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aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

29.Dez.20

" IN MEMORIAN "

Júlio Cortez Fernandes

 Problemas de saúde, complicados deixavam antever desenlace fatal, a qualquer instante: apesar disso,recebi com muita mágoa noticia do falecimento de José Henriques Cortez e Cunha.

 Ilustre conterrâneo, nosso parente, também interessado e apaixonado pelo passado histórico da nossa terra, para divulgação do qual, escreveu vários textos , no antigo Jornal Correio da Serra, dirigido pelo saudoso Padre Carlos Borges.

Lembrança mais remota, retive do Zé Cunha, foi quando entrei para escola primária, já ele andava na terceira classe ,  sentava-se na carteira com outro querido amigo, o Júlio Simões, actual ilustre respeitado clérigo , da igreja paroquial de Alvares.

Depois ao longo da vida tive oportunidade de conversar muitas ocasiões com ele, admirei sempre a  peculiar forma de exprimir num português escorreito e  musical, próprio de alguém  formado no Liceu, Universidade  e vida, no  ambiente singular da cidade Coimbrã.

Culto, de apurado sentido musical, Zé Cunha, foi uma personalidade relevante da vida Pampilhosense.

Autarca distinto muito interessado, na actividade do Município, seria igualmente figura importante da direcção distrital do seu Partido Político.

Dele guardo boas recordações,certa ocasião compareci na Assembleia Municipal, expor problema, para a resolução do qual pretendia , chamar atenção. Lembro quando levantei, para intervir, ele me surpreendeu, com  " olá Júlio, diz lá qual é o problema, sem formalidades ". A questão seria resolvida, muito mais tarde, fora do tempo.Isso não interessa.

Quando no exercício da sua actividade médico, em Avelar , e Cantanhede , uma ou duas ocasiões necessitei de lhe solicitar atenção para determinada questão relacionada com a minha actividade profissional; rápida e diligentemente se interessou para me ajudar.

 Comigo foi sempre solidário,  também gostava de perguntar quando nos encontrávamos, na Vila, " então Júlio como vão as tuas pesquisas sobre a história da Pampilhosa ? ".

A doença, ultimamente padeceu, teve resultado, perder memória.Infelizmente, nunca mais voltamos a conversar .

Guardarei até ao fim memoria do estimado e muito querido Zé Cunha, médico, musico, homem culto , político autarca,  acima de tudo, inesquecível companheiro de muitas tertúlias nas tardes no antigo Café Central, jamais esquecerei.

Para o António , e Carlos, seus irmãos  também meus queridos amigos, deixo abraço solidário neste tão infausto transe.

Descanse em paz.

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23.Dez.20

ESTA CARREIRA TAMBÉM ACABOU

Júlio Cortez Fernandes

Distante ano de 1960, acesso rodoviário passaria a ser da responsabilidade das empresas  camionagem  Martins , sediada em Évora, esta com a ligação da Pampilhosa a Castelo Branco, e Adelino Pereira Marques, de Pedrogão Grande, ligação a Coimbra.

Esta alteração significou desaparecimento da Empresa Viação da Beira, havia sido criada por Pampilhosenses, no final da década 1940.

As paragens referenciadas no horário,fazem ainda hoje parte do imaginário de muitos de antigos passageiros. 

Neste tempo já a lendária importância da Martinha do Rolão, havia esfumado. Não deixa de ser nostálgico, recordar estas coisas.

Infelizmente a carreira Coimbra - Pampilhosa da Serra - Castelo Branco,  tão útil foi para as gentes serranas, ou para quem demandava a montanha, buscando ar puro e repouso, é passado.

O confinamento, evitando contactos contagiosos, tem outra face, dar tempo para voltar virtualmente a viajar nesta carreira da nossa saudade. 

Já agora passem Natal e Ano Novo com Saúde ;que o covid 19, não passe por aí. 

 

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14.Dez.20

DEZEMBRO 1948 - MONARQUIA "ACABOU" NA VILA

Júlio Cortez Fernandes

Quando 5 de Outubro de 1910,se implantou a Republica em Portugal, na Pampilhosa da Serra, para contar o numero de republicanos, seriam suficientes,  dedos da mão direita.

Com  passar do tempo, propaganda e consolidação do regime os adeptos da nova situação política, foram aumentando, no entanto, maioria do povo devido a influencia do clero, continuava saudoso de suas Majestades.

Alguma da burguesia da Vila, ingressou no Partido dos Democráticos, de Afonso Costa, cujo chefe seria durante muito tempo  Eduardo Carlos, notário e empreiteiro de obras públicas,  cuja actuação era anticlerical e de radicalismo político.

Mais tarde a facção moderada, ingressaria no Partido Evolucionista de António José de Almeida. O combate político, assumia em certos momentos , nomeadamente nos actos eleitorais, alguma crispação.

 Toavia personalidade influente , no meio social e religioso da Pampilhosa,seria indefectível seguidor, até ao fim, do ideal da Monarquia.

Chefe da Secretaria da Câmara Municipal, saneado em 1910, reintegrado dez anos depois, com pagamento de salários devidos.

 Jaime Henriques da Cunha, na situação de aposentado, muito alquebrado ,faleceu em casa, Rua do Ribeiro  Pampilhosa, Dezembro de 1948,  na idade 77 anos.

Do que conheço da sua  vida , posso afirmar , amou a vila de Pampilhosa da Serra, como um bom filho quer ao torrão natal, e pugnou pelo progresso da localidade.

Foi sempre valioso elemento, denodamente, contribuiu para o Grupo Musical Pampilhosense. Católico praticante, dedicado as causas da Paróquia, mesmo nos tempos mais difíceis do período republicano,não hesitou sacrificar-se pela sua crença.

Colaborou no jornal Comarca de Arganil, do qual foi correspondente na Pampilhosa, ao longo de uma década.

Apoiante entusiasta do Salazarismo, seria nomeado primeiro presidente da Comissão Concelhia da União Nacional.

A ascensão do Doutor Bissaya Barreto, que tendo aderido ao Estado Novo, nunca deixaria ser republicano convicto, não permitiu a Jaime Cunha, cumprir sonho ser Presidente da Câmara da Pampilhosa.

Deixou viúva Dona Palmira Nunes Barata e Cunha, senhora ainda conheci, cuja casa visitei algumas ocasiões e onde cheguei a brincar na ampla varanda, virada para o largo do ribeiro. Igualmente,da sua descendência, ficaram três filhos, um dos quais José Henriques da Cunha, seria Presidente da Câmara.

No funeral, cujas exéquias compareceram sete sacerdotes, incorporam-se: Irmandade do Santíssimo, Cruzada Eucaristia, e a Vereação da Câmara.

A urna seguiu coberta com a bandeira do Município.

O falecimento de Jaime Cunha, como também era conhecido,marcou simbolicamente  fim da influencia dos ideais monárquicos na vida social e política da Vila. Paz a sua alma !

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10.Dez.20

CAPITAL DO ERVIDEIRO OU DO MEDRONHO

Júlio Cortez Fernandes

Tempo de invernia aqui para estas bandas onde habito; convidativo a reflexão; daí ter repescado texto escrito há tempos, acerca das árvores  que alindavam os espaços públicos da Vila, e foram derrubadas sem dó sem piedade por " arboricidas " sempre existiram naquelas paragens.

E como tema se relaciona com investigação desenvolvi sobre a flora dos montes e vales da terras da Pampilhosa,dei comigo  cogitando:

Em Portugal existem várias localidades onde devido relevante, particularidade, ou actividade económica; decidiram chamar-se  "capitalidade".

Temos  " capital do ovo " " capitais de Vinhos de toda a espécie". " capital da cereja " do "percebe " da chanfana "    "renda de bilros", era possível continuar, tal a profusão de  denominações.

Lembrei então a Pampilhosa da Serra, deveria chamar a si titulo de " Capital do Ervideiro ", se preferirem  " Capital do Medronho ". Ervideiro porque aqui arbusto que produz medronho é conhecido assim.

A primeira acção seria plantar nas bermas da estrada nacional e caminhos da Vila centenas de ervideiros,  igualmente nos sítios públicos emblemáticos do burgo , usando daqueles canteiros imitando madeira , plantarem o arbusto.

Pedir criação na Pampilhosa de centro para estudo e promoção do  " medronho ", como produto de valor económico importante.

Promover junto de proprietários de terrenos florestais ou agricolas de fraca produtividade,  ocupação com plantio de ervideiros; ecológica e economicamente de grande valia.

Quedo por aqui,espero concretizem esta ideia , por mim,  Pampilhosa da Serra , passa a partir de 10 Dezembro  2020, a " CAPITAL DO ERVIDEIRO E DO MEDRONHO "

Também , meu bairro , os ervideiros vegetam bem. Este veio de sitio perto de Castelo Branco. Tem quarteirão de idade...

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08.Dez.20

ORIGEM DE EXPRESSÃO POPULAR

Júlio Cortez Fernandes

A revolução liberal de 1820,cujas comemorações do segundo centenário, também sofreram com esta pandemia; se algo fizeram foi pouco, quase nem demos por isso

Na vila de Pampilhosa da Serra, simplesmente Pampilhosa, como então era conhecida,  fim regime monárquico  absoluto, provocou algum frenesim, diga-se em abono da verdade . coisa de pouca monta, por esta banda, o povo e quem mandava eram todos partidários do Trono e do Altar; mesmo é dizer, adeptos da corrente Miguelista.

No entanto pessoa, de uma tradicional família da terra,assumiu-se  fervoroso partidário do novo regime. Pouco satisfeito com a falta de apoio, sentia existir, deitou pregão no Pelourinho , e na porta da casa da Câmara, proclamando.

"Pampilhosenses, é um patrício vosso que vos proclama certo dos vossos nobres sentimentos, um liberal, por convicção e pelo mais decido amor a Pátria, e a sagrada Constituição  que tão feliz  e sabiamente nos governa ".

O juiz da vila , Miguelista, membro da família Neves e Castro, seria mais tarde cunhado do Pároco Dom Manuel de Queixada,amigo do nosso trisavô alferes na reforma António Fernandes Cortez ; sentindo as costas quentes, desancou no liberal.

"   Sagrada, quem a sagraria ! As igrejas não, sabemos nós que não.Sagradas por Bispos, são as coisas da Religião, ou por ministros sagrados.

Quem a sagraria ? Ah sim foram os pedreiros livres mitrados nas furnas maçónicas pelo ritual instituído  por Satanás, ou pela corja da pedreiral "

Tudo isto e muito mais , originou clima de animosidade na população contra o liberal ; amargamente se queixava, em missiva enviada para a corte onde referia :

O povo do termo da Pampilhosa, é muito rústico e contumaz, e nele não há uma só pessoa que tenha espírito Constitucional, antes todos lhe tem ódio "

Quem escreveu chamava-se Custódio de Mello Castelão de Brito Brandão, natural de Góis,  morador  na Pampilhosa na casa onde residiram de seus avós , já falecidos, Capitão Custódio Homem Castelão de Brito Leitão, e Inês Josefa.

Esta morada corresponde actual residencia dos herdeiros de José Augusto Nunes Barata.

O juiz ordinário , isto é das causas simples,  não licenciado em leis ; Francisco Caetano das Neves e Castro, residente na Casa Branca, filho do antigo Sargento - Mor, Caetano das Neves, e Ana Barata, homem de grande fortuna, conseguida  em parte pelo cargo de recebedor das rendas do Cabido da Diocese da Guarda, resultantes das propriedades que o Bispado possuía na freguesia da Pampilhosa.

 Tão profunda seria a impressão causada por tudo isto no quotidiano dos habitantes da vila, estes para manifestarem publico apoio, faziam o gesto com o dedo da " asneira " como diria o meu neto,  afirmavam  animosidade contra o liberal dizendo :

" PÕE- TE AQUI QUE ÉS DE GÓIS ".

Ficou até hoje essa expressão, na Pampilhosa se aplica sempre que alguém quer dizer  não está de acordo nem se deixa levar em cantigas. A capa do livro verdadeiro " diário " da guerra, politica de 1821, no burgo.

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