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aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

20.Mai.20

DISCURSO DO PADRE BENJAMIM ALVES - PÁROCO DA FREGUESIA DA PAMPILHOSA ACTO INAUGURAL LUZ ELÉCTRICA NA VILA

Júlio Cortez Fernandes

O senhor padre Benjamim Alves foi o meu baptizante, orientador da primeira comunhão e crisma. Depois "emigrei" para Lisboa, e Benjamim Alves teve igualmente de partir cedendo a paróquia ao Padre Carlos Borges.

Benjamim Alves, meu amigo, fiquei a gostar dele para sempre. Uma pessoa especial. O discurso que  proferiu na cerimónia inaugural da luz eléctrica a Vila de Pampilhosa da Serra a 28 de Setembro 1947; ainda mais  aprofundou a minha antiga impressão.

Discurso : 

Na viagem que o Marechal Carmona, dez há anos as nossas ilhas reclamou depois de desembarcar: Aqui é Portugal. Fazendo minhas as palavras de tão insigne figura, também quero bradar com toda veemência do meu coração de filho deste concelho: Aqui é Portugal. 

Pampilhosa da Serra, também é Portugal, e por isso, não deve este concelho, deixar de acompanhar o movimento progressivo que se vai acentuando Portugal além.

Importa banir o conceito de que Pampilhosa da Serra, é uma região em atraso na vida progressiva; com que mágoa deparo por vezes com certos quadros de vida tão difícil, nestas terras, sem estradas, sem telefones, sem postos de socorros, sem aquele conjunto de meios indispensáveis para que o viver seja menos duro, a este bom povo, lamentáveis condições de vida, de que esta gente não tem culpa e como era justo deviam, porque podiam ser melhoradas.

Um grupo de homens, membros duma Comissão de Melhoramentos, destas terras, procurou entrevistar-se há dois anos com o professor Dr. Marcelo Caetano, quando regia o Ministério das Colónias, a fim de ele se interessar por determinado melhoramento desta região e que seria vantajoso para todo o concelho.

Recebendo-os precisamente a hora estabelecida, S.Exª perguntou intencionalmente : 

"Então a Liga de Melhoramentos de Pessegueiro, ao desejar fazer progredir a sua terra vem falar com o Ministro das Colónias?" 

Sim Sr. Dr, Marcelo atalhou  um dos membros dessa comissão. "É que a nossa terra e todo  concelho de Pampilhosa da Serra, bem podem comparar-se ainda, infelizmente, a uma boa parte da África em atraso".

Torna-se imperioso que esta afirmação, embora em termos de graça, não possa continuar a repetir-se.

O povo desta terra tem sido sempre leal ao nosso Governo, como ainda nas ultimas eleições o provou.

Mas o Governo é por causa do povo, e não  o povo por causa do Governo. E se aqui também é Portugal, torna-se absolutamente necessário que esta região de Pampilhosa da Serra, seja olhada com mais carinho, direi mesmo com mais justiça. Suporta este povo os mesmos encargos que o de qualquer outra parte do País. Ora a justiça distributiva exige que os benefícios outorgados pelos chefes sejam tanto quanto possível iguais para todos. Aqui é Portugal  também.

Não devo deixar de prestar sincera homenagem ao Governo, pelas estradas que já nos deu, pelas escolas que conjuntamente com a Câmara, está fazendo, e por outros melhoramentos que se vão realizando, de colaboração com agremiações regionalistas, que são como que um grito de alma deste povo a pugnar pelos interesses das suas terras. 

Contudo antes de se completarem as obras da ponte sobre o Zêzere em Cambas, quase  podemos dizer que não há praticamente uma estrada que atravesse o concelho. Para telefonar há apenas dois locais, esta vila e o Casal da Lapa. Postos de socorros há apenas um neste concelho, o da vila, amparado pela bondade desta gente.

E quanto a luz eléctrica com verdade informava a dois anos um diário português  "A barragem de Santa Luzia no concelho de Pampilhosa da Serra; é uma das melhores da Península, contudo Pampilhosa da Serra, continua as escuras". Foi penoso para mim esta noticia do jornal, mais penosa ainda a verdade com que nos era dada.

Diz o Evangelho que não se acende a luz para ser colocada debaixo do alqueire, mas sim sobre o candelabro para que alumie a todos.

Pampilhosa moralmente falando tinha direito a gozar do beneficio da luz. A luz eléctrica produzida na barragem de Santa Luzia, que tanto custou a desventurados lares desta região, e que ainda hoje em parte, continuam a viver o seu calvário, em beneficio do bem comum, e até particular, parecia esconder-se debaixo do alqueire, relativamente a este concelho, hoje apareceu, não quis continuar na incongruência de ser produzida neste concelho e não o beneficiar. Cá temos é justo, grande melhoramento para que  a Pampilhosa seja de facto aquilo que é de direito: também Portugal.

Terminou afirmando:

Se foi inaudita a satisfação que o povo desta vila sentiu na ultima quinta-feira, 25 de Setembro, quando a noite se fez experiência da iluminação pública, notando-se um contentamento bem intimo, a que não faltaram lágrimas de alguns, como se fosse o desvendar de um mistério ou fim glorioso para uma terra de promissão, foi muito maior ainda a satisfação, do Sr. Presidente da Câmara professor Gil, ao ver que como por encanto na magia da noite foram coroados de êxito os seus esforços.

O discurso pronunciado na sessão solene realizada na Câmara Municipal,com presença do governador Civil de Coimbra, que não representava ninguém do governo, perante os administradores da Companhia Eléctrica das Beiras, foi aclamado em delírio pela multidão que ouviu através da aparelhagem sonora, na Praça Barão de Louredo.

Parafraseando letra de conhecido fado, posso afirmar: "povo da minha terra, agora, agora é que percebi o desprezo a ditadura no baptismo o recebi".

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