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Roteiro da Pampilhosa da Serra- Cabeço da Urra

por Júlio Cortez Fernandes, em 27.08.13

No anterior apontamento, acerca do "bairro" do barreiro, na vila da Pampilhosa referimos a curiosidade do casario daquele se aninhar na encosta duma montanha emblemática: o Cabeço da Urra. Emblemática por ser um imponente relevo que se avista de qualquer local da vila. A sua forma de grande penedo arredondado dá a impressão de maior altitude apesar dos seus (851 metros). Esta atinge-se, num ponto "mágico" para os miúdos do meu tempo, o marco geodésico conhecido,por "picoto". Algo de inacessível, chegar lá a pé, indo da Pampilhosa era uma epopeia. Na vila o "cabecinho" está à cota 383 metros, o desnível, entre o picoto e a ribeira da Pampilhosa, é tão acentuado, que faz o cabeço assemelhar-se a enorme parede, difícil de "escalar". Nas cercanias da vila, o conjunto de montanhas tem altitudes superiores, Toita 963, alto do Soeirinho 934, cimo Decabelos1052. Pela sua proximidade o cabeço da urra, aparenta suplantar todas. Os antigos dividiam o cabeço em duas zonas: a "cabeça grande" sita no picoto, e a "cabeça pequena" na cabeceira da barroca de vale côvo na proximidade do parque industrial municipal das Aldeias.

O cabeço, esteve sempre englobado nos bens do Concelho. Na "Relação dos bens que existem no Concelho da Pampilhosa, Provedoria de Tomar, que pertencem ou que podem vir a pertencer à Real Coroa e Fazenda, de Setembro de 1828", dos bens do Concelho faziam parte "umas terras sitas no cabeço da urra, quase todas maninhas, algumas de pão que partem com vários moradores desta Vila, dos Lobatos, Vale Serrão e Aldeias, as quais nada rendem presentemente (1828), e foram avaliadas em vinte mil réis". Desde tempos recuados o cabeço da urra, para o povo da Pampilhosa foi uma espécie de "serra mãe" onde em épocas de mais dificuldade, se podia roçar mato,largar o gado ou procurar lenha como sucedeu, durante a segunda guerra mundial (1940-1945), em que a câmara Municipal permitia,aos munícipes, por um preço simbólico, arrancar "torgas" denominação atribuída às raízes de ervideiro e de urzes, utilizadas para as "fogueiras" leia-se lareiras, ou fazer carvão.

A origem do nome Urra, é muito interessante. No concelho de Portalegre há uma freguesia da Urra, em Trás-os-Montes, deparamos várias terras, chamadas Urrós, que são a mesma coisa. No documento, citam-se terras de pão. Faziam-se semeaduras de cereal, normalmente centeio. Desta graminea, aproveitava-se o grão, e a palha aquele para farinha, base dum pão escuro, que depressa se tornava rijo, esta para cobertura de casebres e casas, o colmo, e enchimento de colchões ou enxergas. Na preparação das terras para sementeiras devido ao declive das encostas, recurso á ajuda de animais não era viável, sendo exclusivamente executada pelo braço do homem, com uma rude e pesada ferramenta "enchadão". A operação de arrotear os matos, denominava-se cavada, sobrevive numa lomba do cabeço o sitio da cavadinha. A debulha decorria nas eiras, restam duas, uma próxima da vila a eira do Mendes outra adentro da encosta a eira do Cardoso.

Obtido o grão era necessário proceder a armazenagem  num silo, a construção deste implicava: abrir uma cova em local sem humidade com a profundidade aproximada à altura de dois homens, diâmetro semelhante, seguidamente cobria-se a superfície interna da cova ou "caldeiro", com argila ou barro, depois de secar, enchia-se com a colheita, a capa de barro impedia o contacto do cereal com o solo, para não se deteriorar, o acesso fazia-se por uma abertura suficiente à passagem de um individuo; tapava-se com uma pesada pedra, para evitar roubos e igualmente, barrada para impedir a entrada de água da chuvas.O silo ou  URRA, deriva do latim horreum, que quer dizer celeiro, durante a sua permanência na Península Ibérica, os árabes usavam esta técnica para guardar cereais existindo vários exemplos preservados em de Vila do Bispo ,no Algarve. A Urra da Pampilhosa estava localizada no "barroco do caldeiro", talvez um pouco afastada da berma da antiga estrada "carreteira" ligando a Pampilhosa as Aldeias.O silo seria comunitário porque se situava e recolhia "renovos" originados nas terras pertença do Concelho. A "montanha mágica" que domina a Pampilhosa, separando-a, pelo Sul do rio Zêzere, guarda muitos outros pedaços fascinantes da nossa história. Ou não fosse como referimos: o CABEÇO DO CELEIRO...


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