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aguadouro

Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

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Pampilhosa da Serra - Roteiro dum "futrica"

31.Jan.20

MEMÓRIAS DA VILA JANEIRO 1965

Júlio Cortez Fernandes

Por estas bandas onde resido , hoje está dia típico de Inverno,sem sol tudo    "sapado" por via do nevoeiro intenso, não faz muito frio, enfim tempo aborrecido.

Para dar alguma utilidade, embrenhei nos amarelecidos papeis da minha exígua " torre do tombo ". E deparei com novidades do burgo natal, algumas delas  dizem -me algo.

Nesta altura aos 89 anos de idade , falecia o homem mais idoso da Vila, Sr. César Nunes , que viveu no Vale Signo Samo, era viúvo da Ti Martinha Barata Nunes.

Recordo a Ti Martinha e as laranjas que me dava no tempo da apanha da azeitona quando acompanhava  minha mãe nessa faina lá para os lados onde ela morava. Descanse em paz.

No funeral do Ti César incorporou-se a Irmandade do Santíssimo, e muito povo, razão do finado ser pessoa muito estimada e conhecida. Era pai do Sr. António Nunes , comerciante na Vila. 

Também faleceu em Lisboa onde se encontrava o Ti Ambrósio dos Santos casado com a Ti Maria Libânia dos Santos, tinha 74 anos. 

A Câmara Municipal da Pampilhosa , presidia  Sr. Joaquim Duarte Gavinhos, curiosamente a edilidade aprovou por unanimidade proposta do vereador Sr. José Afonso do seguinte teor : 

« É da lei que os taberneiros não podem vender ao público vinho de produção inferior a 12 graus.Acontece porém que os vinhos desta região só muito raramente atingem aquela graduação; por isso é frequente encontrar-se a venda ao publico vinho da produção do próprio taberneiro, ou adquirido a lavoura da região que não obedece as condições legais de venda ficando assim na contingência de pesadas multas.Proponho que a Câmara com representação das Juntas de Freguesia , faça chegar a Junta Nacional do Vinho o pedido de excepção para os vinhos do nosso concelho». A proposta seria aprovada por unanimidade, desconheço o desfecho; não será difícil acreditar muitos dos  "apreciadores do tintol" se continuassem a enfrascar com   "nectar" indigena.

Termino referindo, neste mês, depois das ferias de Natal, regressaram a Coimbra os estudantes José , António e Carlos Cortez Henriques da Cunha, Hermano Nunes de Almeida ,Octávio Carlos Gomes da Silva, Jaime Antão Ferreira, António e Luís Barateiro Afonso.

Por agora basta não posso contar tudo de uma vez...

Em 1965 Pampilhosa seria pouco diferente da imagem

Pampulha.png

 

20.Jan.20

ASSINALANDO ANIVERSÁRIO DE UM HOMEM ADMIRÁVEL

Júlio Cortez Fernandes

José Lourenço Antunes de Almeida, ilustre pároco da freguesia de Vidual, nasceu a 20 de Janeiro de 1884, na desaparecida aldeia de Vidual de Baixo, submersa pelas águas da Barragem de Santa Luzia, por vontade política da ditadura e ambição de lucro desmedido de meia dúzia de capitalistas.

Filho legitimo de António Lourenço, vendedor ambulante e natural de Folques concelho de Arganil e de Josefa Antunes , costureira, natural do lugar de Vidual de Baixo, neto paterno de Joaquim Lourenço e Maria do Carmo, proprietários naturais e residentes em Folques e neto materno de Joaquim de Almeida e Maria Antunes, também proprietários naturais e residentes em Vidual de Baixo.

O malogrado pároco faleceu repentinamente pelas 13 horas do dia 3 de Março 1936, vitima de ataque cardíaco fulminante a razão de tal acontecimento ficou a dever-se ao montante oferecido pela Companhia, construtora da barragem  para pagamento das casas e propriedades do Vidual de Baixo, que lhe originou profunda angustia. A  morte causou grande consternação, logo associada pelo povo aos problemas causados pela barragem.

No acto da inauguração da central do Esteiro em 1943,  representante do Bispo de Coimbra afirmou: "lembro com emoção  a memória do reverendo padre José Lourenço da povoação que ficou submersa nas águas da albufeira, e a sua lealdade e integridade presta justiça, pois ele foi uma pessoa de bem que se viu diante de um dilema arrostando com o drama moral de ver aquela obra tornar-se devastação para os seus paroquianos, cujas dificuldades ele sentia como ninguém". Caso para dizer "lágrimas de crocodilo"  padre Lourenço Almeida, estava morto e  o nome do Vidual de Baixo, quem sabe , ardilosamente omitido 

A paisagem  da Barragem de Santa Luzia será para sempre  melancólica, porque afogadas naquelas águas estão muitas mágoas. 

Barragem de Santa Luzia.bmp

 

Recordo hoje o Senhor Padre José Lourenço Almeida.  Lembro quando frequentei a catequese aprendi as bem bem-aventuranças, a quarta ensina: bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 

Reverendo José Lourenço Antunes de Almeida, foi bem aventurado, teve fome e sede de justiça, merecedor da sua Glória estará na Casa do Pai.

Este humilde patrício, enquanto puder não deixará de honrar a memória de um mártir  cuja morte chegou cedo por amor a sua terra e  seu povo.

Curvo-me em respeitoso recolhimento, penso nele, neste dia.

 

15.Jan.20

OS "GALEGOS" DE LISBOA

Júlio Cortez Fernandes

Os típicos tarefeiros do quotidiano lisboeta, das primeiras décadas do século passado, eram popularmente denominados por: "Galegos".

Durante muito tempo, desde meados do século XIX - 1927 nas esquinas e chafarizes de Lisboa paravam  "aguadeiros", à espera de fregueses para levarem água transportada num barril de madeira ao ombro para casas dos andares mais altos dos prédios, onde não chegava a água ao domicilio.

Nas esquinas estacionavam também os  "moços de esquina", cuja tarefa consistia em transportar pesadas  "encomendas" ou fazer mudanças usando como "instrumentos" a força física: um pau e uma corda.

Quando se pretendia este tipo de serviço, o vulgo exclamava: "chama aí um galego "; julgavam aqueles serviçais vinham de Tuy, Porrinho , Pontevedra e outras terras da Galiza.Puro engano!

Os moços de esquina deviam estar inscritos para obterem uma licença individual, a qual era atribuída um número que ostentavam numa placa metálica obrigatóriamente colocada na parte dianteira do boné que usavam.

No fim dos anos 20 do século passado, um comissário da Policia Administrativa, coligiu dados estatísticos relativos a esta profissão e apurou que estavam inscritos 2662 indivíduos. Confrontando a naturalidade dos "moços de esquina", verificou que apenas 324 eram efectivamente galegos, pouco mais de 10%, os restantes "galegos" de onde viriam? A estatística elucidava:

Recorte.jpg

A profissão de moço de esquinas, motivado pelas mudanças sociais e económicas entrou em decadencia e os Pampilhosenses passaram para as tarefas da estiva no Porto de Lisboa. Nesta época a deslocação para a capital era sazonal, as mulheres, filhos e restante familia, ficavam na aldeia. Os homens regressavam para as colheitas. Este costume manteve-se até ao Estado Novo, cuja politica de florestação e apropriação dos baldios, esteve na origem do exodo em massa.

11.Jan.20

INAUGURAÇÃO SEM MUSICA

Júlio Cortez Fernandes

Num dia que se apresentava esplendoroso,mal grado estarmos em Novembro,  Pampilhosa da Serra,foi palco de importante  acontecimento histórico: inicio da carreira de autocarros  Coimbra - Castelo Branco.

Em pleno Verão de São Martinho,quinta-feira, 13 do citado mês no distante 1952,pouco depois ter batido  no relógio da igreja matriz  meia hora das 8 da manhã, surgiram vindos do lado de Coimbra dois reluzentes autocarros;estacionaram no largo do mercado, onde apesar ser cedo compareceu muito povo.Paradas as viaturas estrondosa salva de foguetes e morteiros ecoou pelo céu da vila em tal numero, terminado " fogo "  manto de fumo com cheiro a pólvora cobria todo vale. 

Após breve troca de cumprimentos as personalidades que viajavam nas "camionetas ",juntou-se outra viatura onde tomaram lugar  , Presidente da Câmara, Luiz Nunes,vereador Porfírio Carneiro, pároco Padre Benjamim Alves, farmacêutico Artur Gil dono da farmácia , Dr. Fernando Nunes Barata,secretário da Camara Municipal de Coimbra,natural da vila;  chefe da estação dos correios Dona Lúcia Antunes, irmãos José e Basílio Cunha, funcionários públicos ,  comerciante António Nunes, cujo negócio seria um dos mais favorecidos com abertura da carreira porque as partidas e chegadas das camionetas durante largo se tempo fizeram no " Ribeiro "  fronte ao seu estabelecimento.

 Além destes subiu para a viatura a Srª D.Palmira Nunes e Cunha,sócia da concessionaria empresa Viação da Beira  .Autocarro ficou lotado com outros ilustres Pampilhosenses, igualmente convidados.

A caravana partiu as 9H e 30 rumo a Castelo Branco, debaixo dos vivas da população, até desaparecer na grande curva do sitio da  Cabeçada.

Ao longo de todo percurso populares acorreram as bermas da estrada acenando com lenços como sucedeu nas povoações da Sancha Moura e Gavião.

Chegada aldeia de Cambas, sinos da igreja repicaram,  população  em peso obrigou  paragem dos autocarros a saída da ponte sobre o Rio Zêzere inaugurada três anos antes Janeiro de 1949.

Em  Orvalho as crianças das escolas fizeram alas ladeando os autocarros, estralejaram foguetes e morteiros.Na Foz do Giraldo, entusiasmo semelhante.Lameirinha  e Paiágua muita para presenciar o cortejo.

 Salgueiro do Campo no meio de entusiatico acolhimento é servido vinho do Porto e bolos a todos passageiros.

Vencidos derradeiros quilómetros de  viagem cansativa motivado pelo deplorável estado de conservação de alguns troços da EN 112, a caravana chegou ao largo da estação ferroviária albicastrense as 11 horas e 15 minutos,sendo recebida por Anselmo Cunha um dos proprietários da Viação da Beira.

 Mais tarde pelas 13 horas  servido " abundante almoço " no Hotel Lusitano  repasto presidido pelo representante da Câmara  Municipal de Góis, devo lembrar, accionista maioritário da empresa Sr. António Augusto de Matos era oriundo daquele concelho; todos oradores se congratularam com concretização da ligação da cidade dos estudantes e a  capital da Beira Baixa,passando pela Pampilhosa da Serra.

Terminada a festa os convidados regressaram as suas terras convictos haverem participado num evento memorável.

Na Vila, algumas pessoas ,pelo facto da filarmónica,  passava por período de quase extinção, não ter participado na inauguração,diziam ser mau presságio.

A carreira poderia trazer progresso vida melhor para as gentes serranas. A princípio talvez, todavia aberta outra ligação ao caminho de ferro,  na  linha da Beira Baixa...

Exodo da população, acentou-se. Se calhar a " música " fez mesmo falta.

Foto antiga da Pampilhosa em primeiro plano largo do Ribeiro e casa onde funcionou  " terminal das camioetas da carreira "

Pampilhosa da Serra 1942.bmp

 

09.Jan.20

CASA DA PORTELA

Júlio Cortez Fernandes

Nas recordadas memórias da infância uma paisagem amiúde surge e povoa a planície sem fim por onde se estende a minha saudade.

Numa das colinas da margem direita da Ribeira de Moninho  pouco acima da foz da Ribeira da Póvoa, na prolongada curva no fim da recta  seguir a ponte a estrada nacional 112 Pampilhosa - Portela do Vento, descreve avista-se panorama grandioso de onde sobressaem os antigos terrenos de cultivo verdejantes, agora quase todos de pousio, mais adiante as casas  do nosso amigo Zé Reis,na quinta dos Marmeleiros.

 Neste ponto a curva foi rectificada, antigo piso da via poderia ter sido aproveitado para área de .estacionamento e miradouro; infelizmente, não foi...

Fronteiro a este local em airosa situação ficava quinta da Portela e a imponente casa de habitação dos caseiros, sempre cuidadosamente, caiada  por isso, se destacava do verde escuro do cerrado pinhal que rodeava a propriedade.

A casa da Portela avistava-se de  muito longe, até do coratão de Vale - Covo onde eu morei, era visível.Pela singularidade do panorama aquela casa despertava fantasias na minha imaginação infantil.Nunca soube a quem pertencia, vagamente meu avô Augusto falou-me na  origem dos caseiros, já esqueci.

Ocasião que estive mais perto  quando visitei sitio do Vale dos Enxames,onde existiu " fábrica " de telha parceria do nosso avô com Ti Albano da Eira.

Nada resta da alva casa da quinta da Portela,talvez  ruinas das paredes,não sei.

Para mim continua como sempre  vi distante, branca, misteriosa e bela.

Assim será até que extinga a luz da derradeira ilusão

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