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aguadouro

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26.Set.13

Pampilhosa da serra roteiro dum futrica IV

Demorem-nos um pouco mais ainda no "barreiro", há muita coisa, a bulir na nossa memória. Na zona do barreiro, chegada ao Couço no caminho para S. Martinho próximo dos "cortinhais" ficava a casa da Ti Maria Angélica, de quem me lembro. Contígua morava a Ti Maria Cortez, casada com o Ti César Antão, era sobrinha do meu avô Augusto Cortez, algumas ocasiões, franqueei a casa, deliciava-me com a vista a partir da varanda. Um pouco adiante, numa grande casona  habitava a Ti Maria da Quinta e o meu amigo Manuel, cujo pai Eduardo Antão exercia a profissão de cantoneiro da estrada nacional.

Esta casa, hoje em parte arruinada tem uma história ligada um pouco à da minha família. Era a casa do nossos quintos avós Simão Fernandes Barreiros, e Josefa Cortez. Nela viveu depois durante toda a vida o primogénito, também de nome Simão, nascido  em 25 de Janeiro de 1722, faleceu solteiro aos 15 dias de Fevereiro de 1801. Anteriormente referimos, a origem do nome Barreiro, relacionada com actividade dos Fernandes: fabrico e comercialização da telha. No sitio abundava barro, matéria prima indispensável,para a feitura daquelas.no entanto, Simão Fernandes expandiu o negócio conseguiu fornecer o produto do seu fabrico, para os telhados das fábricas em Tomar cuja correição pertencia a Pampilhosa no séc. XVIII. O relacionamento com os industriais tomarenses devia ser, profícuo e próximo o padrinho do seu filho, foi Rodrigo Jacome Reymonde industrial, morador e natural da Vila de Tomar testemunhou o acto do baptismo o Reverendo João Barata, da Vila de Oleiros amigo e parente, outro indicio da situação social desafogada do "dono" do barreiro.

Continuando, defronte da casa do meu avô Carloto, vivia o casal: Ti António Custódio e Ti Angelina senhora afável natural de Trevões. Não fazia ideia onde seria, desde a infância tive curiosidade de conhecer a terra, já consegui visitá-la, confesso gostei, a localidade é Vila e freguesia no concelho de S. João da Pesqueira. O Ti Custódio conheceu a Ti Angelina uma ocasião durante a faina, das vindimas no Douro, hábito de muitos patrícios nossos no séculoXIX. Não tinham filhos; o Ti Custódio era "manejeiro" viviam bem. A função de manajeiro consistia em recrutar a pedido de agricultores da Estremadura espanhola, mão de obra, para as tarefas da ceifa de cereais naquela província Castelhana. A empreitada,começava com correspondência remetida pelos proprietários "dos Cortigos", assim se chamavam as herdades em Espanha, normalmente, em Março, depois de avaliarem as perspectivas da colheita e efectvos de trabalhadores que necessitariam. Recebida a missiva, conhecidas as condições. Quando não concordava, voltava a escrever, chegados a acordo, o Ti Custódio tratava de conseguir  "companha" de homens pretendida. Esta situação dava-lhe poder para arregimentar discricionariamente privilegiando parentes e amigos, uma posição de poder económico e ascendência sobre quem precisava do dinheiro da "ceifa "como de pão para a boca. O manajeiro além do salário recebia percentagem sobre o pessoal recrutado; algumas vezes dividia com a suas "companhas" motivando ,desse modo, a conclusão   mais rápida do trabalho para agradar ao patrão, reforçar  o vínculo com ele e salvaguardar a sua posição, como elemento de ligação em Portugal.

Completado o recutamento informados os patrões extremenhos, o pessoal abalava, normalmente em Maio, quedando cerca de dois meses em  Espanha, onde iriam deparar com condições laborais duras de autentica escravatura, dormindo no campo, muitas vezes sofrendo à mingua de água, trabalhando "de sol a sol", sábados e domingos incluídos, folga? Só dia de Corpo de Deus, se "caísse" quando ainda estivessem nas terras de "nuestros hermanos". Os espanhóis dedicavam devota veneração à festa do "corpus Cristi", em qualquer "pueblo" por mais humilde, realizava-se imponente procissão naquele dia. Os Portugueses associavam aquele acto ao final da safra.

As viagens a pé desde a Pampilhosa ou  aldeias do Concelho, até a estação de Sarnadas do Rodão, daí  em diante de comboio, com transbordo no Rossio de Abrantes em direcção a Espanha por Caia Badajoz. No entanto, muitas ocasiões, segundo fui ouvindo o caminho percorria-se todo a pé, passando por várias localidades alentejanas, como Nisa, por exemplo. Corria na Pampilhosa de então o seguinte ditado: "quem quiser saber o que as léguas são vá de Nisa a Alpalhão". As povoações extremenhas, de destino, espécie de "terras da rota da ceifa", situavam-se a cerca de 30 quilómetros da raia: Montijo,Torremejia, Lobon, Almendralejo, Etrín e Albuera. Esta última exercia sobre mim um grande fascinio, meu avô João Carloto vizinho e amigo do ti Custódio, algumas vezes esteve em Albuera, contava-me ao ceifarem reparavam na terra  cheia de capsulas de balas, restos dum combate que ali houvera. Muito mais tarde aprendi. Tinha sido uma batalha em 1811, 100 anos antes daquela observação dos milhares de capsulas misturadas com o solo. O relato dos ceifeiros Pampilhosenses datava de1914, nesse tempo os processos de lavra com recurso a rudimentares arados, revolvendo a terra a pouca profundidade, possibilitavam, a visibilidade e melhor conservação dos vestígios. Tombaram em Albuera, mortífera batalha da Guerra Peninsular à volta de 15000 combatentes entre aliados (ingleses,portugueses e espanhóis) e franceses. No imaginário de menino, Albuera era tal qual, uma espécie de apocalipse, depois confirmado, porque em nenhum outro sítio até aquela época, havia morrido tanta gente.

O regresso ás terras de origem seguia o trajecto da ida, as mulheres iam esperar os maridos, no Alto da Lontreira um cabeço nas cercanias da vila de Oleiros, onde recebiam os sacos com "pão da ceifa" resultado da poupança feita não comendo a ração que o patrão lhes atribuía. Pão de farinha de trigo alvo não ganhava bolor, um manjar para, os que ficavam durante a ausência dos seus, ansiavam o momento de saborear o "pão espanhol". O dinheiro das jornas, contribuía para o equilíbrio das contas das famílias, permitindo comprar aquilo que não se produzia na economia de subsistência alguns hábeis no negócio aumentavam o património das suas "casas",comprando terras. Tudo á custa de sacrifício escravo,e ambição nunca desmentida de conseguir superar uma vida de frugalidade e miséria.


12.Set.13

Pampilhosa da serra- roteiro dum futrica III

Continuamos a percorrer o "Barreiro", retomando o percurso, um pouco adiante da casa do meu avô João Carloto, na da tia Branca, bela construção de dois andares, rodeada com grande pátio protegido por um robusto portão de madeira pintado de verde, cercado de altos muros, uma casa "rica", construída graças aos "dollares" amealhados,pelo marido o Ti Zé Caseiro, emigrado na terra do tio Sam. Na América do Norte, permaneceu outro morador do "bairro" o Ti Moreira, marido da Tia Maria do Sobralinho, sacristão na Califórnia regressou segundo constava com pecúlio razoável. A tia Branca franqueou-me algumas vezes a sua casa, lembro a "vista maravilhosa " que  desfrutava da ampla varanda virada a nascente, cujas madeiras recortadas, igualmente pintadas de verde, lhe davam um aspecto singular. No pátio existia um alambique instalado num compartimento próprio onde o Ti Zé Esquinha, trabalhador dos proprietários, fazia a aguardente. Além das benfeitorias realizadas na habitação, o ti Zé Caseiro, comprou várias propriedade perto da vila, nomeadamente no Vale do Pereiro, barroca junto à antiga estrada para as Aldeias,um pouco antes do "Rencão". Ao lado desta casa ficava uma mais humilde pertença do Ti Zé Pelado, normalmente desabitada, dono e família estavam "lá para Lisboa", moravam no Pátio do Carrasco, frente à cadeia do Limoeiro, junto ao Aljube e à Sé.

Nesta zona do Barreiro, ficava a casa da Ti Maria do Carmo "Boia", morada do filho Isaac, casado com a Ti Palmira,os filhos, o Júlio que já partiu e o Zé Carlos eram meus colegas de brincadeiras. O Ti Augusto dos Queijos e a tia Maria de Orvalho, natural daquela aldeia do Concelho de Oleiros, viviam no outro lado da rua. Ali teve lugar um episódio que marcou profundamente o povo da Pampilhosa de então.Incluída nas celebrações Pascais,  o Pároco visitava o domicílio dos paroquianos, dando a beijar a cruz com Cristo Crucificado,popularmente " o Cruzeiro". O acto dava azo á formação de um cortejo, as pessoas acompanhavam a Cruz, o Padre o Sacristão, e um acólito com a "caldeirinha "da água benta, entravam nas casas, primorosamente preparadas para a ocasião onde se ofereciam ao sacerdote diversas iguarias, os mais abonados também dinheiro para as obras da igreja, aproveitava-se para pagar a "congrua". O sucedido junto á casa do ti Augusto dos Queijos, esta alcunha, advinha do seu negócio de vendedor de queijo, conta-se em poucas palavras. O Reverendo Benjamim Alves, Prior da Vila, convidado a entrar recusou delicadamente os fregueses em questão, não sendo casados canonicamente estavam impedidos de receber a visita do clérigo. O Ti Augusto dos Queijos, profundamente triste, quase em pranto, continuou a solicitar ao Padre a honra da visita. Este num gesto de grande nobreza e fraternidade, retirou dos ombros a "sobrepeliz", dizendo para o sacristão, o Ti Agostinho: "a Cruz fica à porta, não posso entrar como Padre vou como homem." O povo presente irrompeu numa ruidosa salva de palmas, o episódio passou a fazer  parte da memória dos Pampilhosenses. O Pároco conquistou definitivamente a admiração e respeito das "ovelhas do seu rebanho".

Uma figura popular do sítio, a Ti Águeda, mulher solteira, invariavelmente quando questionada acerca da sua idade, respondia: "tenho 25 anos", esta particularidade entrou no anedotário da vila, de modo quando alguém pretendia "camuflar " a idade dizia-se: "tem 25 anos como a Ti Águeda". Ao lado morava a Ti Clementina, viúva do Ti Ramiro, vendedeira de sardinhas de parceria com a sua irmã a Ti Mercedes. Eram amigas da minha avó Olinda, tinham fama no bairro as sardinhadas realizadas na adega do meu avô Carloto. Mulheres de armas. As irmãs levavam as sardinhas e pão, o azeite e vinho, corria por conta da minha avó,coisas que sempre teve com fartura; era uma "festa"...

A exemplo doutros locais da Pampilhosa desse tempo, as ruas eram "estriqueiras"cobertas de mato para onde se atiravam as imundícies domésticas, na maioria das habitações haviam currais para o gado, num lado as cabras do outro o porco.(apesar do código de posturas camarárias de 1957, proibir).

Uma curiosidade, talvez, a casa mais antiga da vila, mantendo a traça do inicio do seculo XIX, continua de pé no barreiro, fica na Rua de S.Pedro ,antiga Rua do Calvário, nela vivia, na época deste "roteiro", o Ti Adriano da Quinta.


(Vista da Rua de S. Pedro)