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aguadouro

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14.Mar.18

NA BRUMA DO TEMPO DA INFÂNCIA

 

Neste tempo invernoso,de ventania com mais soada do que escutava bramindo na ramaria  dos pinhais da Pampilhosa , apeteceu rebuscar  papeis amarelecidos guardados a "monte" no meu arquivo mais desordenado que transito rodoviário em dia de chuva nas vias da grande Lisboa.Ocasionalmente deparo, algum apontamento que aviva a memória, e faz lembrar gente bondosa com quem convivi a longo da já dilatada existência.

Encontrei uma referência a pessoa importante na sociedade da minha terra ,o senhor Hermano Nunes de Almeida,ou abreviadamente , Senhor Hermano.Revivi um dos muitos episódios de encontros com ele.

Certo dia na propriedade denominada Revessa, na casa situada na encosta, paredes meias com grande tanque de cimento, para onde corria noite e dia agua cristalina captada na encosta da montanha arriba.Da janela e do pátio da casa avistava-se paisagem de beleza indescritível. A aldeia das Malhadas da Ribeira quase de fronte,  o moinho ,  açude, chã no fundo da propriedade, formando grande curva, tudo enchia  meu pequeno coração de alegria.

Era sitio maravilhoso,por essa altura algumas vezes fingia ser padre e vá de "pregar " sermões empoleirado no cimo de alguma rocha,ou parede mais saliente segundo afirmavam os que ouviam saia-me bem da função, "tão azadinho,ainda vai dar um padre" diziam alguns. Aqui para nós nunca quis ser clérigo.  Voltando a Revessa, pensei, um dia destes, vou pregar sermão aqui.O senhor Hermano bondoso para comigo, amiúde oferecia pacotes de bolachas "maria",  amêndoas ou outras guloseimas que  regalavam.  Sua mulher Dona Aurora, igualmente minha amiga.

Afinal, nunca fiz o sermão imaginado, todavia encontrei elementos  permitem fazer, em jeito de epistola tardia pequeno registo biográfico do senhor Hermano, recordar assim com ternura ,alguém cuja lembrança manterei viva até ao fim .

Hermano nasceu em Pampilhosa da Serra  primeiro dia  de Março, de 1899, filho de António, de profissão carteiro da posta rural, e sua mulher Júlia. Baptizado pelo celébre pároco Vicente Dias de Carvalho, na igreja matriz da Vila dia 12 do mesmo mês; padrinhos, o reverendo Padre José Maria Barata, parente do meu bisavó materno,e Elvira da Piedade Nunes, ainda conheci muito bem,Dona Elvira morava num casarão imponente no local onde hoje está mini-mercado,ao fundo  da "avenida"  entrada do largo do antigo mercado.

 Casou dia 18 de Maio de 1926, com Aurora Almeida e Silva, natural da freguesia de Pessegueiro , concelho de Pampilhosa.

Tiveram um filho,António, Tonito do Senhor Hermano ,como era conhecido por toda população da Vila,falecido há muito .

O senhor Hermano,amealhou confortável pecúlio, comerciante, dono de  muitas propriedades agrícolas; chegou a exercer os cargos de Administrador do concelho , e Presidente da Câmara Municipal; cargo mais tarde, igualmente, exercido pelo seu neto Hermano, popularmente  Nelito, meu estimado amigo.

O senhor Hermano ,faleceu dia 26 de Junho de 1983,na vila da Pampilhosa, sendo sepultado no cemitério de São Sebastião.Não tive conhecimento,de certeza teria assistido ao funeral...

Aqui deixo memória de uma pessoa, faz parte das lembranças perdidas na bruma do longínquo período da minha infância feliz na terra onde nasci.

Foto da Vila de Pampilhosa da Serra época da minha meninice. 

Antigo Largo da Feira 1.bmp