Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

30.Nov.20

TRÁGICA NOITE DE SÃO JOÃO

Júlio Cortez Fernandes

Quantas vezes acontecimentos trágicos, inesperados contribuem para mudança do curso histórico de famílias e comunidades.Sucedeu caso dessa índole, na Vila de Pampilhosa da Serra.

Havia decidido, nunca escrever acerca disso;este tempo de rara incredulidade,fez reverter a intenção,  aproveitando  "clausura cívica" eufemisticamente apelidada, confinamento, resolvi escrever.

Dia do Santo 24 de Junho 1929, na noite de Domingo para Segunda-Feira,realizaram-se animados festejos,com tradicionais fogueiras, onde queimavam grandes molhos de rosmaninho e alecrim. A rapaziada, animadamente saltava sobre o fogo, em alegre confraternização.

Em dado momento, talvez tendo excesso de combustível a fogueira expelia muito fumo,  por causa disso , um dos participantes, saltou sem ver do outro lado junto ao fogo, estava um rapazinho , contra o qual chocou , provocando queda desamparada, no solo,tão funesto foi embate, o pequeno ficou inanimado, parecendo  ter exclamado de imediato:  "vou morrer ".

Tudo se transformou de repente a comoção instalou-se, os pais da criança moravam nas proximidades acorreram; o médico Dr. Barateiro chamado, rapidamente, compareceu, os pais do miúdo, queriam alugar  automóvel para transportar o sinistrado a Coimbra. O clínico analisando a situação seria perentorio. face a graves lesões internas, não havia nada a fazer.

As nove horas da manhã de 25, o menino falecia, perante consternação dolorosa e compreensível dos progenitores.

O funeral realizado dia 26 ao meio dia,construiu manifestação, invulgar de pesar , nele se incorporaram, crianças das escolas, a irmandade do Santíssimo, da qual  nosso avô materno era Irmão ,  Filarmónica Pampilhosense,  quase totalidade da população da Vila, e povoações, vizinhas.Toda a gente se impressionou com  dor imensa dos pais.

O desditoso protagonista deste funesto acontecimento, com apenas 9 anos de idade era filho de Palmira Antunes e de Aníbal Augusto Cortez, bem sucedidos comerciantes proprietários da Pensão Central, e estabelecimento anexo.Irmão de Alice mais tarde casaria com José Henriques da Cunha.

O filho varão do casal Palmira e Aníbal, recebeu no baptismo nome de Júlio, sendo conhecido carinhosamente, por Julito.

O rude golpe familiar, em nossa opinião teve também, influencia no desenvolvimento futuro da Vila, porque sendo Ti Aníbal homem, empreendedor detentor  de negócio dos mais rentáveis; com  conclusão da estrada de Coimbra, construção da Barragem de Santa Luzia, e abertura da Ponte de Cambas, a Pensão Central estava permanentemente lotada.Imaginemos , se filho tivesse  a felicidade de ter participado ?

Não se trata de lembrança, este é facto histórico; fazendo parte de tragédia de  família, das mais relevantes da terra, o seu infortúnio condicionou, igualmente, o  progresso da urbe.

Na imagem, em primeiro plano , antes da ponte e da igreja , edifício da Pensão Central.

vlx 6.jpg

 

 

 

 

18.Nov.20

PARECE FOI ONTEM

Júlio Cortez Fernandes

Infelizmente o concelho e Vila da Pampilhosa da Serra,até ao final da década de 1960, estavam incluidos com exemplo de sítios mais atrasados e arcaicos relativamente a condições de urbanismo e pujança económica.

Em 1955, centro da Vila, apresentava aspectos de ruralidade, já desaparecidos na totalidade das sedes de concelho de Portugal.

Recordo ainda tempo da nossa infância,a Rua do Ribeiro, saindo da Praça Barão de Louredo, onde ficava  edifício dos Paços de Concelho,  actualmente instalado o Museu , ligava a estrada nacional , Rua Rangel de Lima, no sitio do Ribeiro,  local de chegada e partidas das camionetas da carreira.dizia  nessa rua seria possível encontrar, três estábulos, abrigando juntas de bois.

Saindo da Praça, a esquerda  pátio ao qual se acedia por portão encimado por uma casa,  era curral da junta de bois da família Antão, conheci bem pai e um dos filhos; a parelha dos bovinos , faziam alem de puxar o carro,mover  roda se alcatruzes  trazia agua para  campo de milho, chão denominado " passal" junto a ribeira, se estendia entre a barroca do Vale da Serra e São Sebastião. A roda ficava onde está agora bar dos Bombeiros Voluntários.

Outro dos poisos de boizinhos ficava onde esteve loja de artigos orientais, vulgarmente,conhecidas " dos chineses". Pertencia ao dono da casa Luís Nunes Almeida, Presidente da Camara,proprietário  entre outras,  da fazenda da Eira de Mendes,  onde se deslocava a cavalo ; a montada, partilhava espaço com os bois.

O ultimo curral boeiro, encontrava-se no final da rua, no baixo da casa nova de António Nunes, onde no primeiro andar, morou a nossa prima Emília Carlota, casada com  popularmente conhecido Pachina.Actualmente é talho e garagem auto dos proprietários.

Veio tudo isto a memória quando reli, trabalho académico, apresentado em 1982 no âmbito da cadeira de Antropologia regida pelo Professor Doutor Raul Iturra, ISCTE, em Lisboa, no curso de Sociologia, intitulado " CARRO DE BOIS EM PORTUGAL " em que referi tudo isto, causando admiração do catedrático.

Não seria caso para menos, talvez algum dos leitores, encontre ,também, interesse neste apontamento.A montanha dominante no horizonte sul da vila, Cabeço da Urra, sempre presente no imaginario dos Pampilhosenses da Vila.

PC034888 (2).JPG

 

 

16.Nov.20

A PRAÇA DA VILA IDOS DE 1927

Júlio Cortez Fernandes

Praça Barão de Louredo, largo da Câmara , ou simplesmente a Praça ; era o centro da urbe, a " vila " como toda gente moradora, na Aldeia Velha, Barreiro, Outro Lado da Ponte, ou em qualquer outro, bairro da Pampilhosa da Serra, quando se deslocava a "baixa"  dizia: vou a Vila.

Na actualidade essa centralidade perdeu-se, o único estabelecimento comercial . ainda aberto, no largo, é loja da Armanda, filha do Armando, antigo industrial de padaria,nosso primo ; seu pai, Ti Certa, irmão da nossa avó paterna Maria  Olinda. E pormenor interessante Ti " Mabília ", mãe do Armando, sendo filha de Maria Cortez, era sobrinha do nosso avô materno Augusto de Vale Covo. 

Historicamente, importância económica da Praça, começou a ser relevante a partir da Revolução de 28 Maio 1926.Depois desse evento podemos afirmar, a Republica, se implantou ,finalmente, na Vila da Pampilhosa.

A maioria das pessoas mais influentes, zangadas com os elementos radicais republicanos, acantonados no Partido Democrático,onde pontificava o notário e empreiteiro de obras públicas, Eduardo Carlos,haviam decidido filar-se no Partido Nacionalista Republicano. Monárquicos até ao fim poucos restaram além de Henriques da Cunha.

Após o 28 de Maio de 26, um sopro de optimismo, tomou conta do ambiente económico e social da terra.

Reflexo desse clima, surgiram na praça alguns estabelecimentos comerciais, dos quais  deu brado na altura.

sapateiro.png

Para além deste, segundo apurei funcionaria no rés do chão da Casa dos Afonsos, existia a loja nova onde esta hoje a repartição de finanças, uma taberna , ao lado da Câmara, na esquina da Rua da Quinta com a do Ribeiro, uma alfaiataria, a casa do ensaio da Filarmónica, instalada na loja da sacristia da capela da Misericórdia, poderiamos afirmar ficava também na praça

A sapataria Pampilhosense, parece não durou muito tempo, vicissitudes, familiares diversas provocaram encerramento.

Hoje lembrança do estabelecimento quase se esfumou,fica este apontamento para memória futura 

 

14.Nov.20

A PANDEMIA DE 1918

Júlio Cortez Fernandes

O tempo de angustia e temor que estamos vivendo, tem muitas "parecenças", com que enfrentaram  nossos antepassados em 1918,também de meados de Outubro a final de Novembro do mesmo ano.

No território de Pampilhosa da Serra, a "parca" como apelidaram a epidemia de gripe pnemonica,ou gripe espanhola,causou nas povoações do concelho, centenas de mortos.

Um nosso antepassado, talvez por razões genéticas felizmente, não foi atacado pelo vírus, sendo requisitado, para auxiliar remoção dos mortos, e ajudar aqueles casos que ficando infectados todos os moradores de uma casa, precisavam alguém que os tratasse.

O numero de óbitos foi tanto, os caixões acabaram, indo muitos para a ultima morada, simplesmente amortalhados em mantas ou lençóis.

Ainda me contou, num dia quando se dirigia a povoação de Aldeia Cimeira, na freguesia de Pampilhosa da Serra, junto a eira, cruzou-se com cortejo fúnebre de sete falecidos.

Habitações inteiras, ficaram vazias; todos os inquilinos pereceram. Uma tragédia, nessa ocasião fechavam e selavam entregando a chave na administração Municipal.

No cemitério paroquial da freguesia de Pampilhosa da Serra, quarta feira 30 de Outubro, foram sepultados 10 mortos , e no dia seguinte mais 6.

Segundo consegui apurar, a epidemia causou cerca de trezentos mortos em todo o concelho. As condições sociais e económicas que seguiram foram terríveis, provocando diminuição da população, e fomentando a emigração.

Actualmente, graças a Deus, não chegaremos a situação similar! 

Aguardo tempo em possa voltar a Pampilhosa matar saudades. Visitar a ultima morada de entes queridos,  em recolhimento dizer ao meu pai, "está a ver estou aqui escusa preocupar-se ". Para todos um abraço.

Esta é a entrada do cemitério municipal, da Vila, como está hoje em dia.

P2257291 (2).JPG

 

 

 

11.Nov.20

CONFRATERNIZAÇÃO DE SÃO MARTINHO MEMORÁVEL

Júlio Cortez Fernandes

Não sei por carga de agua,resolvi revisitar velhinho livro onde querido amigo, já desaparecido, escreveu muitas anotações ao longo da sua vida, e surpreendido deparei com informações pormenorizadas de celebração teve lugar em há 80 anos, tal dia como hoje.

Nessa ocasião grupo de moradores da vila de Pampilhosa da Serra,republicanos e amigos, foram convidados,  participar num almoço para festejarem, São Martinho.

A ementa do petisco, recheada digna de opiparo repasto constava: lombo de porco frito,perdizes de escabeche, retiradas directamente do pote onde estavam guardadas em unto de bácoro,chouriças assadas,peixes do rio fritos; apanhados, na manhã desse dia no poço da Covanca.A broa ainda quente, o forno cozeu nesse dia.

Para finalizar,queijo de cabra, curado, e indispensáveis castanhas produzidas nos castanheiros da Isidora e  no da barroca, um cesto cheio, assadas, em chapa própria, no fogo feito no largo da figueira a porta da adega, onde seria furado pipo de vinte almudes de vinho, que naquele ano era muito bom.

Para a "sossega", apareceu aguardente de medronho,  todos sabiam  de excelente qualidade.Enfim tudo produtos da região

Os amigos presentes, eram um sobrinho dos donos da casa, o filho do falecido notário da Pampilhosa, um professor primário, o responsável da Conservatória do Registo de Civil, o ajudante do notário; guarda livros da fábrica da resineira,e um jovem seria dos mais famosos guarda redes do grupo Desportivo Pampilhosense.

Presentes também algumas senhoras familiares dos convivas.Sendo um dos comensais, tocador de guitarra, houve ensejo para  escutar fadinho serrano

Tudo correu na melhor ordem,  os que regressaram a vila, fizeram-no já noite cerrada.

O acontecimento teve lugar em Vale Covo, arredores da Vila na casa do nosso avô materno, Augusto Cortez. Devido as ideias políticas dos presentes o " pagode " diria  aquele havia sido, o São Martinho republicano.

O que restava algum tempo, da porta da adega onde furaram o pipo

adega.JPG

 

 

 

07.Nov.20

MEMÓRIAS DA ALDEIA DAS MALHADAS DA SERRA

Júlio Cortez Fernandes

Malhadas da Serra, aldeia da freguesia de Pessegueiro, concelho de Pampilhosa da Serra; faz parte do rol de gratas lembranças lembranças do meu tempo da infancia.

O nosso avô Augusto Cortez,muitas ocasiões esteve ou passou por lá.Recordo certa altura, contou-me foi a Lousã a pé, visitar minha mãe, ainda criança, ali se encontrava na casa de parentes em  convalescença e tratamento nos Hospitais da Universidade de Coimbra, de  grave enfermidade.E para ir vir no mesmo dia pernoitou na aldeia abalando, pelas veredas serranas ao dealbar do dia.

Além desse facto uma  pessoa mais me acarinhou quando menino, esposa do senhor Hermano, avó do meu amigo Nelito, antigo Presidente da Câmara, actualmente da Assembleia Municipal , Dª Aurora era natural das Malhadas da Serra.Tudo contribuiu para dedicar a esta povoação carinho especial.

Ocasionalmente encontrei no arquivo das memória , noticia da primeira visita de camioneta de carga, a povoação,

No dia 15 de Agosto de 1940,quinta feira, camioneta pertencente a firma Hermano Nunes de Almeida & irmão,chegou a aldeia. O irmão sócio do senhor Hermano,  Luís Nunes Almeida, seria também Presidente da Câmara nos anos 50 do século xx, como aliás já havia sido sr. Hermano na década 1930,

Curiosamente casaram nas Malhadas, com duas irmãs.Quando  veiculo se imobilizou no largo da aldeia, o sino da capela do Divino Espírito Santo , repicou em sinal de alegria por tão importante acontecimento.

Compareceu  povo em peso, além dos empresários donos da " carripana", encontrava-se  presente o barbeiro do Carvoeiro, sr. Alberto Magno de Oliveira,personalidade de prestigio  muito estimada em toda a região.

Tudo isto passou em 1940,  pela relevância atribuída podemos aquilatar progresso das terras serranas.

Aqui quase mil metros de altitude, horizonte dilatado a perder de vista, viveram-se momentos de esperança em dias melhores.Mas, parece, o que trouxe  o  "camião levou".

Na imagem ao longe, perdido na bruma, casario das Malhadas da Serra 

camião.JPG

 

  

04.Nov.20

TRIBUTO A PONTE QUE RUIU

Júlio Cortez Fernandes

Tomei conhecimento por acaso, confesso fiquei triste. E verdade a ponte da foz da  Ribeira de Moninho,devido a idade e abandono,ruiu, as centenárias pedras do airoso arco, tombaram nas aguas, com a invernia serão arrastadas para longe,

Esta ponte fazia parte do imaginário da nossa infância, quantas vezes por ali passei a caminho da Boguela, horta dos avós paternos e morada estival do avô João Carloto.

Junto a ponte ainda lembro a roda de tirar agua da ribeira tocada a pé nú pela Ti Maria Leonor, viúva do Ti Zé Martins carteiro, possuiam uma fazenda no sitio.

Pensava a ponte seria eterna, puro engano,construida pela Câmara Municipal em 1895,durou 125 anos.Sem dúvida será reconstruida, faz falta para acesso a algumas propriedades, agrícolas e também porque é  caminho pedonal para aldeia dos Covões.

Tudo acaba, faço votos este tempo de pandemia,e alarme sanitário,não venha acelerar ainda mais a desertificação humana das terras da Pampilhosa.

Quem sabe a ruina da Ponte de Moninho, sirva para reflectir  corrigindo o que deve ser.   Oxalá não suceda o mesmo  "ponte gémea" do sitio de entre as aguas, sobre a Ribeira de Praçais na estrada que da Pampilhosa segue para Sobral Valado e Pescansecos .

A Ponte da Ribeira de Moninho,foi muito útil as gentes da Vila de Pampilhosa da Serra,  por ali era  estrada de acesso, antes da abertura da EN 112; beneficiou também as aldeias de Sobral de Baixo e  de Cima , e Covões e desaparecido Casal de Vale Covo ; cumprindo  função esperada.

Merece pelo menos da minha parte este pequeno " tributo " . Foto, vestigios da Quinta dos Silvas , em Vale Covo, cujo acesso carreteiro se fazia pela ponte ruída

P8252558 (2).JPG