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aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

19.Mar.21

FESTA DE SÃO JOSÉ

Júlio Cortez Fernandes

Lembro meu pai quase todos dias, por isso, hoje além de evocar com  ternura a sua memória e com alguma mágoa, não posso recolher-me em silêncio, perante a última morada no cemitério da Pampilhosa onde guardamos seus restos mortais, desde modo, decidi assinalar acontecimento relativo a este dia.

Ao tempo deveria ter seis anos de idade, e assisti com a avó Emília, à festa de São José na Aldeia Cimeira, terra da sua naturalidade. O avô Augusto, ficou em Vale Covo porque era necessário, cuidar dos animais e da horta. Avó ainda tinha família naquela aldeia, duas irmãs,  sobrinhos e muitos primos. Ficamos na casa de uma das tias.

Percorri aldeia de lés a lés, confesso que os miúdos daquele altura, não foram simpáticos comigo, era um estranho; as outras pessoas pelo contrário.

Recordo portas das casas estavam abertas, as ruas atapetadas com mato recente, o alpendre da muito antiga capela, um brinco, no ar cheiro a bolos, filhoses, pão de ló, comida da melhor e dos fornos na cozedura da broa.

A sopa de grão, para confecção da qual vi pela primeira vez adicionarem bicarbonato de sódio na panela, cabrito e galinha , eram as iguarias de todas  famílias.

Ao meio dia o Prior da Pampilhosa, celebrou a Santa Missa, com capelinha e tudo em redor apinhado de gente. No interior da orada, flores em todos os cantos.

Após missa, a comida nas mesas em cada casa, tal modo abundante que parecia um casamento. Tinha vindo gente emigrada em Lisboa, e no Porto,  foi uma confraternização muito sentida.

Pela tarde e noite fora bailarico, num terrado com oliveiras centenárias no fundo da povoação, sitio chamavam Ramalhão, roda de baile mandado formado por dezenas de pares, tocadores de guitarra, e cantigas ao desafio. Uma alegria!

O drama da emigração além da desertificação humana, obrigou a mudança das festas para o período do Verão, altura de férias, ocasião única, para os filhos das aldeias, poderem visitar a terra e assistir às festas. Penso que um ano ou dos depois, já São José se festejava no Estio.

Deixámos a Aldeia Cimeira, no dia seguinte, apesar termos passado dias felizes, recordo avó Emília, quando chegados no alto da lomba do barroco da Corga do Laranjo e avistamos a nossa casa, com ampla varanda sacada, janelas grandes rasgadas, sólidas e altas paredes (não vi nenhuma nas aldeias igual) altaneira na fundura do Vale Covo, fumo da lareira subindo no ar através do telhado, sem chaminé, como era uso então, exclamaria: "minha casa minha casinha, merda para rei mais para rainha".

Assim terminava a última festa de São José em que participei na Aldeia Cimeira, que ainda hoje não esqueci... Nem sei o que restará de Vale Covo, será apenas isto?

A Porta da adega da casa...

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