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Pampilhosa da serra-roteiro dum "futrica" I

por Júlio Cortez Fernandes, em 25.07.13

Sem pretendermos estabelecer,como agora se diz ,qualquer espécie de ranking, se houvesse um relativo as modificações operadas nos aglomerados urbanos em Portugal nos últimos cinquenta anos, a Pampilhosa da Serra, ocuparia um dos lugares cimeiros. Objectivo deste nosso escrito é relembrar, o que era o povoado na nossa infância, o titulo "aguadouro" ou "ogadoiro" como dizem os nossos patrícios, refere-se a um utensílio de lançar água sobre os alfobres, vamos aproveitá-lo e regar as memórias, para não murcharem, interessando outros para o tema. "Futricas", alcunha que os pampilhosenses do "termo" davam aos habitantes da Vila.

1954, será o inicio deste deambular pela vila de então. A Pampilhosa da Serra, durante séculos somente Pampilhosa, com o advento do caminho de ferro, passou a conter mais o "da serra", para não se confundir com a outra Pampilhosa (do botão), transformada em importante entroncamento das linhas ferroviárias  do norte ,e beira alta. Aqui para nós vamos continuar a designá-la por Pampilhosa. Registemos que as autoridades locais nunca protestaram contra este, acto de desrespeito a nossa Pampilhosa. Quem devia ter mudado era a outra... 

Naquela data a Pampilhosa tinha pouco de mais 600 habitantes, o seu casco urbano, formado por diversos sítios ou "bairros" irá ser o nosso roteiro. A ribeira dividia como ainda divide a povoação em duas partes, ligadas por uma ponte de tijolo construída em 1863. Quem vivia na margem esquerda chamava a outra margem o "Outro lado". Este começava na casa do Zé das almas, um pouco adiante onde é o acesso ao hospital que naquela data não existia, Zé das almas porque antigamente eram ali as alminhas da vila, o dono da casa era carteiro. Continuando pela estrada nacional surgia a padaria do Sr.. Hermano, tendo ao lado a casa do Jaime Coto. Prosseguindo deparávamos, uma das melhores casas da da vila, a casa de Eduardo Carlos, antigo chefe do partido democrático na 1ª República, presidente da câmara e tabelião,  onde  viviam os seus herdeiros, em frente morava o ti Jaime Vicente,aferidor camarário e industrial de latoria com a oficina no mesmo sítio. Continuando e na esquina duma rua bastante larga, mas pouco longa chamada "Avenida", a casa do ti Zé da Arminda, gente oriunda do vale pires, só mais tarde soube onde é, o filho grande amigo do meu pai, ambos repousam já no cemitério de S. Sebastião. Em frente a casa de saúde, posto de primeiros  socorros, no qual segundo se dizia  faltavam, alguns meios indispensáveis, dispunha de uma ambulância, normalmente estacionada no largo do mercado, veículo transportava doentes para o hospital de Coimbra. Neste posto de saúde ia a malta levar as vacinas nele o delegado de saúde o Dr. Afonso dispunha de  consultório. Prosseguindo pela estrada nacional, entretanto baptizada rua Rangel de Lima, em homenagem ao director de estradas do distrito de Coimbra, grande impulsionador da conclusão da estrada nacional 112, durante um século parada na Catraia do Farropo. Como íamos dizendo, continuando surgia, o estabelecimento comercial do Sr. Hermano, situado no rés-do-chão da sua casa de habitação, onde encontrávamos de amiúde a sua esposa D. Aurora, senhora que eu achava ter por mim especial carinho pois quando passava pela loja fazia uma festa ou dava-me bolachas. Em frente, outro estabelecimento dos mesmos proprietários, a "carvoeira" que albergava enormes pipas de vinho, dando ao amplo espaço um ambiente único na Pampilhosa. Era um castiço poiso dos pampilhosenses, apreciadores do seu copito. O Sr. Hermano, habitualmente, encontrava-se por lá controlando o andar da carruagem. Viria saber mais tarde,exerceu o cargo de Presidente da Câmara Municipal no inicio do Estado Novo, pessoa que infundia  respeito, no entanto a exemplo da sua esposa, achava-o simpático, era ainda parente da minha avó Emília. O neto do Sr.Hermano, com o mesmo nome do avô, veio a ser vereador e presidente da Câmara, eleito durante vários mandatos depois do 25 de Abril 1974, sendo conhecido por toda gente por "Nelito". Conheci bem, o seu pai o Tonito do Sr. Hermano, faleceu novo, não teve alegria de assistir ao sucesso do filho. A "carvoeira" acabou transformada em super mercado. No entanto na minha lembrança,continua como há 60 anos...

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publicado às 10:29


3 comentários

De António a 31.07.2013 às 21:56

Parabéns Júlio Cortez por este seu novo projecto! Obrigado por partilhar as suas memórias e a História de Pampilhosa da Serra. No ano em que se celebram os 500 anos do foral manuelino pampilhosense temos aqui um exemplo de cidadania que procura divulgar a memória e o património de um concelho perdido na Beira, mas dotado de grande encanto e potencialidades! Um abraço de um leitor atento, Ant.º Rosa.

De Júlio Cortez Fernandes a 01.08.2013 às 17:32

Caro António Rosa
Agradeço as palavras de estimulo .Gostei da sua visita, tenciono continuar com assiduidade o "roteiro".Quanto ao foral manuelino, penso elaborar uma "memória do seu achamento".Agora vou ficar pela "aldeia" grande que era a Pampilhosa da minha infância.
Um abraço deste seu amigo certo
Júlio

De Ana Paula Branco a 13.10.2013 às 23:53

Caro Júlio Cortez Fernandes

Parabéns pela iniciativa.
Trata-se de um interessante registo de memórias que gostei imenso de ler, tal como o meu pai. No final da década de 40 e principio da de 50, o meu pai ia quinzenalmente à vila, pois a minha avó tinha uma venda de tecidos no mercado. Lembra-se bem de algumas das pessoas que refere, nomeadamente os comerciantes da época.
Ficamos a aguardar por novas crónicas.

Ana Paula Branco

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