Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A GUERRA DA ÁGUA

por Júlio Cortez Fernandes, em 16.03.16

Voltemos ao nosso "poiso" imaginado no miradouro de Cristo Rei, alto do Calvário, vila de Pampilhosa da Serra .A paisagem no quadrante nascente é dominada pela "silhueta" modernista do edifício do Hotel da Vila aberto ao público há cerca de 3 anos.Aquele sítio era conhecido até á década de 80 do século XX, genericamente pela "cabeçada", perto onde foi edificado o hotel , ficava uma "fazenda" denominada "prazo" propriedade de Aníbal Augusto Cortez, a quem pertencia também a principal "pensão" da terra , nos baixos da qual estava instalada ampla e bem fornecida loja comercial, orientada pela sua esposa dona Palmira. "Ti" Aníbal  pessoa abastada, e influente na sociedade pampilhosense .

Relacionado com o "prazo" decorreu  em 1938, intrincado episódio que passou á história da vila ,conhecido pela "guerra da água".O prazo estava bem situado a terra do "chão" de boa qualidade, no entanto faltava água para rega da "horta".Ti Aníbal ,possuía propriedade na barroca do vale da Grima, junto ao caminho, da Pampilhosa na direcção de Janeiro de Baixo, naquele tempo não estava feita a estrada para Castelo Branco. O vale da grima distava cerca de um quilómetro do "prazo" , ali existia nascente que   ti Aníbal, pretendia aproveitar e conduzir a agua por meio de conduta de ferro , assente na berma do caminho público, para tanque de cimento mandado executar no "prazo"

Para concretizar a obra solicitou a devida licença á Câmara Municipal . Quando em sessão da edilidade o presidente Alves Antão júnior , colocou á votação o pedido levantaram-se vozes argumentado que a água pertencia ao povo , e só poderia ser autorizado o seu aproveitamento pela junta de Freguesia.

O presidente da Câmara, entendia, o assunto deveria correr pelos tribunais,pois parecia ser  caso de direito comum ,  fora do âmbito do poder autárquico.O presidente da junta de Freguesia Luís Gonzaga Nunes de Almeida  considerava, ser assunto da competência da autarquia.No pleito estavam também interessados alguns proprietários no Vale da Grima , que aproveitavam os "sobejos" do manancial para regarem os seus "bocados de horta"

Face a complexidade do problema , o presidente da Câmara decidiu solicitar ao Governador civil de Coimbra , Capitão Calado Branco,  nomeação de perito para dirimir o conflito. A escolha recaiu na pessoa do Capitão António Fernandes , presidente da Câmara Municipal de Arganil.

Sexta-feira 5 de Agosto de 1938, aquele autarca deslocou-se a Pampilhosa e conhecer "in loco", toda a problemática para emitir opinião fundamentada. Estava calor nesse dia. Chegado a Vila ,dirigiu-se ao Vale da Grima, acompanhado pelos "desavindos" , e alguns curiosos que surgem sempre nestas ocasiões.

O capitão António Fernandes , pouco demorou na Pampilhosa,  regressou a Arganil , elaborado o relatório , foi a Coimbra conferenciar com o Governador civil. A decisão seria favorável a pretensão de Aníbal Augusto Cortez,  a "secura" da "chã do Prazo" acabou.

O episódio ilustra o clima de crispação e inveja vivido na Pampilhosa, nomeadamente ,no seio da classe dominante.Os visíveis  meios de fortuna de Aníbal Cortez, causavam algum engulho , ao presidente da Junta de Freguesia , também comerciante , aparentemente com menor riqueza que Ti Aníbal.

O desfecho deve ter contribuído para Luís Nunes, a partir de nascente no sitio do "rencão" numa encosta do Cabeço da Urra, montasse uma conduta idêntica, para sua propriedade situada na "eira do Mendes", horta que ainda hoje existe.

Estas "tricas" politico-económicas, motivo de conversas não só no Concelho , como fora dele, pareciam a quem observava de longe , algo de estranho , enfim "coisas da Pampilhosa". Nesta "guerra", ficou demonstrado, para estabelecer ordem na casa era preciso alguém vindo do exterior.A guerra da água revelou-se ao fim e ao cabo uma grande "seca". 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:54


1 comentário

De José Quitério a 18.03.2016 às 00:48

Sempre interessantes os teus textos sobre a Pampilhosa.
E, sem querer ensinar a missa ao Vigário, vou dizer o que já sabes: O nome "Prazo", do terreno em questão tem, certamente, a ver com o facto de ter estado sujeito ao regime da enfiteuse que, em certas circunstâncias, também se dizia emprazamento.
Abraço
José Quitério

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D