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aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

31.Jul.20

SANTA LUZIA; NA SUA CAPELINHA PASSOU TER " COMPANHIA "

Júlio Cortez Fernandes

A capela de Santa Luzia , edificada na inóspida paragem dos penedos da antiga " lapa do Vidual ",para cumprimento de  promessa de nosso conterrâneo, natural de uma aldeia próxima, estaria na origem do nome atribuição a Barragem levantada pela Companhia Eléctrica das Beiras,( C. E.B )no inicio da década 1940. precisamente no Cabril do Vidual, tudo isto, no Concelho de Pampilhosa da Serra.

Parece qualidade dos materiais utilizados, na construção do pequeno templo. não seriam da mais apurada. Assim a orada, foi ficando cada vez mais decrépita.

Há 65 anos,  idade que qualquer mortal, anseia  reforma depois de cansativa vida de trabalho, também a capelinha, passados 30 anos sobre a inicial  "casinha ", precisava de  "reformas ".

Assim aconteceu; Companhia, decidiu. promover obras, seriam inauguradas em Setembro de 1955, com pompa e circunstancia.Não se tratou de simples,recuperação, a C. E. B,  aproveitou ensejo, e decidiu vincar quem de facto era agora proprietário do templo.

Recordo no nosso tempo de infância, pelas serranias da Pampilhosa, existia no povo católico,  devoção sincera  Santa Filomena, muito popular nesses idos.

Na igreja Matriz da Pampilhosa , se não falha a memória, num dos altares da capela mor, a par de São João de Brito e Beato Nuno Alvares Pereira,existia imagem daquela Santa.

Quem sabe , por essa razão os responsáveis da Companhia, decidiram colocar, Santa Filomena, na Capela, sendo a veneranda imagem benzida, na ocasião em que foram concluidas as obras de restauro. Deste modo , desde então a capela, alberga duas imagens. Não sei se ainda será assim, confesso, embora tendo passado algumas vezes pelo local numa franqueei a porta do templo.

Em boa verdade a capela passou desde 1955, ser  de Santa Luzia, e Santa Filomena.

24.Jul.20

PADRE AMÉRICO - VISITOU IGREJA MATRIZ DE PAMPILHOSA DA SERRA

Júlio Cortez Fernandes

No final de Março de 1949,dias de tempo ameno,num deles com céu mostrando algumas nuvens de trovoada,a Vila testemunhou  facto, ficará para sempre na história da nossa terra.

Procedente da cidade de Castelo Branco, onde se havia deslocado , para proferir palestra, de apresentação e propaganda da chamada obra da Rua, ou Casa do Gaiato; chegou pela manhã a Pampilhosa da Serra,  Padre Américo,  acompanhado por quatro " gaiatos " acolhidos na casa que fundara,

Recebido pelo pároco da freguesia reverendo Benjamim Alves,permaneceu na Vila, algumas horas, tendo , aproveitando para visitar demoradamente a nossa Igreja, apreciando com interesse  o templo e recheio.

Padre Américo Monteiro de Aguiar, nome completo, natural de Galegos, Penafiel,na ocasião com 62 anos.Fundou a denominada Casa do Gaiato , para acolher crianças do sexo masculino,  a quem  pobreza e infortúnio, haviam colocado a viverem sem nem beira, na rua.

A primeira casa surgiu em Mirando do Corvo,  iniciou a  prestimosa actividade em Janeiro de 1940,recebendo , rapazes oriundos maioritariamente da cidade de Coimbra,

Depois da paragem na Pampilhosa, seguiu  bondoso Sacerdote, precisamente, para Miranda do Corvo; na despedida manifestou agrado e agradecimento pela forma como  haviam sido recebidos.

Está decorrer  processo de bestificação do Padre Américo, com certeza, será em breve,  Beato,  talvez Santo da Igreja Católica. Oxalá se concretize, para, um dia podermos dizer: ilustre e santificado filho da Igreja, rezou na nossa matriz.

Já agora , porque não colocar no interior, memoria assinalando : NO DIA 28 DE MARÇO DE 1949, ESTEVE NESTA IGREJA O FUNDADOR DA CASA DO GAIATO, BONDOSO PADRE AMÉRICO.

Aspecto do templo na epoca da visita.

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22.Jul.20

EXCURSÃO A BARRAGEM DE SANTA LUZIA - JUNHO DE 1946

Júlio Cortez Fernandes

Barragem de Santa Luzia,pela imponência, e importância, raras  na época da entrada em serviço, e também , pela polémica acerca das indemnizações miseráveis,atribuídas as casas e propriedades agrícolas, da  martirizada aldeia de Vidual de Baixo, suscitou curiosidade em todo o País.

Coimbra sendo capital do distrito, a mais populosa urbe próxima da albufeira,viu aparecerem grupos de pessoas interessadas conhecer , tão falado empreendimento,

No inicio  de Junho de 1946, Domingo dia 2, aproveitando, bom tempo e dias " grandes ", um grupo de 32 pessoas moradores na cidade de Coimbra, partiram manhã bem cedo, ao romper da aurora, rumo a Barragem, afim de conhecerem  a grandiosa realização da engenharia portuguesa.

Pelo caminho todos  admiravam  a beleza da paisagem,que se ia abrindo perante os seus olhos.Chegados ao Casal da Lapa,  visitando demoradamente a barragem, fascinados com  maravilhoso panorama, deram efusivos parabéns a quem tivera ideia de organizar a excursão; Sr. António Rodrigues Oliveira, comerciante proprietário da Mercearia Santa Cruz, afamado estabelecimento da baixa coimbrã.

 Ficaram deveras impressionados com o que puderam visitar, augurando ridente futuro como atração turística para albufeira de Santa Luzia.

Concluída a visita, a comitiva, continuou, e passando pela vila de Pampilhosa da Serra, ai, tiveram  agradável surpresa, o Sr, José Augusto Barata, sendo amigo, do Sr, António Rodrigues Oliveira, ambos haviam combinado, obsequiaram os  turistas com sortido e bem confeccionado lanche.

A surpresa surtiu efeito; para mais o vinho servido, o delicioso clarete da quinta de São Martinho, propriedade do Sr, José Augusto fez furor.

Confesso dezoito anos depois iria  beber desse vinho, atesto a qualidade; mais uma vez quem afirmava , na Pampilhosa  o vinho não era grande coisa, é porque nunca  bebeu deste vinho , ou o do nosso avô João Carloto , na adega da casa no sitio do  Barreiro, na Vila.

Terminado repasto, na casa solarenga de José Augusto Barata,teve lugar baile, animado pelo conhecido maestro Cesar Magliano, um dos  participantes,  titular do  "sexteto jazz band" conjunto  fazia furor na Coimbra desse tempo.

Aquele maestro , fundou o rancho das tricanas , foi exímio guitarrista do fado de Coimbra. Baile teve grande sucesso; no final  os excursionistas,  partiram ,não sem antes agradecerem aos donos da casa, e a sua filha, também estava presente, toda a simpatia, e hospitalidade que haviam recebido naquela ocasião.

Enfim! dia memorável, na vida social da vila de Pampilhosa da Serra.Que aqui recordo e partilho com os leitores.

Foto da barragem de Santa Luzia há tres Invernos passados.

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20.Jul.20

BARRAGEM DE SANTA LUZIA - E SE NÃO CHOVER ?..

Júlio Cortez Fernandes

Analisada com distanciamento de quase um século, construção da Barragem de Santa Luzia , no concelho de Pampilhosa da Serra,foi indubitavelmente, desenvolvida para proporcionar lucros imediatos e fabulosos aos donos da obra, sem olhar a meios para atingir os fins.

O dinheiro necessário , seria disponibilizado pela Caixa Geral de Depósitos, através de empréstimo autorizado e apoiado sem reservas por Oliveira Salazar, Presidente do Conselho, e Ministro da Finanças.

O empreendimento desde a fase preliminar, considerado por técnicos  abalizados, de risco elevado; apesar pouco significativa área da bacia hidrográfica  da albufeira ,50 km2, sendo  origem  principal da água, a chuva, sempre  problemática e inconstante na região;alguns questionavam,  possibilidade de enchimento normal da barragem 

No perambulo do documento relativo ao processo de financiamento, lemos : " Embora  os peritos encarregados de estudar ( in loco ), as características do projecto, colocarem algumas reservas, quanto ao resultado dos estudos udométricos, feitos pela Empresa ( Companhia Eléctrica das Beiras ), este facto não implica porém a condenação do projecto." Recordo designa-se   udómetro ou pluviómetro , a instrumento que serve para medir a quantidade  de chuva que cai em determinado lugar. 

Um accionista, amigo de Oliveira Salazar, garantia nenhum obstáculo conseguiria parar o investimento.Objectivamente; existiam perspectivas de grandes proventos a curto prazo, resultantes da possibilidade venda da electricidade as minas da Panasqueira e fábricas da Covilhã.

Em 1942, copiosas chuvadas na região, permitiram,iniciar a produção de energia; a central na aldeia do Esteiro, e  linhas de transporte a 60 Kv, na direcção de Coimbra, e 40 Kv, no sentido da Covilhã, estavam concluídos, antes do dique da albufeira, estar completo.

Decorrente da guerra mundial, a penúria de fuel para as centrais, produtoras de electricidade permitiu a CEB, vender   energia produzida, a preços, de tal modo elevados, o empréstimo da Caixa, seria amortizado, num ápice. Tudo parecia correr de feição.

Terminada  guerra, seca severa,fazendo descer nível das águas na albufeira, de tal modo,  casas e propriedades, alagadas , expropriadas aos antigos moradores  da aldeia mártir de Vidual de Baixo , ficaram de novo  a luz do sol.

  Concretizavam-se  reticencias quanto a escassez de água. A imprensa noticiava, "  A experiência  veio a  confirmar  a suposição  dos que afirmavam serem insuficientes, as águas daquela  bacia para  encher uma albufeira de tão grandes dimensões "  

Apressadamente,  com recurso a capitais próprios, a Companhia, concluiu em 1950 obra do Alto Ceira, e  túneis para levar água a barragem de Santa Luzia,  tentando resolver a situação.

A problemática das alterações climáticas, coloca questão  na ordem do dia.Se não chover com abundância ao longo de dois ou três anos, qual seria o efeito ?

Esperemos  tudo se resolva, não tenhamos , confirmar  conhecido adágio " o que nasce torto , tarde ou nunca se endireita ". Ou tal qual costumam dizer habitantes da localidade alentejana de Amareleja, uma das  mais secas de Portugal. SE NÃO CHOVE VAI TUDO POR ÁGUA ABAIXO.

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07.Jul.20

FIM TRÁGICO - ARTISTA VARIEDADES NATURAL DA VILA

Júlio Cortez Fernandes

Foi personalidade conhecida, no mundo do espectáculo, natural da vila de Pampilhosa da Serra, faleceu tragicamente em 2014.

Um preâmbulo sintético para começar a história, onde a realidade e a ficção são quase de molde igual, neste caso, e antes que surja comentário usual "até parece mentira".

No inicio da década 20 século passado, no ano 1924, mês e dia que desconheço, nasceu na freguesia de nossa Senhora do Pranto uma menina, filha do casal Maria da Soledade Olivença e João Borges, no baptismo receberia nome de Maria Urbana Borges.

Viveu da Pampilhosa ate aos 8 anos de idade, onde concluiu a primeira classe  escolar, indo depois para Coimbra viver com familiares; posteriormente rumou a Lisboa, onde viria a frequentar o ensino secundário.

Com 18 anos completados, ingressou na vida artística, primeiro no teatro de revista, onde conheceu artistas famosos na época como: Herminia Silva, António Salvador, José Viana, Barroso Lopes, Irene Isidro, Anita Guerreiro cuja madrasta curiosamente era natural da Pampilhosa, entre outros. Participando também nas revistas: José Aperta o Laço, Saias Curtas, Ele aí Está na Mesma, Viva o Homem, etc etc...

No género da comédia, estreou-se ao lado da grande actriz Laura Alves, no desaparecido Teatro Monumental na peça "Viva o Luxo" que subiu a cena 1953.

Actuou em diversas salas de espectáculo como: Maria Vitória, Coliseu dos Recreios de Lisboa, Coliseu do Porto, Teatro do Funchal na ilha da Madeira, integrando o Ballet espanhol, trabalhou em todo país. Nunca viria a deslocar-se em trabalho ao estrangeiro, mas viajou por toda a Europa em turismo.

Foi cantadeira talentosa de fado! Cantou em espectáculos públicos, jamais em casas típicas e tocava bastante bem guitarra, talvez fosse ensejo permitiu conhecer o grande guitarrista Raul Nery, de quem, mais tarde seria companheira. Não gravou qualquer disco.

Amealhou meio de fortuna, deslocava-se a amiúde à Pampilhosa para visitar os pais que cuidou sempre com  desvelo e carinho, as viagens breves, duravam normalmente um ou dois dias. Auxiliava instituições de benemerência, e quem precisava, sem fazer alarde disso.

Sua mãe morreu na Pampilhosa em 1972 e o pai em Lisboa 1982, não deixaria descendência.

Adoptou o nome artístico de Rosa Maria Borges, António Salvador, grande actor, chamou-lhe: ROSA SERRANA.

Em Março de 2014, com cerca 90 anos, viúva  de Raul Nery, morreu carbonizada em consequência de incêndio deflagrado no terceiro andar do prédio, onde habitava na Avenida das Forças Armadas, perto do Hospital de Santa Maria em Lisboa.

Vivia solitariamente, acompanhada por inúmeros gatos, e um papagaio, ocupando-se igualmente, de felinos vadios a quem providenciava, comida na rua.

Parece na última fase da vida teria problemas mentais. Infelizmente, acabou de modo trágico, esquecida de todos, principalmente dos conterrâneos, a maioria nem saberiam, sequer da sua existência.

A fotografia é do tempo em que actuava no teatro.

Era uma  mulher bonita.

Paz a sua alma.

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01.Jul.20

TOPONÍMIA DA MONTANHA - ORIGEM E SIGNIFICADO DE FAJÃO

Júlio Cortez Fernandes

Vale do rio Ceira, aqui fica antiquíssima vila de Fajão, actualmente integrada no concelho de Pampilhosa da Serra,sendo município autónomo até 1855.Lugar de sortilégio lendário, que Monsenhor Nunes Pereira, natural do burgo,magistralmente tratou.

Origem do topónimo tem dado aso a intrincadas suposições indo desde cavaleiros godos, almocreves , até ... faisões.

Fajão em tempos recuados,teve nome de aldeia de Faia, e escrevia-se Haya,tal ainda hoje se escreve no castelhano. A vulgarização da escrita e separação dos idiomas, passou a Faya. A lera Y por erro e descuido dos escribas,transformou-se em J, dando Faja.

A bosque cerrado e extenso de faias ou bétulas, chamavam Fajam, ou seja faial grande.Fajam passou a Fajão.

A floresta de faias  estendia-se do rio Ceira , a ribeira de Unhais, junto a aldeia de Vidual de Baixo, afogada pela construção da barragem de Santa Luzia,na década de 1940.

Vidual também provém de bétula ou vidoeiro, o outro nome da árvore, tudo se completa; faial também designa " um precipício ", penhasco, penedia.

A paisagem, conserva indícios indeléveis relativos a floresta,apesar do derrube secular , e incêndios, resta  topónimo Mata.Vertentes ora escalvadas, onde crescem mato e silvas,exibiram outrora , denso bosque de bétulas, carvalhos e castanheiros, a sombra dos quais , quem sabe?, vagueariam duendes e faunos.

Plínio escritor romano,dizia da bétula originária da Gália, antiga região da França actual, obtinham-se, as varas dos magistrados, lembremos o Juiz de Fajão; igualmente, vergas e aros necessários ao fabrico de cestos e canastros.Complemento do que podiam obter do rio para elaborar  "ceiras", dos lagares.

Deambulamos por territórios, afastados recondidos; conservaram até há pouco, tradições, contos, e usos singulares.

A bétula,teima, agora, surgir aqui e além. Celtas  associavam-na a lua e ao sol. Esta duplicidade, feminino masculino, mãe e pai,contribuiu para  atribuirem árvore, papel de protecção, espécie de para-raios. por onde escoava influencia celestial.

No entendimento de Chevalier e Gheebrant,  bétula "simboliza caminho por onde desce a energia do céu, e por onde sobe a aspiração humana, rumo ao alto".Será, por isso , conforme demonstram estudos efectuados, Fajão  será  melhor sitio do Mundo , para instalação sistemas de telecomunicações   destinados sondar confins do universo ? Local secreto e sagrado desde tempos imemoriais ?

Sinto-me  qual humilde " arqueólogo " perante um achado valioso.

Fascina-me escrever contemplando o vale , desamparado ermo, triste, longe de gente, sem ouvir chocalhar dos rebanhos.

Protegido por guardiões invisíveis, ficando séculos, intocado,  selvagem . Além de características geográficas e hidráulicas, mais qualquer outro rio Luso,  Rio Ceira, na lonjura do isolamento na montanha, é maravilhosa criação de Deus,  suscitando emoção difícil de explicar.

Fajão grande floresta de faias ou bétulas, fascinou, também  grande escritor Miguel Torga, quando aqui aportou. 

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