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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

29.Mai.20

EVOCANDO DR. LUIS TOMAS BARATEIRO; ANIVERSARIO DO FALECIMENTO

Júlio Cortez Fernandes

Sábado 25 Maio de 1974, para o cemitério da Conchada, realizou-se funeral de um homem insigne, solidário, paladino  das liberdades democráticas, republicano e maçon;  acima de tudo  devotado, competente, e abenegado médico;durante décadas percorreu as montanhas da Pampilhosa,para tratar doenças, auxiliar gente aflita, nunca regateando a presença e apoio fosse a que horas fosse.

Faleceu em Coimbra, onde residia,procurando alivio para a prolongada doença que o havia de vitimar.

Por convicção de ideais democráticos e  lema de Liberdade , Igualdade e Fraternidade, seria arbitrariamente detido, prisioneiro da policia política do regime Salazarista, do qual foi sempre acérrimo opositor. Esteve recluso na cidade do Porto, cadeia da PVDE ( Policia Vigilância e Defesa do Estado), antecessora da PIDE, durante alguns meses, sem culpa formada nem julgamento.

No interrogatório, dos investigadores da PVDE,deu prova de dignidade e muita coragem apesar das provocações; veja exemplo ; perguntarem alcunha, sabendo  era médico.

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Nunca delatou nomes, defendeu-se sem,comprometer , ninguém. Não conheci pessoalmente,  era médico "avençado" da minha família de Vale Covo, nosso avô materno Augusto Cortez, correligionário Dr. Barateiro,  também, nunca, renegou ideal da República democrática e parlamentar.

Luis Tomás Barateiro conjunto com Porfirio Carneiro,Anselmo Santos Ferreira,  fundaram  Triângulo maçónico de Pampilhosa da Serra, no dia 21 de Fevereiro de 1933.  afirmando perante o instalador do triângulo : "Apesar de terem consciência , que a acção da maçonaria seria restringida pela reacção do meio ambiente local, fanatizado e atrasado,nuca desistiriam de pugnar pela liberdade e livre pensamento ,fazendo tudo quanto puderem, para bem cumprir o compromisso assumido". 

Personagem ímpar, Dr. Luís Barateiro, natural de Janeiro de Baixo, uma freguesia do Município de Pampilhosa da Serra; viveu até idade 76 anos,gozando de justo prestigio pelos relevantes serviços que prestou ao povo do concelho. Evocando a sua memória contribuo para não caia no esquecimento: homens da sua tempera. ascendem a imortalidade.Merece, respeito de todos.

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27.Mai.20

EPISÓDIO QUE LEVOU ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR...AOS "ARAMES"!

Júlio Cortez Fernandes

Em Março de 1933, domingo dia 19, dedicado a São José, festa na localidade de Aldeia Cimeira, realizou-se por todo país, plebiscito da nova Constituição da República Portuguesa. O ambiente político na vila de Pampilhosa da Serra, estava agitado, devido acção dos democratas republicanos, que estavam em desacordo com o texto Constituição proposto, porque nele se estipulava proibição de partidos políticos e Parlamento eleito democraticamente.

A actividade dos  políticos, ligados sobretudo à maçonaria, teve resultados positivos na freguesia de Pampilhosa da da Serra, acima de tudo na vila, onde foram contados maior número de votos contra, escrutinados em todas  freguesias; dos concelhos de Arganil, Góis, Lousã, Miranda do Corvo, Pampilhosa da Serra, Penacova, Tábua e Oliveira do Hospital.

Este facto, também o apoio de Salazaristas que nunca renegaram o ideal republicano, como Professor Bissaia Barreto, deu animo aos opositores do Estado Novo, residentes na Vila.

Na noite de terça-feira 21 Março 1933, incógnitos na calada do escuro nocturno, de uma terra sem iluminação publica, adequada, ousaram dirigir-se à capela de Santo António, situada no sitio da Eira do mesmo nome, local ermo, num extremo da vila. Entraram no interior do templo donde retiraram  imagem do Santo,  sem temor, trouxeram-na para o adro da Igreja, onde  amarraram com arames a uma das árvores  existentes.

Ali e numa alusão clara, ao António, chefe do Governo, ficou preso o Santo.

Escândalo enorme na manhã seguinte, as autoridades participaram, superiormente, o caso, sendo enviado à Vila agente da Policia de Investigação Criminal (P.I.C.) antecessora da actual, Policia Judiciária, com  finalidade descobrir, autor ou autores da "proeza".

O agente não teve sucesso, os Salazaristas, lamentavam porque, diziam ser forçoso conhecer os malfeitores, que cometeram  o sacrilégio de desrespeitar o Santo, e lhes ser aplicado  merecido castigo.

O picante da história, toda gente sabia quem havia praticado a façanha; não foi acto de índole religiosa, de desrespeito pela religião mas sim acção de carácter oposicionista ao regime, onde simbolicamente se pretendeu demonstrar, que na Pampilhosa, havia gente capaz de prender o (Santo) António, não da eira mas o de Santa Comba Dão.

Conta-se que Salazar quando lhe comunicaram, ficou furioso, não fossem os bons ofícios de Bissaia Barreto, a pessoa que ele mais respeitava em Portugal, o qual intercedeu pelos seus amigos da Pampilhosa, teriam sido presos, porque toda a gente  sabia quem havia sido.

Salazar, decidiu  que enquanto fosse Presidente do Conselho, nenhum membro do Governo, iria visitar a Vila de Pampilhosa da Serra. E assim se cumpriu!

Ainda agora, falando com pessoas mais idosas da Pampilhosa, afirmam sem  dúvida, todos sabiam quem "prendeu o António".

A Réplica da Imagem de Santo António, que protagonizou, episódio de rebeldia dos democratas da Vila.

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25.Mai.20

PANORAMA DA PAMPILHOSA EM 1905

Júlio Cortez Fernandes

No alvor do século XX, deslocou-se a Vila, a convite de um parente nosso, patrício residente em Lisboa. Permaneceu na terra, cerca de um mês, durante o qual escreveu a primo residente, em Elvas, carta datada de Fevereiro 1905, onde relata factos elucidativos da fisionomia da Pampilhosa naquela época.

Caro Primo

Cá estou na Pampilhosa, e chegar aqui foi um fadário, faltam abrir dez quilómetros de estrada, para conseguir ligação desta vila com as de Góis, Lousã e outras, e assim também contribuir para o seu engrandecimento comercial, que é como sabes alavanca do progresso.

Em breves traços vou contar-te o estado lastimoso em que se encontra a Vila.

Se lançarmos vistas para o adro da igreja, custa a crer que haja desleixo de tal ordem, porque está cheio de cascalhos, lenhas e outras coisas, que para ali são conduzidos, sem que ninguém cuide de reprimir o abuso.

O adro o melhor largo da terra, não só pela extensão, mas também pelas bonitas árvores que o ornam, e pois quase intransitável, atendendo, também ao desmoronamento de um muro, para uma rua que chamam do "Pedregal", a qual está também quase cortada ao trânsito.

Se olharmos para a igreja que não merece este nome tal é o acanhamento, e estado em que se encontra, com portas quase em terra, no forro grande quantidade de tábuas despregadas, e parece que ninguém olha para tal estado de coisas.

Na vila não existe iluminação pública, e as calçadas, feitas a mais de quarenta anos, com pedras das cascalheiras da ribeira, que atravessa a vila; nunca sofreram qualquer reparo.

Conservam-se estrumeiras nos pontos mais concorridos da vila. Quanto a água para abastecimento público é insuficiente por não ser devidamente aproveitada, e respeito das limpezas nas fontes respectivas, nem é bom falar.

O local onde realizam uma grande feira todos meses, nunca mereceu a atenção do Município.

Vou terminar, não quero abusar da tua benevolência, mas é muito triste que haja na Monarquia Portuguesa, uma terra tão desprezada.

Ao ler esta carta fico convicto, incêndio da igreja em 1907, atendendo ao miserável estado do edifício, seria deliberado; as pessoas não aguentavam mais a situação humilhante de assistirem  os ofícios religiosos numa espécie de "pardieiro".

Outra noticia relevante, confirma na Pampilhosa, poucos gostavam de árvores, porque tendo o adro árvores frondosas, todas foram derrubadas, quando construção do templo actual, tendo ficado o "pau-ferro" junto a casa dos Coira, que ainda conheci, mas que também acabou em lenha para a fogueira.

Este achado causou-me alguma tristeza; verifiquei nossa terra, há pouco mais de um século, seria das mais pobres, humildes e esquecidas sedes de concelho de todo Portugal. Dar a conhecer é um dever: "Pampilhosa super omnia".

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20.Mai.20

DISCURSO DO PADRE BENJAMIM ALVES - PÁROCO DA FREGUESIA DA PAMPILHOSA ACTO INAUGURAL LUZ ELÉCTRICA NA VILA

Júlio Cortez Fernandes

O senhor padre Benjamim Alves foi o meu baptizante, orientador da primeira comunhão e crisma. Depois "emigrei" para Lisboa, e Benjamim Alves teve igualmente de partir cedendo a paróquia ao Padre Carlos Borges.

Benjamim Alves, meu amigo, fiquei a gostar dele para sempre. Uma pessoa especial. O discurso que  proferiu na cerimónia inaugural da luz eléctrica a Vila de Pampilhosa da Serra a 28 de Setembro 1947; ainda mais  aprofundou a minha antiga impressão.

Discurso : 

Na viagem que o Marechal Carmona, dez há anos as nossas ilhas reclamou depois de desembarcar: Aqui é Portugal. Fazendo minhas as palavras de tão insigne figura, também quero bradar com toda veemência do meu coração de filho deste concelho: Aqui é Portugal. 

Pampilhosa da Serra, também é Portugal, e por isso, não deve este concelho, deixar de acompanhar o movimento progressivo que se vai acentuando Portugal além.

Importa banir o conceito de que Pampilhosa da Serra, é uma região em atraso na vida progressiva; com que mágoa deparo por vezes com certos quadros de vida tão difícil, nestas terras, sem estradas, sem telefones, sem postos de socorros, sem aquele conjunto de meios indispensáveis para que o viver seja menos duro, a este bom povo, lamentáveis condições de vida, de que esta gente não tem culpa e como era justo deviam, porque podiam ser melhoradas.

Um grupo de homens, membros duma Comissão de Melhoramentos, destas terras, procurou entrevistar-se há dois anos com o professor Dr. Marcelo Caetano, quando regia o Ministério das Colónias, a fim de ele se interessar por determinado melhoramento desta região e que seria vantajoso para todo o concelho.

Recebendo-os precisamente a hora estabelecida, S.Exª perguntou intencionalmente : 

"Então a Liga de Melhoramentos de Pessegueiro, ao desejar fazer progredir a sua terra vem falar com o Ministro das Colónias?" 

Sim Sr. Dr, Marcelo atalhou  um dos membros dessa comissão. "É que a nossa terra e todo  concelho de Pampilhosa da Serra, bem podem comparar-se ainda, infelizmente, a uma boa parte da África em atraso".

Torna-se imperioso que esta afirmação, embora em termos de graça, não possa continuar a repetir-se.

O povo desta terra tem sido sempre leal ao nosso Governo, como ainda nas ultimas eleições o provou.

Mas o Governo é por causa do povo, e não  o povo por causa do Governo. E se aqui também é Portugal, torna-se absolutamente necessário que esta região de Pampilhosa da Serra, seja olhada com mais carinho, direi mesmo com mais justiça. Suporta este povo os mesmos encargos que o de qualquer outra parte do País. Ora a justiça distributiva exige que os benefícios outorgados pelos chefes sejam tanto quanto possível iguais para todos. Aqui é Portugal  também.

Não devo deixar de prestar sincera homenagem ao Governo, pelas estradas que já nos deu, pelas escolas que conjuntamente com a Câmara, está fazendo, e por outros melhoramentos que se vão realizando, de colaboração com agremiações regionalistas, que são como que um grito de alma deste povo a pugnar pelos interesses das suas terras. 

Contudo antes de se completarem as obras da ponte sobre o Zêzere em Cambas, quase  podemos dizer que não há praticamente uma estrada que atravesse o concelho. Para telefonar há apenas dois locais, esta vila e o Casal da Lapa. Postos de socorros há apenas um neste concelho, o da vila, amparado pela bondade desta gente.

E quanto a luz eléctrica com verdade informava a dois anos um diário português  "A barragem de Santa Luzia no concelho de Pampilhosa da Serra; é uma das melhores da Península, contudo Pampilhosa da Serra, continua as escuras". Foi penoso para mim esta noticia do jornal, mais penosa ainda a verdade com que nos era dada.

Diz o Evangelho que não se acende a luz para ser colocada debaixo do alqueire, mas sim sobre o candelabro para que alumie a todos.

Pampilhosa moralmente falando tinha direito a gozar do beneficio da luz. A luz eléctrica produzida na barragem de Santa Luzia, que tanto custou a desventurados lares desta região, e que ainda hoje em parte, continuam a viver o seu calvário, em beneficio do bem comum, e até particular, parecia esconder-se debaixo do alqueire, relativamente a este concelho, hoje apareceu, não quis continuar na incongruência de ser produzida neste concelho e não o beneficiar. Cá temos é justo, grande melhoramento para que  a Pampilhosa seja de facto aquilo que é de direito: também Portugal.

Terminou afirmando:

Se foi inaudita a satisfação que o povo desta vila sentiu na ultima quinta-feira, 25 de Setembro, quando a noite se fez experiência da iluminação pública, notando-se um contentamento bem intimo, a que não faltaram lágrimas de alguns, como se fosse o desvendar de um mistério ou fim glorioso para uma terra de promissão, foi muito maior ainda a satisfação, do Sr. Presidente da Câmara professor Gil, ao ver que como por encanto na magia da noite foram coroados de êxito os seus esforços.

O discurso pronunciado na sessão solene realizada na Câmara Municipal,com presença do governador Civil de Coimbra, que não representava ninguém do governo, perante os administradores da Companhia Eléctrica das Beiras, foi aclamado em delírio pela multidão que ouviu através da aparelhagem sonora, na Praça Barão de Louredo.

Parafraseando letra de conhecido fado, posso afirmar: "povo da minha terra, agora, agora é que percebi o desprezo a ditadura no baptismo o recebi".

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18.Mai.20

FESTA ONDE FORAM PROIBIDOS COMPARECER OS MEMBROS DO GOVERNO

Júlio Cortez Fernandes

Domingo 28 de Setembro de 1947, na vila de Pampilhosa da Serra, as ruas  pelo movimento pareciam artérias de uma grande cidade, cheias de povo vindo de todas as freguesias do concelho. Tudo abrilhantado por três bandas de música da Pampilhosa, Lousã e do Prado.

O burgo, embandeirado e ornamentado com arcos de verdura, apresentava  ar de festa, como nunca tivera!

A autoridade de maior relevância política presente, foi o Governador Civil do Distrito de Coimbra, Engenheiro Eugénio de Lemos, residente na Lousã. Compareceram também, os presidentes das Câmaras Municipais de Pampilhosa da Serra, Coimbra, Lousã, Arganil e Góis.

Pelas 19:30 minutos na cabina eléctrica, instalada no amplo largo da feira, apinhado de uma multidão entusiástica, o Governador Civil, procedeu à ligação da luz eléctrica e as bandas executaram em conjunto, não o Hino Nacional, mas a marcha da Maria da Fonte. A Pampilhosa da Serra ficou inundada de luz clara e brilhante, perante  o delírio da multidão

Ficou patente nesse dia, o desprezo do Doutor Salazar, pela Vila de Pampilhosa da Serra e sua gente, ao não autorizar a vinda à nossa terra de qualquer membro do Governo a que presidia.

Descobri com grande orgulho que ele tinha razão, porque aqui bateram-lhe o pé como em nenhuma outra vila de Portugal,  e claro não gostou!

Resta acrescentar, a comissão de censura não permitiu, que a imprensa publicasse qualquer foto do evento. Mas foi uma grande festa, lá isso foi!

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14.Mai.20

O ÚLTIMO CAUDILHO DA MONARQUIA - NA VILA E CONCELHO

Júlio Cortez Fernandes

No dia 16 de Dezembro de 1909, pelas dez horas da noite, faleceu na Vila de Pampilhosa da Serra, o derradeiro chefe político do Partido Regenerador, no Concelho.

Após doença persistente, no entanto de modo repentino, António Carlos Nunes, notário, aposentado cerrava para sempre os olhos, no aconchego de sua casa na vila. Havia sido ao longo da vida político influente, e pessoa de  mérito.

Com a sua morte a Pampilhosa perdia um dos seus mais acérrimos defensores, desvelado amigo e querido filho. 

Conhecida a noticia, começaram chegar de diversas os localidades do concelho, e outras em redor, pessoas de todas as classes sociais para apresentarem condolências, e participarem nas cerimónias fúnebres.

O funeral realizado, sexta-feira 18 Dezembro, revestiu-se de imponência, como poucas ocasiões observadas na Vila.

O cortejo fúnebre, dirigiu-se da morada do finado para a Capela da Misericórdia, porque a igreja matriz estava em obras como resultado do incêndio  que a destruiu em 1907.

No prestito, incorporam-se as Irmandade do Santíssimo e da Misericórdia, a Filarmónica Pampilhosense, a mais distinguida sociedade da Vila e concelho, e  uma multidão tão numerosa que tornou difícil o transito;  apesar da chuva intensa, ninguém arredou pé.

Celebrou-se oficio de corpo presente e missa de requiem, acompanhada pela orquestra do "Grupo Musical". Assistiram o reverendo prior da Vila, padre Urbano Gonçalves, o coadjutor e os párocos do Colmeal, concelho de Góis e os do Vidual, Machio e Unhais-o-Velho.

Terminadas estas cerimónias, saiu cortejo caminho do cemitério em São Sebastião, do mesmo modo que havia vindo de casa do finado.

A urna levaram-na aos ombros seis irmãos da Irmandade do Santíssimo de que Carlos Nunes era irmão. Sabemos  nome de um dos irmãos que conduziu o caixão. As chaves da urna levada em mão pelo Administrador do Concelho, António Maria Duarte Gil, dedicado amigo e correligionário do defunto.

Junto à sepultura usou da palavra, pronunciando emocionado discurso, Firmino da Mota Arnaldo, antigo presidente da Câmara a quem o povo apelidava pela forma de vestir o "jaqueta curta".

António Carlos Nunes, foi cuidado com carinho pela sua dedicada companheira e enfermeira, deixou filhos ilustres,  a saber:

António Carlos Oliveira: escrivão da fazenda publica em Miranda do Corvo; Dona Maria Joaquina Carlos de Mendonça, Jayme Carlos, Eduardo Carlos: notário,e Albano Carlos.

Naquele dia invernoso, de chuva torrencial, e frio Dezembro de 1909, parece-se com a morte do ultimo caudilho da monarquia liberal, que a Pampilhosa conhecera, e que de modo adivinhatório anunciou o fim do regime monárquico que chegaria menos de um ano depois a 5 de Outubro de 1910.

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10.Mai.20

TOPONÍMIA DA MONTANHA - ORIGEM E SIGNIFICADO DE CARVOEIRO

Júlio Cortez Fernandes

Sempre gostei da povoação do Carvoeiro, localidade da freguesia de São Simão de Pessegueiro no concelho de Pampilhosa da Serra.

Passei tempo de infância no sitio de Vale Covo, de onde avistava ao longe, monte no cimo, enorme sobreira que servia de pano de fundo ao sol poente. Para mim o crepúsculo, ficava no  Carvoeiro. Talvez remonte a essa época o fascínio que sentia, relacionado com aquela localidade.

Principalmente, desejava saber o porque do nome. Na idade adulta visitei amiúde o Carvoeiro, falei com moradores, passei bons momentos a sombra da  "parreira" comunitária.

O nome seria derivado de alguém que se dedicava a fazer carvão? Pareceu-me simples. Não resultaria com certeza daí; então de onde provem o topónimo? 

Existe em Portugal o Cabo Carvoeiro, sitio onde nunca cresceu material lenhoso necessário a obtenção de carvão. Nas investigações efectuadas, deparei-me com a possibilidade de carvoeiro ser designação atribuída a individuo de parcos recursos, pelo facto não possuir sequer cão, caçava coelhos nas "tocas" à mão.

Foi uma epifania! A Aldeia de Carvoeiro tinha fama de caça abundante, nomeadamente de coelhos.  Em seu redor encontramos nomes dos sítios como: Coelhal , Coelhosa, Vale do Coelho que atestam essa particularidade.

Tive algum cuidado para não ferir susceptibilidades; em conversa com um velho habitante da aldeia, confidenciei a minha convicção. Esperava ser mal interpretado, para meu espanto, disse-me com satisfação: "sabe o senhor tem razão, aqui pelas bandas da serra, aqueles que melhor sabiam ensinar e lidar com furões para apanhar coelhos, somos nós os do Carvoeiro".

Grande alegria! Havia conseguido resolver mais um enigmático topónimo, neste caso, e eventualmente outros semelhantes, sitio que teve origem na actividade de alguém "lapareiro"  "negroucho", como carvão (sentido pejorativo) que apanhava coelhos à mão, porque... nem sequer tinha um cão.

Finalmente! Uma vez mais afirmo: Gosto do Carvoeiro! Procuro passar por lá, ainda há pouco, ia ficando com o carro, "entalado" na estrada  que passa pelo meio do povo! Esqueci-me do caminho  da "circular".

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03.Mai.20

ULTIMO "TE DEUM " ANTES DA IGREJA MATRIZ SER DESTRUÍDA PELO FOGO

Júlio Cortez Fernandes

A igreja paroquial da vila, ardeu em Fevereiro de 1907, templo estava num deplorável estado de conservação, apesar de inúmeros pedidos, as autoridades competentes nada faziam, com algumas pequenas reparações, no final de Abril 1906, palco de luzidas cerimónias religiosas, a propósito da chegada de novo pároco.

O reverendo padre Urbano Gonçalves Abreu Cardoso, anteriormente prior em Mortágua, membro de ilustre família da região,gozava de muito prestigio.pelo carácter, conduta exemplares e  dotes oratórios.A maioria dos paroquianos considerava escolha acertada

 Esperado no sitio  de entre -as -águas, na ponte sobre a Ribeira de Praçais. local pouco distante da vila. Surgiu na companhia do  grande amigo Padre Carlos José Fernandes de Almeida, vigário de Fajão.Nesse momento foram lançadas girandolas de foguetes , filarmónica Pampilhosense tocou peça do seu reportório escolhida para a ocasião.

Por entre alas compactas de povo, a frente da banda,  reverendo percorreu de modo triunfal, trajecto, pelo caminho designado do Pombal, até a igreja,quase repleta de fieis, onde  aguardavam  autoridades políticas do concelho,  melhor sociedade da terra, e também sacerdotes de toda região.

Ao acto de posse , assistiram os párocos de Vidual, Cabril,Cadafaz, Alvares,Pessegueiro, além do já citado de Fajão; e o coadjutor da paróquia

Prior Urbano Cardoso, subiu ao púlpito,proferiu empolgante sermão, afirmando, a recepção que lhe dispensaram de tal modo grandiosa que não se sentia digno dela.

Seguiu-se  missa cantada acompanhada a grande instrumental.No coro  junto a imagem de Nossa Senhora do Rosário,assistiram a cerimónia as damas, Dª Albertina Lobo,esposa do chefe da repartição de finanças, Dona Maria Natividade Melo e Nápoles, senhora do morgadio da Quinta da Feiteira, viúva do Dr. António Feiteira, moradora na casa hoje pertença da família Nunes Barata.

Dª Maria da Piedade Henriques da Silva,esposa do chefe da Estação telégrafo postal, conhecido popularmente por Xistra, grande amigo  e companheiro da caça do nosso,  avô Augusto Cortez natural e residente no lugar de Vale Covo, arrabalde da Vila. O casal passava temporadas na casa da quinta dos Silvas precisamente na foz de Vale Covo; presentes outras senhoras distintas cujo nome desconheço.

Ficou na memória tão imponente cerimónia , seria ultima missa com esta pompa e solenidade, antes do incêndio da Igreja, menos de um ano depois.

O coro destinado as senhoras ficava junto a Nossa Senhora do Rosário: na antiga igreja não seria nesta situação  felizmente a imagem foi salva das chamas

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02.Mai.20

SANGRADOR OFICIAL DA VILA

Júlio Cortez Fernandes

No começo do século XIX,na vila da Pampilhosa,exercia profissão devidamente,habilitado, individuo, possuía diploma, atestando as sua habilitações.

 José Marques,natural da Vila, filho de Bartolomeu José e Maria Bernardina, ambos nascidos na Pampilhosa, neto paterno  de Isabel Almeida, e avô incógnito, naturais da aldeia de  Machio de Cima deste concelho, e materno de Manuel Marques de Almeida, e sua mulher Maria Bernarda, ele nascido na vila, ela no bispado de Viseu.

José teve como padrinhos baptismo, pessoas abastadas, pertencentes a  distinta família da Pampilhosa. Talvez o patrocínio e ajuda daqueles,proporcionasse  possibilidade de se submeter a exame, no ambito da junta do PROTO-MEDICATO, entidade  onde eram submetidos a exame, dentistas,parteiras, e outros " artesãos do corpo " .

A aprovação nesse exame era indispensável a concessão da carta ou licença,para exercer a profissão respectiva.Prentendiam as autoridades combater a chamada medicina popular,exercida por curandeiros barbeiros e charlatães de toda a índole.

José Marques,estava habilitado sangrar, sarjar ,colocar ventosas,e sanguessugas, em todos os sítios do reino, conforme consta da carta.

Convém esclarecer , sarjar, significava fazer incisões na pele para extrair sangue , e aplicar ventosas e sanguessugas.

A carta diploma do nosso patrício, traz escrito, " natural da vila da Pampulhosa ".Trata-se de erro, no entanto ao longo dos séculos, muitas vezes escreveram assim , já encontrei documentos importantes relativos a história da nossa terra,referenciados sendo da PAMPULHOSA.

No inicio do seculo XIX.(1803) na vila exercia profissão da área da saúde,alguém nascido no burgo; facto relevante, permite afirmar  uma das causas do declínio da terra foi, também,  debandada de gente da elite local.

Para terminar, quando detentor de  carta de habilitação " médica " falecia, era obrigatória devolução do documento as autoridades administrativas, para evitar abusos.

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