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aguadouro

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30.Jan.17

O TRONO E O ALTAR

Implantada a República a 5 de Outubro de 1910,durante décadas nos sítios recônditos e isolados do País permaneceu viva simpatia do povo pela monarquia. Assim  foi no concelho de Pampilhosa da Serra.Em 1910 não existiam republicanos conhecidos naquele concelho. Os primeiros administradores do Município vieram de fora, porque os directórios partidários não confiavam em ninguém da terra.Com decorrer do tempo filiaram-se ou manifestaram simpatia pelos partidos republicanos, pessoas como Eduardo Carlos , o nosso avô materno, o seu cunhado "Gerúndio". marido da Tia Glória, o Tio Benjamim Martins, e poucos mais.

O clero permaneceu, na totalidade, fiel a monarquia,não admira em 1932, quando faleceu no exílio o ultimo rei de Portugal , Dom Manuel II, se verificassem no concelho manifestações de pesar pelo acontecimento.O monarca faleceu  a 2 de Julho de 1932 na Inglaterra.

 Na ocasião do trigésimo dia do falecimento ,o pároco das freguesias de Unhais - o - Velho e Vidual, reverendo padre José Lourenço Antunes de Almeida, tomou  iniciativa de celebrar missa de "Requiem e Libra-me", em sufrágio da alma do monarca.Anunciado com antecedência . acto realizou-se terça -feira 2 de Agosto de 1932.

A igreja do Vidual, repleta de fieis trajando todos de luto carregado,presentes as pessoas mais gradas da freguesia. O sr. padre na "sua palavra fluente e clara que tão bem sabia pender os ouvintes " (sic)., fez o elogio fúnebre de Dom Manuel II,realçando a sua acção no exílio,e condição de fervoroso católico. A missa decorreu com solenidade acompanhada a instrumental por elementos da banda filarmónica de Cebola, hoje S. Jorge da Beira.

Ironia do destino, padre José Lourenço,na luta travada em defesa do povo da aldeia Vidual de Baixo, contra a Companhia Eléctrica das Beiras,exigindo pagamento de justa indemnização pelos prejuízos causados com a construção da barragem de Santa Luzia, teve como ferrenho opositor o Conselheiro Fernando de Sousa,monárquico assumido, católico fundamentalista,este personagem em artigos publicados na imprensa da época,ridicularizou   acção do Padre. Em questões de capital,não há consideração por ninguém.

A influencia dos párocos sobre os paroquianos teve grande influencia para manter aceso o ideal monárquico. Monarquia absoluta reclamava origem divina do poder real.O Miguelismo e Salazarismo moldaram a mentalidade do povo serrano.O trono e o altar foram os pilares onde a elite dirigente se apoiou para manter o domínio sobre a plebe , ate que, os humildes resolveram abalar, e... tudo se desmoronou... 

 

28.Jan.17

A IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO PRANTO DA IGREJA MATRIZ DE PAMPILHOSA DA SERRA

Sabia há muito,a imagem da padroeira da minha freguesia natal, havia sido oferecida por  conterrâneo ,que a exemplo de outros emigrou para Lisboa, com trabalho e sorte conseguiu situação económica desafogada.Nunca esqueceu o torrão natal, oferecendo a  terra o relógio da torre, e imagem da padroeira.

O patrício Artur das Neves,de simples assalariado,guindou-se  a sócio gerente de importante firma comercial,graças a trabalho esforçado, e protecção de ilustre pampilhosense figura importante do partido de João Franco, presidente de um dos governos  constituídos no reinado de D. Carlos I.

De origem humilde Artur Neves nasceu na Pampilhosa em 1881,  faleceu em Lisboa a 7 de Janeiro de 1932, na sequencia de operação cirúrgica. Voltemos a "história " da imagem.

Em Junho de 1920, Artur Neves juntamente com  mulher filho e outros familiares,acompanhou a entrega da imagem,  a guarda do reverendo padre Álvaro prior da Pampilhosa.

Na ocasião pouco se demorou na Vila, seguindo  em viagem de recreio para a Beira Alta. A execução da imagem orçou cerca 800, escudos, com embalagem e transporte, teria ficado em 1000 escudos, uma quantia razoável , naquele tempo um trabalhador rural ganhava 7$50, por jornal.

Ficou aprazado, a imagem seria colocada num altar da igreja matriz  em Agosto próximo. Assim sucedeu.

No dia quinze de Agosto do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1920, sexta feira, a vila amanheceu engalanada com ambiente habitual dos dias festivos. A hora de missa pelas 10 da manhã a igreja estava repleta de gente, em lugar destacado, junto da imagem de Nossa Senhora do Pranto, o doador Artur Neves e família assistiram ao acto.Durante a cerimónia comungaram cento e cinquenta crianças. Na homilia o Padre José Lourenço Antunes de Almeida,pároco de Unhais - o - Velho, e Vidual , proferiu "belo sermão", este clérigo, considerado o melhor orador sagrado da região naquela época,tal como Artur Neves, fervoroso monárquico, não admira ter sido convidado para a função.No decorrer da missa a Imagem benzida e colocada no altar mor por detrás do sacrário, os fieis presentes ficaram impressionados com a beleza e grandiosidade da imagem.Tudo se processou na melhor ordem, com demonstração de fé.

No seguimento deste acto marcante na vida religiosa da Freguesia formou-se, comissão para  a festa fosse realizada sempre dia 15 de Agosto,  solicitou-se a Câmara Municipal que a feira anual de Agosto se efectuasse nos dias 14 e 15; assim festa e feira seriam mais concorridas. O quinze de Agosto como festividade anual nasceu de facto, em 1920.

Aqui fica a história da imagem da nossa padroeira, em 2020 vão completar-se  cem anos, sobre a chegada a igreja onde se encontra e  espero permaneça por muitos mais.

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06.Jan.17

A NOSSA FAMILIA "CARLOTO (A)" DE PAMPILHOSA DA SERRA

Referimos em varias ocasiões a nossa ascendência do lado materno avô Augusto Cortez.Hoje dia de Reis cumpre o aniversário do avô paterno João Fernandes Carloto,meu saudoso e querido amigo,foi uma figura popular e considerada pela população da vila de Pampilhosa da Serra,em preito a sua memória decidi escrever apontamento sobre a sua longa e profícua vida.

Nasceu em 6 de janeiro de 1886, na quinta da Foz de Vale Covo,onde o pai era caseiro.Casou a 5 de Fevereiro de 1910, com Maria de Ascensão Simões , no entanto sempre conhecida por Maria Olinda,devido ser filha de Olinda da Paixão,diligente e unica parteira da vila durante decadas.Ti João Carloto como ficou conhecido faleceu aos 93 anos,  Fevereiro de 1979.

A  vida dava um filme,a divina providencia concedeu-lhe inteligencia e habilidade notaveis.Tudo o que se propusesse construir ou reparar conseguia.Cumpriu  serviço militar no Regimento de Infantaria de Coimbra,quartel da Rua da Sofia, participou na parada da coroação do Rei Dom Manuel II,realizada na capital em 1908.Na tropa aprendeu a ler,  escrever, e música,graças ao qual se tornou clarim do Regimento.Lembro de ver ainda o instrumento musical na sua casa, e apreciar a forma como tirava som da "corneta", coisa para mim impossível.

Deslocou-se inumeras vezes a Espanha na faina da ceifa,a mestria para aguçar as foices dos camaradas de trabalho, permitia passar o tempo nessa tarefa,menos penosa.Com objectivo de melhorar  vida,quando terminaram as ceifas em Espanha ,abalava até Lisboa onde ganhava o sustento vendendo agua com barril, aos moradores dos andares mais altos,onde a agua não chegava.O chafariz onde se abastecia, o do largo do Rato, os clientes residiam na zona do Principe Real e Bairro Alto.

A estadia em casa do padrinho  de baptismo, João Cortez,irmão do avô Augusto, guarda freio da Carris , que residia na Rua Jau, Alto de Santo Amaro.Com economias construiu  casa no Barreiro onde morou e faleceu.Foi lagareiro, nos lagares da Ribeira de Moninho, e Lagar de Baixo , situado no Cabecinho dentro da Vila de Pampilhosa.

Sendo  figura respeitada,  durante muitos anos foi "cabo de ordens",cuja função era prender  acusados por ordem do tribunal.Nunca ninguem lhe desobedeceu. Tinha distribuida arma e munições, quando  em serviço levava sempre a arma descarregada,era  pessoa de bem,conhecia o ascendente que isso proporcionava.

Aos cinquenta e cinco anos de idade contraiu doença que lhe tolhia o andar quase por completo,dotado de vontade indómita nunca desistiu de trabalhar. Instalou casa abrigo por si levantada na "horta" da Boguela nos arredores da vila, para permanecer na propriedade e efectuar os trabalhos agricolas.Fez o meu berço e a primeira cama , ambos primorosamente executados em madeira

Os seus pais, meus bisavós, foram José Fernandes e Maria Carlota.Casaram no dia vinte e cinco de Agosto de 1875,uma  testemunha do casamento, o bacharel José Maria Henriques da Silva, primo de José.

Natural do lugar de Sobral de Baixo, conhecido por "Zé do Sobral", estava nos 27 anos quando casou, Carlota natural da Vila, um ano mais nova.Henriques da Silva, dono da quinta de Vale Covo,quis para caseiro o primo,  quando faleceu sucedeu-lhe um dos filhos.

O casal além do avô João teve mais descendentes um dos quais Adelino ficou caseiro em Vale Covo, lembro bem dele e  mulher, tia Emília.Dos filhos o mais novo meu grande amigo de infancia o Manuel,é patriarca da familia "Carloto" residente na Pampilhosa.

Meu pai António Maria Fernandes,também conhecido por António Carloto.O meu tio José Carloto filho do Ti Adelino casou com uma prima direita, minha tia e madrinha Maria da Piedade , falecida de modo trágico.

O avô João Carloto foi acompanhado até ao cemitério de São Sebastião pela população da vila em peso,que quis testemunhar a consideração pelo defunto.Tenho orgulho pertencer também a familia "CARLOTO", dedico a todos os primos este apontamento.

Conheci um Rei na minha vida, porque nasceu neste dia.João Carloto querido e inesquecível amigo que adorava e adoro.

Julio Cortez Fernandes (Carloto)