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aguadouro

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09.Abr.19

PERCURSO FORA DAS "ROTAS" - CAMINHO DA VILA AOS COVÕES

Surgiram há tempos alguns desdobráveis, com sugestões para quem goste de percorrer a pé, sítios e paisagens do território das montanhas da Pampilhosa que de outro modo, estão ainda inacessíveis. Sem tecer qualquer apreciação, acerca de tais "conselhos", vou oferecer aos meus leitores, um percurso  na minha opinião, proporciona deslumbrantes paisagens e sensações de lonjura e quietude adequadas a meditação que emana da atmosfera melancólica das lombas "cobertas" de saudosa ausência de pessoas e rebanhos.

Vamos deixar a Vila da Pampilhosa, pela velha estrada que começa na Foz da Moira, instalações da antiga fábrica de água-ráz e pez, hoje pertença da Santa Casa da Misericórdia um pouco adiante, transpomos a Ponte da Ribeira de Moninho, construída a expensas do Município em 1898, passamos as ruínas de casas e adiante, percorrido um quilometro estamos na Boguela, outrora viçosa colina de hortas produtivas e onde podemos desfrutar dilatada vista na direcção da Vila .

Continuando, onde antes existia cerrado pinheiral, há agora paus queimados e mato rasteiro. Um pouco depois alcançamos ponto onde o caminho ladeando a montanha muda de direcção, aqui é o Coratão da Azenha, de onde se avista, na minha opinião, singular e impressivo panorama. O nome deriva de ao fundo desta "selada" , ter existido  um moinho chamado dos Silvas por causa do apelido dos proprietários. Em frente na outra margem da ribeira, fica a "Lomba da Foz das Videiras "  até  a praga da filoxera, nos socalcos da encosta, aqui existiu a maior das vinhas do arrabalde da Pampilhosa.

Imagem do caminho neste troço, rasgado a meia encosta.

Videiras.png

Antes, na confluência do ribeiro da Maunça com a Ribeira aconteceu comigo, curioso episódio, que gostosamente partilho. Certa ocasião acompanhei alguém ao moinho, para deixar o "fole" ou saco de pele de cabra, utilizado no transporte do milho destinado a "moenda" e depois de volta com a farinha; fiquei à porta  e reparei, nadando prazenteiros na água da ribeira, animais que pareciam  pequenos porque vistos de longe, fiquei convicto seriam "ratazanas da água".

Contei ao meu avô Augusto Cortez, disse-me logo, eram lontras. Mais tarde dispôs-se ir ao  sitio para  explicar-me. Fomos pelo caminho da Foz das Videiras, no  "chão" do Ti António da Herminia, pai da minha amiga Isménia, descemos à ribeira , de cima de uma fraga, avô ensinou-me sobre as lontras, verifiquei serem maiores que ratazanas e tinham pêlo farto e luzidio. Tornei  encontrar lontras noutras zonas da ribeira; desapareceram após construirem as barragens no Rio Zêzere, foi um mal, paciência, pessoas e mentalidades, felizmente, modificam-se.

Continuando o percurso, vamos transpor vale ou "barroca" como por aqui também se designam. A barroca da "Sardanisca" ou "bichana", primeiro nome vem da particularidade de aqui se darem muito bem as cerejeiras antigas "sardeiras", ainda recordo algumas árvores de grande porte, onde apanhei e comi muitas cerejas, deliciosas.

O caminho a seguir tem pequena subida, continuamos com a ribeira ao fundo a nossa esquerda, e divisamos ao longe "cabeça pequena" da Serra Cabeço da Urra e a  barroca de Vale Covo, que tantas vezes já referi. Chegamos aonde o caminho bifurca, um descendente para antiga e hoje destruída "quinta dos Silvas" e outro em frente na direcção da Aldeia dos Covões. Aqui onde estou agora, existem alminhas mandadas construir por um membro da família "Silvas" em cumprimento de uma promessa feita.

Se não engano há 65 anos foram obra do tio António Casaca, pedreiro e meu padrinho do crisma, casado com a minha tia Conceição Carlota, viviam numa casa no Cabecinho na Vila, já ambos estão em São Sebastião, descansem em paz. O feitor dos Silvas na época era o Ti Serafim Gaspar, pessoa que  também conheci .

O caminho segue encosta fora, mas hoje fico por aqui.

  

04.Abr.19

HORTAS DA VILA - BOGUELA " ALFOBRE " e SONHO

A Boguela nome de " horta " situada pouco adiante da antiga ponte da Ribeira de Moninho, no antigo percurso para os Sobrais  de Baixo e de Cima, seguindo ao longo da Ribeira da Pampilhosa, desde a  " Foz da Moira " , ou " Fordamoira " como se pronunciava.

As terras da Boguela , ficavam numa ladeira tão empinada que parecia impossível , construir-se ali qualquer " batoréu", por isso , foi deixado aos pobres sem terra , a possibilidade de tentarem arranjar ali qualquer fonte de " renovo". O resultado foram centenas de socalcos de minguadas dimensões. cuja construção causa espanto ,pelo sacrifico exigido,à avista da " horta  da Boguela" ,os socalcos do Douro parecem  " brincadeira".

Um dos " ocupantes" mais conhecidos da boguela  o nosso avô paterno João Carloto, que ali construiu uma rude " moradia " de madeira , onde passava grande parte do tempo, estava quase sempre por aquelas bandas . dada sua dificuldade em andar,  poupava o sacrifício e horas de caminho da Vila para lá.

Água era pouca  a que se encontrava era tirada de fundos poços por " baldes" ou picotas. E deixada escorrer por regos ou levadas,segundo a gravidade e regar as hortinhas encosta abaixo . até as margens da ribeira , na " baja da Boguela".

No cimo da lomba, num sitio chamado chã de ferro, tentaram os Simões do " Munho", fabricar cal , a partir dos seixos recolhidos na cascalheira da ribeira. Construiram  forno, tentaram " derreter " os seixos,em vão. Assim se esfumou o " sonho " da cal, mas ficou memória.

Da boguela a paisagem é grandiosa. Um dia destes, voltei lá, nem viva alma, só silencio e destruição, provocada pelo dantesco incêndio de 2017. Sozinho parecia ouvir a fala dos antigos " hortelãos " A tia da Misericórdia  Tia do Luís, a Ti Conceição , Os da Ponte de Moninho. os do Munho. as criadas da viúva de Luís Nunes.Nada , de tudo resta esta memória também ela " condenada" ao olvido, não falta muito.

A boguel " era " assim

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