada na capela da quinta da Lavra onde residia a família. Neta paterna de José da Cunha Barata e Nápoles e D. Rita Angélica Barata e Lima, na altura já falecidos, materna de Feliciano António de Melo Brandão e Jacinta Teodora Castelão de Brito Leitão e Lima. Foram padrinhos seus primos paternos José Carlos Zuzarte da Cunha Corte Real e D. Maria da Natividade de Barros Corte Real residentes na quinta do Rojão freguesia de Pinheiro de Ázere bispado de Viseu.

Pertencia a distinto ramo da aristocracia beiroa, durante muito tempo ligado a Pampilhosa da Serra. Seguindo o costume de manter alianças matrimoniais de conveniência, casou com António Barata Pinheiro Feteira, a 1 de Julho de 1868, aos 38 anos de idade, celebração matrimonial realizada na igreja matriz da Pampilhosa da Serra, testemunhas do acto, Bernardino José das Neves e Castro casado natural da vila residente no solar da família: “casa branca”, e padre Francisco Maria Baeta de Vasconcelos tio do noivo,

 António Feteira veio ao mundo na quinta da feteira pertença dos progenitores, a 9 de Julho de 1836, baptizado na capela do Senhor da Agonia existente na propriedade pelo tio António Barata Pinheiro Feteira devido a correr perigo de vida, filho legítimo de Daniel Pires de Almeida, natural do lugar da Roda Cimeira, freguesia e concelho de Alvares e D. Antónia Ondornil Cotrim e Vasconcelos, natural do lugar de Outeiro, freguesia de Rego da Murta termo de Alvaiázere, neto paterno de José Pires Baeta e Bernarda Baeta ambos naturais de Roda Cimeira, freguesia de  Alvares, materno de D. Josefa Ondornil Cotrim de Vasconcelos e Francisco Barata Nunes Feteira, da quinta da Feteira freguesia da Pampilhosa. Faleceu em Julho de 1905.

A família Feteira detentora de avultado património e liquidez financeira, possibilitou ao filho António frequentar a Universidade de Coimbra, estudou na faculdade de direito onde obteve grau de bacharel, a folha de matrícula informa: naturalidade quinta da feteira, distrito de Coimbra não citando Pampilhosa, parece que os feteira não gostariam da sociedade da vila. Do casamento tiveram filho único, Eurico nascido a 3 de Maio de 1871, baptizado na casa dos avós maternos na vila de Góis. Faleceu criança com 3 anos.

 A ilustre senhora muito estimada e querida pelo auxílio generoso proporcionado aos necessitados adoeceu gravemente no inicio de Junho 1917, vitimada de ataque cerebral que originou paralisia do lado esquerdo e perda de faculdades cognitivas e sensoriais, muito devota tinha sempre nas mãos um crucifixo. Devido á avançada idade 87 anos, quando estado de saúde se complicou, os sobrinhos Dr. António de Almeida e Sousa e esposa D. Maria Justina Ferraz de Pontes e Sousa, e Dr. Ferraz Pontes, de Góis, deslocaram-se para a Pampilhosa acompanhando o evoluir da situação e coordenar as exéquias. A população da Vila seguia preocupada o transe da vetusta Senhora. Transcorridos seis dias sem comer nem beber no meio de atroz sofrimento que aceitou com cristã resignação, às oito horas da noite sexta -feira 29 de Junho, festa de S. Pedro, o sino da torre da paróquia tocou os sinais de falecimento. Iniciaram-se de imediato preparativos dos funerais, os quais a família queria imponentes à altura do prestígio riqueza e popularidade da finada.

O povo murmurava, havia morrido com halo de santidade, o facto do passamento ter ocorrido dia de S. Pedro seria presságio divino, revelador da entrada directa no paraíso, que pela bondade e carinho com os pobres se tornara merecedora. Após velório na capela de sua casa de evocação a Santa Rita, o caixão seria levado a 1 de Julho para igreja Matriz de Nossa Senhora do Pranto, carregado por quatro músicos da banda filarmónica da vila a qual, acompanhou o féretro sem tocar a pedido dos familiares. Dona Maria da Natividade foi pródiga benemérita da “música”. Para o enterro vieram milhares de pessoas de todo o concelho, municípios vizinhos, e de mais longe Lisboa e Coimbra. Os sinos da igreja e capelas da urbe tangeram em simultâneo a finados, no templo decorado com paramentos negros, repleto de fiéis, rezou-se missa de corpo presente oficiada por vários sacerdotes, abrilhantada por canto gregoriano, nunca se presenciara nada semelhante na longínqua Vila da Pampilhosa.

 No trajecto ao cemitério o ataúde foi carregado em ombros de quatro caseiros última homenagem á senhoria humana e compreensiva, e acompanhado de milhares de pessoas. A urna ficou depositada na campa dos Mello. O último de todos membros da família ali inumado. O representante varonil Luís de Mello Castelão de Brito Brandão morreu em 1856 sem descendência e solteiro. Figuras gradas da Pampilhosa, irmandades, forças vivas representativas dos estratos sociais estiveram presentes nas cerimónias, só os responsáveis republicanos radicais não assistiram, talvez porque a defunta, assumiu sempre convicções monárquicas e miguelistas. A sua morte significou o desaparecimento na Vila da Pampilhosa da Serra de um bastião do” trono e altar”. Simbolicamente o enterro de Dona Maria da Natividade de Mello Figueiredo Nápoles e Feteira assinalou o fim, da preponderância social e política do antigo regime. Quase um século após a revolução liberal de 1820, a vila de Pampilhosa da Serra, enterrava, finalmente, o miguelismo.

 

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