Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

25.Fev.21

TOCAR MÚSICA POR AMOR AO TORRÃO NATAL

Júlio Cortez Fernandes

 Denominado movimento regionalista,manifestação de entranhado amor a terra onde nasceram muitos dos nossos, conterrâneos, em nossa opinião, salvo algumas excepções,   foi vincadamente bairrista .

No inicio aqueles que emigraram para Lisboa, tomaram consciência do atraso e esquecimento da sua aldeia motivado pela incúria dos poderes públicos, resolveram tomar iniciativas, para  realização  do que faltava : escola, fontes, estradas, correio, médico ,etc.

Para isso, lançaram mão de todos expedientes. No distante mês de Fevereiro de 1925,  punhado de naturais da antiga Vila de Fajão, hoje simples freguesia do concelho de Pampilhosa da Serra, resolveram juntar-se. afim de  angariarem fundos destinados custear abertura da estrada, Fajão, a catraia do Rolão, na estrada Pampilhosa da Serra, a Coimbra.

Para conseguirem esse objectivo, fundaram  conjunto musical baseado no instrumento que tocavam, e apelidaram   "GRUPO BANDOLINISTA FAJAENSE ".

O grupo de acordo com lei vigente, baseava-se em estatutos, aprovados oficialmente, e também,  órgãos dirigentes.

Os primeiros foram:

Presidente direcção :José Maria Almeida

Vice - presidente : José Campos

Secretário : António Almeida

Presidente da Assembleia geral: José Maria Azevedo

Maioritariamente ao tempo exerciam oficio de limpa chaminés, trabalho duro, no entanto, permitia conseguir melhor provento, que outras tarefas igualmente árduas.

A musica dos bandolins dedilhados pelos músicos serranos, abrilhantou festas e bailaricos, por toda região de Lisboa. Amealharam suficiente para darem um grande impulso a estrada, dez anos mais tarde a Companhia Eléctrica das Beiras,viria  utilizar para transporte  materiais e máquinas para o aproveitamento hidroeléctrico da Barragem de Santa Luzia.

Lembrei memória destes hoje quase esquecidos, conterrâneos; enquanto puder não permitirei caiam no olvido. 

Certos momentos, quando visito Fajão,  descanso alguns minutos,no largo da igreja matriz, imagino  escutar som maravilhoso, tanto gosto, dos bandolins tocados pelos elementos do " GRUPO ", por amor a sua terra, e hino a solidariedade aldeã. 

fajão vf.JPG

 

 

16.Fev.21

CORRER O ENTRUDO

Júlio Cortez Fernandes

Este ano devido a complicada situação sanitária,o carnaval,parece ter passado despercebido, isto de folgar, devemos guardar para quando houver disposição, e vontade de fingir, que  quadra carnavalesca, é uma alegria...

Hoje veio a memória,  costume, selvagem e grotesco,na Vila onde nasci, nas montanhas xistentas do interior de Portugal; região antigamente, denominada Beira Baixa, até mesmo por aqueles, são contra as regiões. Piadas de carnaval.

Dizia, ainda assisti na meninice , começo da década 1950, " festejos ", de bradar aos céus, ali se realizavam.Um desses chamado " CORRER O ENTRUDO "; consistia, no dialogo publico,consumado em gritaria, e algazarra com bater de latas, toque de chocalhos, tudo entre grupos indivíduos disfarçados, a coberto da escuridão nocturna,colocados a grande distancia; no que lembro, uns estavam no bairro da Aldeia Velha, e outros no sitio do Cabecinho, do outro lado da Ribeira atravessa a povoação.

 Munidos de uma espécie de funil, tal qual , rudimentar megafone,comunicavam entre si, anedotas e parodias relativas a pessoas e as suas vidas, revelando segredos íntimos, e propalando algumas mentiras, para gáudio dos moradores; os quais por dentro dos postigos e janelas de casa, iam ouvindo atentamente. Tudo acompanhado de gargalhadas, e gritos dos arruaceiros.

Este costume, apesar ser antigo, felizmente, perdeu-se, considerado modernamente sem graça e ofensivo.Escusado será dizer estas " arruaças " provocavam desgosto, muita raiva, nos visados, sendo motivo de zangas.

A convivência pacifica das gentes serranas em muitos casos foi " lenda ", havia povoações andavam sempre em clima de hostilidade. Pobre do rapaz pretendia namorar  moça de aldeia diferente da sua. Se não tivesse cuidado, levava que contar. Ai de quem roçava o mato, em terreno que uns e outros consideravam da aldeia.  E pronto! uma alegria, Chiça...

cabrinha.JPG

 

 

13.Fev.21

A VILA LUGAR DE DEPORTAÇÃO

Júlio Cortez Fernandes

Ao longo dos séculos a Vila e concelho de Pampilhosa da Serra, passaram por períodos de abandono , e tratamento, em certas ocasiões vexatório, por parte do poder central, acantonado em Lisboa e Coimbra.

Na vigência do denominado governo da Ditadura Nacional, antecedente do Estado Novo Salazarista, do qual o Professor Oliveira Salazar, fazia parte, sendo Ministro das Finanças, a vila serviu como lugar de degredo interno, facto toda a população sem distinção de classes , repudiou de modo veemente,

Em 1929, a partir do mês de Agosto, começaram a chegar, pessoas, condenadas em tribunal, ao cumprimento da pena de residência fixa, na nossa terra.O primeiro caso seria  individuo, natural e morador em Salreu, perto de Aveiro, respondeu criminalmente , acusado da pratica de bruxaria. 

Mais tarde,  grupo de importantes industriais de panificação em Lisboa, condenados por açambarcamento e especulação de farinhas, foram igualmente " degredados ", para Pampilhosa. Sendo pessoas abastadas, curiosamente , o primeiro acto,  fizeram logo após se terem apresentado ao Administrador do Concelho, foi doarem cada um  quantia 100 escudos,  verba avultada , para época ,  destinada as pessoas carenciadas.

As despesas de estadia, e alimentação eram de conta dos condenados, os quais residiam na Pensão Central, inaugurada, em 1924, dispondo das comodidades, possíveis, numa terra, sem luz eléctrica, nem abastecimento de agua domiciliária.

Toda gente considerava um aviltamento e vexame tal situação, por isso, começou circular,  abaixo assinado em que a população declarava, não iria fornecer géneros, nem guarida ou qualquer espécie de ajuda a quem de futuro fosse deportado para aqui.

 Ilustres Pampilhosenses , residentes em Lisboa, com destaque para Artur Neves,capitalista e prestigiado comerciante na Baixa Lisboeta, havia oferecido a nossa terra,  relógio da torre da Igreja Matriz e  imagem de Nossa Senhora do Pranto, pediu audiência ao Ministro do Interior, para denunciar situação e solicitar medidas urgentes,afim de terminarem  " remessas de gente de longe, para fixarem residência na Pampilhosa da Serra".

O Ministro Ivens Ferraz, seria, sensível aos argumentos de Artur Neves, este solicitou, também  fosse comunicado oficialmente ao povo da Pampilhosa, graças  sua intervenção  aquela Vila deixava de  ser lugar de deportações.

Artur Neves,acalentava, ambições políticas, amava o torrão natal, viria ser Presidente da Câmara, infelizmente, faleceu cedo; as ideias que tinha para progresso do Concelho, foram goradas, trágico para a Pampilhosa.

Sendo muito rico, influente, poderoso na  sociedade da época, teria possibilidade de fazer muito pela nossa região ,também neste caso, a sorte não sorriu a Pampilhosa.

A história da Vila, tem tudo desde despóticos senhores, Vicente Caldeira de Brito,Custódio Castelão de Brito. Priores, nababos como D. Manuel Queixada, ou ainda , caciques, a exemplo de Eduardo Carlos. Desastres naturais, enxurradas incêndios  a " malina dos castanheiros ",  ainda  desprezo governamental , considerou  a Pampilhosa da Serra,  espécie de " deserto africano " para onde se deportavam os indesejáveis de toda a índole. Valha-nos Deus...

ppps1929.JPG

Pormenor da vila em 1929...

 

07.Fev.21

ALDEIA DO DIVINO ESPIRITO SANTO

Júlio Cortez Fernandes

Talvez ao ler titulo algum leitor possa pensar  vamos escrever algo sobre as  belas e lendárias ilhas açorianas, onde culto do Espírito Santo, tem  tradição e acompanha ao longo da vida os naturais do arquipélago, estejam eles onde estejam.

Nada disso, a aldeia acerca da qual decidi dissertar, fica no concelho de Pampilhosa da Serra, freguesia de São Simão de Pessegueiro. Situada a uma altitude de seiscentos e cinquenta metros, encosta virada a sul, Malhadas da Serra,  donde se abarca panorama deslumbrante.

A evocação do Divino Espírito Santo,  única no concelho,  escolha de tal padroeiro, deve estar relacionada com a solidão do lugar; quanto maior é essa sensação mais as pessoas se aproximam do espiritual, afastando-se de tudo que é material,  buscando a paz .

O culto do Divino Espírito Santo, originou nas comunidades onde esta crença é dominante, forte sentimento de entreajuda e fraternidade.

Também aqui se verificou; um exemplo a escola primária da aldeia,  construida em 1930, unicamente a expensas do povo, sem qualquer ajuda estatal ou camarária.

A emigração não esmoreceu essa peculiaridade deste povo. A Comissão de Melhoramentos, foi uma das primeiras colectividades dessa índole fundada em Lisboa.

Com a introdução da cultura do milho no principio do século XIX, dada aptidão das parcas terras para a sua produção, permitiu, algumas famílias Malhadenses conseguissem, com  tempo algum desafogo económico, no entanto, nunca se quebrou a fraterna convivência  dos habitantes,

Visito com frequência as Malhadas da Serra, lembro sempre dona Aurora, nascida aqui , pessoa de quem guardo boas recordações, pelo carinho me dispensou quando era criança; esposa do senhor Hermano,  avó do Nelito, antigo presidente da Câmara, meu prezado amigo. 

A ultima ocasião estive, estacionei automóvel fora do povoado, caminhei ao longo da rua principal, apareceu uma moradora interpelou:  "Você não é daqui ? ". Respondi prontamente: " sou a senhora é  que não me conhece"....As Malhadas da Serra para mim são sortilégio.

malhasaserra.JPG

 

04.Fev.21

UM RETRATO DO PORTUGAL VAZIO

Júlio Cortez Fernandes

 

Voltamos brevemente outro censo da população residente, no território de Portugal, continental e regiões autónomas da Madeira e Açores.

Censo demográfico, é uma operação pela qual se pretende reunir conjunto de dados caracterizam os habitantes de um pais e das suas diferentes circunscrições administrativas, com fins estatísticos de recenseamento; ou seja determinar o numero de pessoas residentes numa dada região, discriminando o sexo,idade , naturalidade, estado civil,profissão,etc.

O  período tempo convencionado para esta tarefa,são dez anos.Os censos permitem conhecer o grau de povoamento de um dado território.

O concelho de Pampilhosa da Serra, considerado, município de montanha devido a maioria dos terrenos, serem  serranias de vales profundos, onde correm torrentes impetuosas durante o  inverno, arrastando o magro solo cultivável, e acentuando processo de erosão.

O recenseamento, é ocasião para de modo, sereno e construtivo,ficarmos a saber quantos somos e como vivemos.

A Pampilhosa da Serra, é concelho , onde desde 1940, se assiste a debandada da população, para outras paragens em busca de melhores condições de vida. Por via disso,  vai ficando cada vez menos povoado. Melhor dizendo vazio.

Percorrer o concelho,  parando em cada uma das aldeias, facilmente constatamos a evidente falta de gente.Não quero dissertar acerca das causas conduziram a esta situação.

Lembrei informação demográfica, coligida por técnicos da então Comissão de Coordenação da Região Centro,  publicada em Dezembro 1982, pelo Gabinete de Apoio Técnico de Arganil, entretanto extinto.

O quadro elucidativo, fica como curiosidade, e também para verificarmos, passados quarenta anos, diminuição da população, foi de igual monta, a verificada nos quarenta anos antecedentes. Será a população, actual cerca de 3500, habitantes, residentes?

Em breve saberemos, se suceder, é trágico, não vale pena argumentar  nas férias ou fins de semana, a população triplica, é difícil provar isso,  sazonalidade não define grau de povoamento.

Em 1950, segundo arrolamento geral de gado, no concelho de Pampilhosa da Serra,  numero de cabeças de gado caprino era 110.000. O Estado apropriou-se dos baldios; mato, e pastagem passaram ser vigiados por policia florestal, multas, para os donos de gado encontrado a pastar, no " domínio estatal ", vida cada vez mais difícil, só restava abalar, com magoa, infinita deixar a terra amada.

Como escrevi no meu livro PAMPILHOSA DA SERRA ; os que abalaram viveram sempre com pensamento na terra natal, e voltavam no Verão, até os laços familiares se foram quebrando. Oxalá efeitos da pandemia actual não contribuam ainda mais para quebrar o que resta, seria doloroso.

PC308339 (3).JPG

 

 

 

 

02.Fev.21

A PONTE DA VILA

Júlio Cortez Fernandes

merda.jpg

 

Durante séculos, para transpor a ribeira que atravessa a vila, existiram , unicamente pontes de madeira, ou como então diziam, de pau. Passadiços rudimentares, simples pontões,por onde não era possível transitarem animais de carga, ou carros de bois, destinavam-se unicamente a peões.

Dentro da Vila,havia duas, uma no sitio do porta ligava, a estrada das Fontainhas a Rua do Pedregal,através da escadaria conhecida como portal.Ambas artérias,ainda existem. Outra ficava, no sitio de Santo António.

Um pouco acima, encontrava-se a Ponte da Covilhã, assim chamada, porque nela passava o caminho, em direcção aquela localidade, e também para a cidade da Guarda, sede da diocese a que pertenceu durante séculos a paroquia da Pampilhosa.

A ponte de pedra, construida, junto ao adro da igreja matriz, seria edificada , por volta de 1863, obra de um dos governos do Cabralismo.

O filho de Francisco Caetano das Neves e Castro, e Dona Rita Queixada, irmã do prior da paroquia ; com idêntico nome do progenitor, nasceu na Pampilhosa, por ter ficado  órfão de mãe, cresceu no solar dos avôs maternos, em Travanca de Santo Tomé; casou com uma irmã de Costa Cabral, dizem por sua influencia fizeram a ponte .

O pai, voltaria a casar com uma senhora do Fundão e tiverem numerosa prole. Voltando a  ponte, sabemos o material para a construção: tijolo, foi fabricado num forno existiu ,no sitio onde  está a casa pertenceu ao falecido Presidente da Câmara José Augusto Veiga,  querido e saudoso amigo. Por ter tido essa função tal local ficou conhecido como " Relva do Tijolo ".

Arco da ponte é elegante e vistoso, infelizmente, algum tempo, aproveitaram-no para passagem de canalização de agua, ocultando o cimbre . Não duvido da necessidade da agua, mas quem sabe, poderiam , talvez, ter encontrado outra solução.

A imagem é elucidativa, cada um ajuizará por si.