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Jaime Tudela de Castro

por Júlio Cortez Fernandes, em 12.07.15

Ilustre sábio e destacado humanista natural da Vila de Pampilhosa da Serra.

1.Breve Introdução.

 As montanhas do território onde está situada Pampilhosa da Serra, durante séculos estiveram cobertas de manto vegetal, formado de grandes manchas de sobreiros carvalhos e principalmente castanheiros, abundantes em todo o concelho, com maior incidência na freguesia da Vila. A “praga” do pinhal, chegou a estas paragens no inicio do século XX.

As florestas de velhos castanheiros são dádivas, as árvores de grandes copas arredondadas, trepando pelas encostas ou reconcavo dos vales, sugeriam alamedas de bosques “sagrados”, catedrais de verdura sombria iluminadas aqui e além de raios de sol penetrando nos intervalos das ramarias construindo atmosfera de místicos pensamentos, onde a presença do Criador se manifestava através de beleza teológica propícia ao devaneio e sentimento de religação do homem com a Natureza.

Além das plantas, da água dos córregos e barrocas, deparamos também silhuetas de serranias majestosas, de aspecto solitário, guardando ciosamente no interior riquezas minerais. Esses factos explicam que as populações antigas, prestassem culto as montanhas, costume arreigado nas tradições dos Lusitanos. Desse tempo restam a indecifrável mensagem inscrita na “pedra letreira“ perto do sítio “mágico” da Portela do Vento, na extrema dos concelhos de Góis e de Pampilhosa, e vestígios achados na proximidade confirmando o culto a deus romano, cujo templo se edificou no alto da Serra de Entre Capelos no cimo das Cabeçadas. No arrabalde da vila na “serra mãe” do Cabeço da Urra, a imaginação popular propalou ao longo de séculos o carácter divino de algumas construções ali achadas pelos pastores.

 Num meio envolvente assim caracterizado surgiram lendas contos e crenças, suficientes para singularizar a índole das gentes.

Indivíduos naturais da região deixaram testemunhos de carácter “místico” e grande merecimento, no âmbito do estudo e compreensão dos “segredos” da vida, amor pela humanidade, só possíveis a alguém tocado por um dom de sincera admiração à mãe natureza onde receberam pela primeira vez a luz da “Rosa Divina”.O livro “ECHOS DO VALE“ da autoria de E.C. Neves e Castro, editado por volta de 1873, em Coimbra, é exemplo de uma obra de cunho esotérico, recheada de referências ao bucolismo e beleza da terra e relacionamento fraterno das pessoas.

 

  1. Um Pampilhosense Humanista Fraterno.

Dia 20 de Setembro de 1878 pelas nove horas da noite, na vila da Pampilhosa num casarão, dos poucos caiados, designado por essa razão,”Casa Branca”, nasceu um indivíduo que iria chamar-se JAIME, seus pais Eduardo César das Neves e Castro, escrivão da Câmara Municipal do Concelho, e Dona Lutegarda Augusta Tudela Lemos e Castro, doméstica, senhora fidalga natural da vila de Góis, filha de João Barata de Figueiredo da Cunha e Nápoles, e Dona Emília Carolina de Sousa Tudela Lemos e Nápoles. Os pais de Eduardo César, Francisco Caetano das Neves e Castro, da Pampilhosa e Dona Antónia Emília das Neves do Fundão. O pequeno Jaime aprendeu as primeiras letras na Pampilhosa, provavelmente com professor privado, a escola pública ocupava instalações rudimentares, e insalubres estava destinada por isso, aos pobres. Acompanhou os pais que se deslocaram para Lisboa, onde o progenitor, mediante concurso obteve lugar de primeiro-oficial no serviço das finanças e alfandegas, decorria o ano de 1888.

Depois de terminar o ensino secundário, ingressou na Escola de Ciências Médicas, para cursar medicina, cuja licenciatura concluiu em 1903.

 O pai tornou-se amigo de João Franco, líder do Partido Regenerador Liberal. Chegaria a primeiro-ministro, cargo ocupado em 1908 quando de regicídio; amizade entre João Franco e Eduardo C. Neves e Castro, não deveria ser estranha a circunstância de Franco ter nascido no concelho do Fundão, onde era oriunda a mãe de Eduardo.

 Graças a influências políticas, o Dr. Jaime Tudela de Castro, nome completo do nosso “herói”, Conseguiu colocação de “médico substituto dos serviços externos”, na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Antes colaborava em jornais e publicações, uma das quais a revista “Branco e Negro”. Desse labor e influência do pai, começou a interessar-se pelas questões espirituais esotéricas e filosofia oriental. Proferiu em 1925 uma conferência na Sociedade Teosófica Portuguesa, dissertando acerca da obra Rabindranath TAGORE, filósofo indiano, primeiro não europeu a receber o galardão Nobel da literatura, em 1913. Tudela conhecedor profundo do pensamento de Tagore e civilização hindu admirava o mestre, uma das citações preferidas seria: ”A Pátria não é a terra, são os homens que a terra nutre”. Jaime Tudela de Castro desenvolveu a temática do poema “Asilo da Paz” traduzido por si para português, directamente do idioma bengali que dominava. Casou com Dona Alice Macedo Tudela de Castro, mais nova 17anos, da união não houve descendência.

A vida profissional decorreu entre a clínica privada e cargo na Santa Casa. Em 1904, seria nomeado médico dos lactários, depois de obtida a especialidade de pediatria. Permaneceu como “precário”, até posse definitiva do cargo em 23 de Outubro de 1931. Nesta época morava na Avenida Duque de Loulé. A acção desenvolvida nos lactários de Lisboa foi notável, fundou e dirigiu os lactários de santa Clara, e Santa Apolónia no bairro de Alfama, auxiliou muitos conterrâneos inquilinos das casas da malta dos estivadores do porto e da descarga do carvão, que sabendo a sua naturalidade o procuravam, para obter medicamentos e alimentação para os filhos que ficavam na terra à guarda das mães. Tudela de Castro sofria de graves problemas de saúde do foro cárdio respiratório.

Ao longo da vida laboral, passou diversos períodos de baixa médica, numa dessas ocasiões, por recomendação do clínico assistente, saiu de Lisboa, residindo temporariamente em França.

 No dia que completava 56 anos, em 1934, viajou de automóvel directamente de Lisboa, à Pampilhosa com o único objectivo visitar o quarto onde nascera, acompanhado da esposa e irmã Fausta igualmente natural da vila, mais velha dois anos, solteira vivia ao cuidado do irmão. Jaime concretizava assim um dos pensamentos do seu mestre Tagore: “Só tem futuro aquele que não esquece o passado”.

A carreira profissional culminou com ingresso na categoria de médico assistente da Santa Casa, em 13 de Agosto de 1943, auferindo salário mensal ilíquido de 1.200$00, e o direito a inscrição na caixa de previdência. Pouco tempo iria desfrutar da situação, finalmente estável. Faleceu em casa na Avenida Marques de Tomar nº 25 1º Lisboa, a 19 de Janeiro de 1944. O coronel Alberto Carlos das Neves e Castro, seu primo filho do tio Urbano, dirigiu o funeral, repousa no jazigo de família no cemitério dos Prazeres. À data da morte chefiava o posto clínico do pessoal no Laboratório Farmacológico. Graças ao seu trabalho de médico, Jaime Tudela de Castro, obteria posição de desafogo financeiro, permitindo ter a cargo além da irmã, a tia Rosalina de Sousa Tudela Lemos e Nápoles, provecta velhinha com a idade 80 anos. O desaparecimento de Jaime Tudela, conduziu a família a situação económica difícil, Fausta Tudela faleceu em 1955 habitando num humilde pátio de Campo de Ourique em Lisboa. O relacionamento com o pai ressentiu-se quando aquele se divorciou de Dona Lutegarda.

Homem de profundos conhecimentos filosóficos e espirituais. Culto  talentoso alcançou prestígio intelectual. Granjeou notoriedade, enquanto pediatra, pela competência, e sentido de humanidade para os mais desfavorecidos; o falecimento causou profunda consternação em todos que o conheciam. Dedicou aos problemas da infância, desvelada atenção. Nunca esqueceu a terra natal, Jaime Tudela de Castro é um Pampilhosense Emérito, merecedor da nossa admiração.

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