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aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

30.Jun.20

JUNHO 1920, A IGREJA MATRIZ DE PAMPILHOSA DA SERRA RECEBEU IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO PRANTO; ORAGO DA FREGUESIA

Júlio Cortez Fernandes

Assinalo, centenário da entrega, oferecida por ilustre Pampilhosense, Artur Neves, residente em Lisboa,curiosamente socio gerente da empresa de produtos quimicos CENTENO & NEVES; na Rua da Prata naquela cidade.

A belissima imagem seria colocada no seu altar a 15 de Agosto do mesmo ano.Oxalá ainda se lembrem  comemorar condignamente a efeméride.

Cumpri  dever não deixar passar em claro, o acontecimento.

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29.Jun.20

FESTA BENÇÃO DA NOVA IGREJA DA VILA: FOGO DE ARTIFICIO DUROU UMA HORA.

Júlio Cortez Fernandes

No tempo de menino, logo que aprendi as primeiras letras, comecei a soletrar as gravadas na porta principal da igreja paroquial da vila e o ano nela igualmente esculpido 1911.

Prometi, que um dia iria saber o significado de tudo aquilo. Diziam-me ser aquele o ano da inauguração do novo templo, edificado em substituição  do destruído pelo fogo em 1907, não fiquei convencido!  Procurei saber tal qual  deveria ter passado. Cheguei lá, aqui para nós, pensei guardar a  "descoberta" para mim.

Neste espaço, decidi deixar  resultado do labor intelectual, a será ,eventualmente, útil para todos.

O reverendo Urbano Cardoso Pároco da Pampilhosa, tragicamente falecido, não pode assistir a tão relevante acontecimento, para concretização tanto pugnou. No dia 14 de Agosto, muito quente durante o dia e orvalhado e fresco de noite, uma quarta-feira, iniciaram-se as festividades da sagração da Igreja Matriz.

A diocese de Coimbra com o Bispo exilado, governada por cónego, não se fez representar no acto. A Pampilhosa da Serra, desde longa data, parece ser terra onde as autoridades, sejam civis ou religiosas, primam pela ausência nas ocasiões importantes.

A comissão encarregue de organizar o evento, contou com grande apoio do povo e das personalidades católicas, garantindo meios suficientes para  solenidade em forma, e assim  "vingando" a afronta da festa de Santo António  de que  dei nota aqui.

Pela  meia noite de 14 tocou e tocou a Filarmónica da Vila, junto do templo,  repicando pela primeira vez os sinos do campanário. A partir do alto da torre, foi lançada  girândola estripitosa de foguetes.

No dia 15 de Agosto, houve alvorada com foguetório e música. E procederam a bênção da Igreja, o Prior da Pampilhosa e o pároco de Alvares, reverendo Manuel Fernandes das Neves e o pároco de Machio, reverendo José Lourenço Antunes de Almeida.

Seguidamente a Irmandade do Santíssimo Sacramento, o Prior reverendo Dr. Augusto Lima, a banda, e as crianças da primeira comunhão foram esperar  a entrada da Vila, no sitio das Fontainhas as imagens de São João vinda da aldeia de Soeirinho, Santa  Eufémia da aldeia da Povoa a que juntaram a de Nossa Senhora e São Sebastião da Vila. O cortejo dirigiu-se à Igreja da Misericórdia.

A partir da Misericórdia, conduziram em procissão o Santíssimo Sacramento, para a nova Igreja, onde foi exposto no seu trono a adoração dos fiéis, que  enchiam completamente o templo, apesar de amplo. Estava todo ornamentado a preceito, profusamente iluminado, era tal a surpresa, presentes ficavam boquiabertos.

Depois da celebração da Santa Missa, cantada a grande instrumental, com participação da música, iniciou-se a procissão tão imponente,  que nunca se vira outra assim na nossa terra. Percorreu as ruas da Vila, engalanadas de verduras arcos e flores, estando chão atapetado de fetos, alecrim, rosmaninho e urze.

Terminadas as cerimónias religiosas iniciaram bailes e descantes, onde participaram milhares de pessoas vindas da Freguesia, todo Concelho de Pampilhosa da Serra e vizinhos de Oleiros e Góis.

Segundo diziam devem ter assistido as memoráveis festas, mais de 2000 pessoas; sem forças de policiamento não houve qualquer desacato.Todavia estaria para acontecer algo  levaria a multidão ao delírio quase loucura!

Às duas horas da manhã do dia 16, seria lançado fogo de artificio da responsabilidade de pirotécnico da Sertã; durou até  às 3 da manhã! No final  a emoção  visível no rosto de todos; na Pampilhosa existia finalmente Igreja condigna, na época a mais ampla e vistosa desta região da Beira. 

É costume dizer-se que: "a vingança  se serve fria", neste caso, os católicos, os adeptos da Monarquia, e republicanos moderados deram lição aos republicanos funamentalistas, do burgo. Infelizmente, como veremos ainda a procissão ia no adro.Vou continuando..Foto da Igreja volta 1920.

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24.Jun.20

HÁ 80 ANOS ERA ACONSELHÁVEL MARCAR LUGAR NO TRANSPORTE PARA A VILA... HOJE

Júlio Cortez Fernandes

Tenho acompanhado as diligencias que alguns patrícios tem promovido , no sentido de repor indispensáveis transportes públicos,para servirem quem vive ou deseja visitar a vila de Pampilhosa da Serra.

Curiosamente,encontrei, prospecto, distribuído por altura das festas do 15 de Agosto,celebradas na vila, decorria  ano de 1940.

Na simplicidade  da informação,podemos encontrar referencias interessantes, para aquilatarmos  situação social e económica da nossa região , naquela época, e meditarmos, no lento definhar do decréscimo propulacional, ou como diversas vezes referimos, duro e gélido inverno demográfico , vai cobrindo montes e vales da nossa terra.Em 1940 a população do concelho era cerca 16.600 habitantes. 

A empresa VIAÇÃO DA BEIRA, concessionária da carreira autocarro estação de Caminho de Ferro da Lousã - Vila de Pampilhosa da Serra, e  mais tarde  partir de 1952,  iria estender de Coimbra a Castelo Branco; como dizia, aquela empresa preocupada com  possibilidade de utentes, ficaram apeados, por falta de lugares, solicitava a eventuais passageiros o favor  " comunicarem por um simples postal e com a antecipação de três dias, o numero de lugares que pretendem e bem como dia em que desejam viajar"  lembravam os proprietários da camionagem , " só assim poderiam pedir desdobramento, pois no trajecto Lousã-Pampilhosa não havia telefone ou qualquer outro meio de comunicar ".

Esclarecedor do atraso da região e carácter moderno, atencioso  com os passageiros da parte da Viação da Beira, empresa que era gerente,  ilustre conterrâneo.

Face  a situação actual, caso para afirmar, neste aspecto, houve grande retrocesso.

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23.Jun.20

PROVÉRBIOS DA NOSSA TERRA RELATIVOS AO MÊS PASSADO

Júlio Cortez Fernandes

 

A tradição cultural,de raiz popular, tem modo ímpar de se expressar, os provérbios.Existem , como sabemos, " ditados " para tudo,nunca canso de referir alguns considero, singulares e genuínos, da região onde nasci.

A propósito, partilho com os  leitores,  recolha de provérbios populares , tendo como tema, Maio:

- QUEM O CUCO OUVIR ANTES DE MAIO, JÁ NÃO MORRE NESSE ANO. 

- EM MAIO COME AS CEREJAS AO BORRALHO

- GUARDA PÃO PARA MAIO ; E LENHA PARA ABRIL

- A TI CHOVA TODO ANO E A MIM CHOVA ABRIL E MAIO

- ENXAME DE MAIO, A QUEM TO PEDIR DA-LHO,E DE ABRIL, GUARDA-O PARA TI. 

- CHUVINHA DA ASCENCÃO DAS PALHINHAS DÁ PÃO.

- A BOA CEPA EM MAIO A DEITA.

- MAIO COUVEIRO NÃO É VINHATEIRO.

- MAIO COME O TRIGO E AGOSTO BEBE VINHO.

- MAIO PARDOSO FAZ O ANO FORMOSO.

- MAIO PARDO FAZ PÃO GRADO.

- MAIO PARDO E JUNHO CLARO

- QUANDO MAIO CHEGAR QUEM NÃO ASOU HÁ-DE ASAR

- EM ABRIL QUEIMOU A VELHA O CARRO E O CARRIL, UM RODADO QUE LHE FICOU EM MAIO O QUEIMOU.

- FOME DE MAIO E FRIO DE ABRIL SEMPRE VIERAM E HÃO- DE VIR.

Por hoje fico por aqui.Sendo Maio tempo de flores, vem a propósito...

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21.Jun.20

PROVA INEQUÍVOCA DA FORÇA DO REGIONALISMO

Júlio Cortez Fernandes

O povo da aldeia de Vidual de Cima, sede da antiga freguesia do mesmo nome,viu aguas da albufeira da barragem de Santa Luzia, afogarem para sempre o Vidual de Baixo, assistiu ao choro e raiva dos habitantes daquela terra , perante  saque dos seus parcos pertences, sem dó nem piedade ,para satisfazer, a gula capitalista ciosa de lucros fabulosos; e sem apoio do Estado, que os deveria ter protegido.

Destruídas as melhores terras de cultivo, do Vidual de Cima, os Vidualenses , banhados pela água ,da albufeira, a escassos quilómetros da central, produtora de energia, tiveram esperar cerca de vinte anos, chegasse a luz eléctrica ao povoado.

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Em 14 de Junho de 1964, radioso Domingo, seguinte ao dia da festa do seu Santo António , padroeiro do Vidual, graças ao empenho da sua Liga de Melhoramentos, que angariou a quantia de 80.000, escudos, oitenta contos , como se dizia na época, quantia significativa, pagou a maior parte do custo da obra de electrificação do burgo.

Presidiu as solenidades, Presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, José Henriques da Cunha; em nome da autarquia prometeu 14.000 , escudos para ajudar a pagar a obra,

 Autarca e muito povo, dirigiram-se para o sitio da Lomba, onde ficava   posto de transformação eléctrico,seria benzido, pelo pároco da freguesia Padre José Salvador Almeida.O presidente da Câmara , cortou a fita simbólica, energia seria ligada pelos Engenheiro Manuel Lemos da Companhia Eléctrica das Beiras,  e ilustre vidualense Professor José Nunes Brito.

Num ápice as lampadas da iluminação publica acenderam,perante grande emoção e jubilosa alegria de todo povo, na maioria dos olhos de quem assistia brotaram  lágrimas .

 Data memorável, para os habitantes do Vidual de Cima ; graças a união em torno da Liga de Melhoramentos do Vidual, modelar exemplo da força e capacidade de realização do movimento regionalista, conseguiram aquilo  já deveriam ter há muito, por direito, Luz eléctrica.

Os penedos do Carvalhão nunca mais seriam sombras medonhas nas noites sem luar.

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19.Jun.20

MEMÓRIA DE MOINHOS DE VENTO; NA MONTANHA DE PAMPILHOSA DA SERRA

Júlio Cortez Fernandes

Moinhos de rodízio de reminiscências romanas,conheci para aí uma dezena,tocados pela agua de ribeiras e barrocos,  maioria no arrabalde da Vila de Pampilhosa da Serra, ainda lembro dois moinhos desse tipo, no encantado  Vale Covo,onde passei momentos inesquecíveis.

Quando iniciei  deambular pelo concelho, deparei alguns mais, sempre movidos a força da água, e por isso,  chegado o Verão ,faltando precioso liquido, vários paravam, resultado da severa estiagem  nestas paragens.

A angustia,atormentava a gente das aldeias, obrigadas a calcorrear  quilómetros de maus caminhos, para moerem o milho, o centeio , mais raramente o trigo , para conseguirem farinha , necessária ao fabrico do pão nosso de cada dia.

Conscientes da necessidade das populações,um ou outro,  haviam emigrado, tentaram resolver problema recorrendo, a diferente tipo de moinho.

As serranias desta região, sempre foram " morada " de fogo e vento; vento forte quase perpetuo , actualmente, força motriz de geradores eólicos , que coroam linhas de cumeada, por aquelas serras além.

Surgiu a ideia de construirem moinhos de vento, nas aldeias onde no Estio  moinhos  ficavam mansos e quedos a mingua de água.

Confesso ,nunca ouvi referencia a existência de moinhos de vento, fiquei surpreendido, ao deparar noticias acerca de moinhos deste tipo.

O primeiro , moeu na aldeia de Soerinho, mais antiga, A-de-Soeirinho, ou ainda Dessoeirinho, pertencente a freguesia da sede do concelho.

O senhor António de Almeida, nascido na terra, na era de 1924, residindo em Lisboa,sofria com sacrifício dos  patrícios , necessitavam  deslocar-se ao Colmeal , no concelho de Góis; a Mata perto de Fajão, e outros locais para moerem o milho.

Para efeito mandou construir na povoação, moinho de vento "de fazer farinha " teria começado a laborar, em Setembro de 1924.

Pela mesma razão, António Alves de Pescanseco do Meio, resolveu instalar  moenda identica naquela aldeia, da mesma freguesia.

Não conheço local exacto onde se situavam .Vagamente ouvi falar certa ocasião,num sitio do "moinho de vento"  em Soeirinho.Alguém sabe algo acerca disto ? Gostaria saber. Mesmo assim,irei continuar buscando memória de moinhos das montanhas da nossa Terra; que  vento movia, e o vento levou .

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16.Jun.20

TOPONÍMIA DA MONTANHA - ORIGEM E SIGNIFICADO DE VALE SERRÃO

Júlio Cortez Fernandes

Vale Serrão, aldeia da Freguesia de Pampilhosa da Serra, está situada na encosta sul da montanha do Cabeço da Urra, a  altitude média de 530 metros  de onde se desfruta panorama esplendoroso, dos meandros do vale do curso médio do Rio Zêzere, da Vila de Álvaro, alcandroada no espinhaço da colina, e imponente cordilheira da serra de Alvéolos, antigamente albergou a frondosa e cerrada mata , de castanheiros e carvalhos seculares.

Orago da povoação é Nossa Senhora das Preces. Visitei a aldeia, algumas vezes, no passado,lembro uma delas, para acompanhar , minha tia avó materna , Patrocinia Mota, da Aldeia Cimeira, desejava rever uma Irmã, Encarnação, vivia na localidade desde que pelo casamento para lá se retirou.

Acerca de Vale Serrão poderia escrever muito, porque há temas e assuntos para isso.Nesta ocasião, não irei cingir-me ao topónimo, fácil decifrar o significado de Vale Serrão; é óbvio.

Interessante, discorrer acerca da origem do povoado.Vale Serrão, no século XVIII,era terra de gente abastada, com fortunas consideraveis.De onde provinha abastança ?.

Perto de Vale Serrão há  pequeno lugar, de nome TRAVESSA,  significando  sitio onde negociam, transaccionam, clandestinamente, géneros alimentares ou outras mercadorias de fácil venda,muito necessárias ;local alguém se atravessava  ficando com a carga dos almocreves, e dos barqueiros do rio, para não chegarem ao destino,  assim provocarem falta, e aumento dos preços.

No atravessamento,actividade permitida por lei, atravessador exercia função  de intermediário  especulador.

A Travessa, fica perto da aldeia de Maria Gomes, durante séculos, pertenceu eclesiasticamente a Alvaro, portanto ao Priorado do Crato, da Ordem Militar de Malta,

Receando, problemas com gente tão poderosa, transferiram, negócio de atravessar, para novo local, fora de qualquer jurisdição dos senhores priores do Crato.

Vale Serrão, progrediu graças ao engenho e arte de seus moradores,  negociando por atacado, açambarcando géneros alimentícios, trigo , centeio  e mais tarde milho, e outras mercadorias, para rarearem nos mercados da Pampilhosa e de Alvaro,depois revenderem com lucro garantido, amealhando fortunas.

Hoje deste modo de vida, nada resta, Vale Serrão, conserva poucos habitantes, da antiga grandeza , fica esta " memória ".

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15.Jun.20

AURORA BOREAL ATEMORIZA POPULAÇÃO DA VILA

Júlio Cortez Fernandes

Inverno inclemente,temperatura gélida, segunda-feira 21 de Janeiro 1957,seriam dez horas e meia da noite,no burgo já quase todos dormiam ; de repente no horizonte do setentrião, sobre o monte onde se ergue a capela em honra de Nossa Senhora de Fátima, nas cercanias da vila, começa a vislumbrar-se, clarão de luz avermelhada, cor sanguínea, dando  impressão,do Norte de Portugal, estaria a ser consumido por terrível incêndio.Clarão vermelho parecia projectado por potentes holofotes.

Quem estava acordado, começou a manifestar espanto, em voz alta, clamor despertou muita gente, num ápice, todos olhares se fixaram, naquele enorme luzeiro, de origem desconhecida.

Havia pessoas  saíram a rua e ai rezavam, pedindo a protecção divina,começou a circular aquilo era aurora boreal; sinal que estaria eminente a terceira guerra mundial.

O ultimo fenómeno com tal grandiosidade , ocorreu em 1937, e associavam esse " aparecimento " a guerra civil de Espanha, prenuncio da segunda guerra mundial.A aurora boreal , iria ser observada não só todo País . mas também , na Europa inteira, na nossa vizinha Espanha, o povo pensou, fosse clarão de bomba atómica lançada sobre aquela Nação, pelos inimigos do regime de Franco.

A duração da aurora boreal, seria longa,cerca  meia hora,por isso  alarme foi grande entre a população, imaginando qualquer perigo grave se abateria sobre o globo terrestre.

Acontecimento, serviu de tema as conversas durante dilatado tempo; rezaram-se mais terços, aumentou participação dos crentes  no apostolado da oração paroquial.Tudo passou lentamente, como diziam na altura, " valha-nos Deus, foi um grande trespasso ".

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No cume destes cabeços , pairou a aurora boreal

13.Jun.20

" GUERRA " DAS FILARMÓNICAS - 13 JUNHO 1912

Júlio Cortez Fernandes

Dia era quinta-feira, amanheceu com céu limpo, tempo ameno, ligeiro vento fresco, soprando dos lados da serra, conhecido por "agueira".

Na Pampilhosa da Serra,pressentia-se atmosfera, tensa, apesar do  dia  de Santo António, ser normalmente  ocasião para folia e divertimento,verdadeira animação sendo boémio e simples, casamenteiro,animava como nenhum outro a gente da vila, maioria  criaturas singelas, e diga-se em abono da verdade sem grande espírito religioso, relativamente ao Santo.

As 9 horas da manhã, vindo a frente o tesoureiro da festa,e republicanos radicais," capitaneados ", pelo médico, Gouveia,sem acompanhamento popular,somente dois rapazes contratados , para efeito, iam deitando foguetes,

Percorreram as ruas da vila,seguindo em fila, para a ermida de Santo António, naquele tempo acesso por uma estreita vereda, não permitia outro tipo de " formação ".

A banda  " Oleirense ", vinda da vizinha Vila de Oleiros,havia sido fundada em 1894, pelo padre Joaquim Silva Reis,estando na altura na verdura dos seus 18 anos,  não foi bem recebida pelo povo.

Todos estavam de acordo, a banda de Oleiros tocava afinada e se apresentou vistosa, bem uniformizada.Durante a missa cantada,em Santo António,tocaram estacionados,  por detrás da capela, bonito e bem ensaiado reportório.

As 5 da tarde foi o bom e o bonito,a pedido do povo, saiu uniformizada a banda da Pampilhosa debaixo da batuta do seu regente, monárquico ferrenho, acompanhada por centenas de pessoas não só da vila, mas também vindas do " termo ",  ao som de nutrido foguetório, em clima de louco delírio,foram também tocar a Santo António,

A situação chegou a estar prestes a descambar num arraial de pancadaria, houve bom senso, tudo ficou por ai.

Há mais;fico hoje por aqui, no entanto,compreendemos melhor a angustia do senhor Prior  de que falei no ultimo texto, sabendo estava preparado, temia o pior; quem sabe não teria sido a sua morte, o travão que impediu o pior?

Segundo tradição oral, desta ocorrência, ficou o grito em honra da banda da nossa terra, as pessoas lançavam quando desejavam saudar a "musica" : VIVA A NOSSA

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Alpendre da capela de Santo António em Pampilhoda da Serra

 

 

08.Jun.20

TRÁGICA MORTE DO SENHOR PRIOR DA PAMPILHOSA

Júlio Cortez Fernandes

No ano de 1912, Pampilhosa da Serra, seria palco de acontecimentos  marcaram a história da Vila.

Confesso quando nas  pesquisas deparei com tal ocorrência, havia decidido, ficaria reservada para mim  a sequencia vertiginosa dos factos verificados naquela época.

Talvez influenciado por este tempo estranho e raro da pandemia,decidi,partilhar; mesmo havendo gente,não aprecia o meu trabalho, outros existirão, da leitura do que escrevo, recebem algum contentamento.

O mês de Junho,decorria temperado  cálido de dia e fresco a noite; as pessoas preparavam pela oração da trezena, a festa das mais populares e queridas da terra: Santo António.

Reverendo,padre Urbano Gonçalves de Abreu Cardoso,apesar de muito ocupado com os trabalhos da construção da Igreja Matriz,destruída em 1907, por pavoroso incêndio,ia no final da tarde , a Capela de Santo António, participar na trezena.

 Assim sucedeu 6 de Junho,quinta-feira, estando presente na capela de Santo António,situada num extremo da localidade, no decorrer da oração,tendo sede,bebeu água de uma garrafa; acto continuo começou  sentir-se mal.Apavorados os presentes, conduziram-no  imediatamente para sua casa; ali chegados, pouco depois, expirava, no entanto antes,teria pedido para ser autopsiado, suspeitando ter sido envenenado.

Seria chamado  subdelegado de saúde de Arganil, Dr. Leitão ; não confiavam no médico da Pampilhosa, pelos visto, não estaria de boas relações com  Reverendo Urbano,

Para adensar a tragédia os pais, residentes na Cerdeira de Coja , concelho de Arganil,de onde o nosso prior era natural, haviam decidido deslocar-se a Pampilhosa , de surpresa, passar o Santo António.Quando chegaram a Vila no final daquele dia, sem nada saberem, deparam com filho morto.

A autopsia realizou-se no dia imediato, concluindo o médico de Arganil, a causa teria sido " congestão cerebral ", acidente vascular como actualmente se designa.

As autoridades apreenderam a garrafa com a agua, hóstias e até um cântaro com agua para consumo doméstico para analisarem.

O funeral no dia 10,  foi concorrido, nele se incorporaram nove clérigos, a filarmónica e muito povo.Não compareceu ninguém do Bispado ,porque a Diocese estava sem Bispo; o titular,pela aplicação das leis anticlericais do novo regime , ficou proibido de nela residir pelo período de dois anos, com a justificação sendo amigo chegado , confessor da ex. Rainha Dona Amélia, seria perigoso adepto do regime deposto.

Permaneceu duvida teria sido ou não envenenado, desconheço resultado das análises e relatório da autopsia; a maioria das pessoas recusavam aceitar a hipótese de envenenamento ,afirmava-se a boca pequena, não havia quem odiasse o Padre a ponto de o matar.

O padre Urbano ,continuava adepto da Monarquia; médico da Pampilhosa Dr. Gouveia, republicano fundamentalista não teria prestado toda assistência clínica possível. Talvez por isso as autoridades competentes iriam pouco depois " despacha-lo" compulsivamente para Avô.

A tragédia que atingiu o Prior e sua família,marcou de forma indelével,a história da Pampilhosa, dizia-se a partir desta ocorrência,surgiu o hábito de quem mandava, para justificar o que não tinha justificação,inventava um "conto" ; e, também a ideia, na Pampilhosa se passavam " coisas" tão estranhas, que os de fora apelidavam " coisas da Pampilhosa".

Fiquei impressionado com a vida do Padre Urbano: pároco de Mortágua durante dez anos,veio para Pampilhosa  em Maio de 1906. Aqui chegado ardeu a Igreja, trabalhou e lutou muito para conseguir templo moderno e adequado,quando estava preste a inaugurar a nova matriz da Vila, subitamente, sem ninguém esperar,morreu. Infeliz este Senhor Prior. paz a sua Alma 

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