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Roteiros da Pampilhosa da Serra - Tempos idos

por Júlio Cortez Fernandes, em 24.11.13

Seguimos com a rota, orientada a nossa "bússola" para o rumo traçado. Recomeçando na rua da Quinta, onde tínhamos "descansado" na tasca do Ti Clemente, calcorreando a íngreme calçada, bordejando a igreja e o adro na esquina da casa do Pilheira, tomemos a Rua Rangel de Lima, que mais não é do que a Estrada Nacional ao tempo nº112, fronteira a casa paroquial, já demolida achava-se a loja do Ti Zé Mendes. O dono natural da Póvoa, uma das povoações da Freguesia da Pampilhosa, talvez por isso nos dias de mercado quinzenal,os habitantes daquela aldeia preferiam o estabelecimento, para saborearem as habituais sardinhas assadas, compradas as "sardinheiras" da feira. As vendedeiras de sardinha provinham de vários sítios, Figueira da Foz, Mira no entanto a maioria chegava de Tondela, Vila perto de Viseu o maior centro de distribuição de pescado das Beiras, posição conseguida, pela acção conjugada de grandes negociantes do ramo e ferrovia da Beira Alta que ligava directamente aquela Vila  a lota da Figueira da Foz.As sardinhas compravam-se ás dúzias, quarteirões ou centos esta última quantidade só os mais abastados. A sardinha salgada, depois frita em casa, guardada em escabeche até que quinze dias passados, chegasse outra possibilidade de "mercar", termo para significar ir ao mercado. O ti Zé Mendes, casou com uma senhora criada do Ti Aníbal, cujo nome esqueci. Além do negócio da taberna, o Ti Zé Mendes vendia carne de cabrito e cabra,a pedido.Recordo, de o ter visto em Vale côvo a comprar cabritos ao meu avô. Nas traseiras, fazia o abate e venda da carne.A taberna, abaixo do nível da estrada, era acessível por degraus balcão corrido abrangia as duas portas da "locanda". O Ti Zé Mendes habitualmente com ar circunspecto, no entanto nunca o vi mal disposto, bem situada a "tasca", atraía bastante clientela. Ficava onde actualmente é o prédio da ourivesaria da vila.

No lado oposto da estrada, a residência paroquial, "a casa do Padre" como o povo, dizia. Ao tempo habitava-a o reverendo Benjamim Alves. Uma curiosidade o primeiro baptizado que  celebrou na Pampilhosa foi o meu dia 29 de Dezembro, domingo pelas 4 horas da tarde. A casa do Padre tinha no quintal, uma horta ,cultivada pelo sacristão, o Ti Agostinho morador no bairro  da aldeia velha. A rega fazia-se elevando a água, do barroco do "ribeiro", por uma roda de alcatruzes, o barroco actualmente encanado desce do vale da serra no cabeço da Urra. Os renovos cultivados destinavam-se ao consumo do prior e  familiares que com ele moravam. Na cuidada horta, havia videiras e árvores de fruto. Resta em (2013), a figueira junto à ribeira encostada à ponte que atravessa o curso de água sobre a praia fluvial da Pampilhosa. Contigua à residência do pároco; grande campo normalmente semeado de milho o "passal" cultivado pelo Ti Antão, regado pela água da ribeira ,"puxada" por uma grande nora tocada a bois, funcionava onde, agora, é o bar do quartel dos bombeiros voluntários da vila. A casa do Padre e anexos foram demolidos para  arranjo da área envolvente  dos  actuais Paços do Concelho.

Este trecho da Vila, profundamente alterado pela execução do plano de urbanização,designava-se "largo do ribeiro", sítio  que Pampilhoseses de todo o concelho, recordam com emoção. A partida e chegada das camionetas da carreira Coimbra-Castelo Branco, decorria neste largo. A estação de camionagem, improvisada, dirigia-a o Ti Antero recordo com saudade, marido da D.Esperança professora primária felizmente ainda viva, pai do ilustre conterrâneo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, se vivesse estaria com razão, orgulhoso. Ao Ti Antero ia perguntar a mando da minha mãe se as encomendas do meu pai,ao tempo em Lisboa, tinham chegado. Levava a guia, normalmente recebida pelo correio "Oh Antero já veio o cabaz?". Com um sorriso respondia à pergunta, quando dizia sim, ia como um "foguete "avisar a minha mãe, do meio da rua ia gritando "Oh minha mãe! ti Antero já lá tem o cabaz". Toda a vizinhança ficava a saber, para mim, raspanete: "não sejas linguareiro". Ralava-me pouco.

Voltando ao terreiro das lágrimas do largo do Ribeiro quantos Pampilhosenses, se apartaram das famílias para sempre? Se alguém  partia, vinham os familiares mais próximos, amigos e vizinhos para a despedida, fossem pessoas da vila ou do termo cada saída das camionetas muitos afluíam aqui. Choros e ais, abraços apertados "adeus que não te torno a ver", "não esqueças de mandar um postal quando chegares", expressões que ouvia, normalmente sentado no bordo do bebedouro existente, no ínicio da escadas de acesso aos correios, a funcionar no primeiro andar do prédio do Sr. António Nunes. Este bebedouro, alimentado por uma  bica de agua corrente que caía numa pequena meia pia donde escorria para  "majedoura de água " donde os animais bebiam. Um dos clientes mais assíduos, a mula na qual o ti Ramiro transportava as malas do correio  da Amoreira, (Portela do Fojo). As chegadas seriam diferentes, sendo mais os que partiam lembro melhor estas.

Com o corrupio de gente ganhava o estabelecimento de António Nunes  pessoa  importante da terra, padrinho do meu pai , visita da adega do meu avô João Carloto no Barreiro, a quem tratava por senhor compadre. Não me sentia inibido quando o via, tratava-me com carinho, gesto que o meu pai apreciava. A taberna espaçosa, como ainda hoje se pode verificar. Onde (2013), está o mini mercado, o armazém; António Nunes acondicionava ali os víveres destinados à venda aos seus aos empregados. Na taberna bebiam vinho e comiam o farnel os protagonistas das abaladas. Repastos amargos. Fora destas ocasiões, a taberna servia de local de convívio ao pessoal da "casa", e muitos apreciadores da "murraça" moradores na vila.

António Nunes coxeava, por trás chamavam-lhe,o "manco", pela frente tiravam o chapéu, diziam Senhor António. Pai do querido amigo José Augusto Veiga, presidente da Câmara Municipal da Pampilhosa da Serra durante 17 anos. Morreu novo infelizmente, repousa em São Sebastião. O José Augusto foi um jovem rebelde, António Nunes, teria tido muita alegria e orgulho, se  tivesse vivido o triunfo do filho. António Nunes, marido  de D.Filomena Veiga, conhecia-a bem cumprimentava-me quando passava por mim ,ou avistava da janela da sua habitação.Senhora, de porte distinto,diferenciava-se pela elegância e simpatia. Filha dum poderoso homem da terra Jaime Dias de Carvalho, o vulgo apelidava, Jaime das Malhadas. D.Filomema: uma das "meninas das malhadas", Malhadas da Ribeira, casal próximo da vila onde viveu o Sr. Jaime domínio amplo com capela dedicada a S.Geraldo. Os meus avós, falavam muito  dele. Monárquico, rico, autoritário durante a sua vida assumiu grande protagonismo na "governança" da vila. Frente do largo do ribeiro, espaço ocupado pelos Paços do Concelho, Praça do Regionalismo  centro comercial, estava o "Campo da Bola" realizaram-se grandes encontros de futebol, entre o Desportivo Pampilhosense e clubes importantes, recordo Sporting da Covilhã na altura, jogando na primeira divisão. Estes terrenos,e onde se edificou o quartel dos bombeiros voluntários foram adquiridos pelo município, durante a presidência de Luís Nunes. Alguns de sua propriedade,  junto ao cemitério existiu uma fábrica de resina, também sua. Um dia  violenta explosão destruiu tudo. A Capela de S.Sebastião, diferente da actual remontava ao século XVI,  o rei D.Sebastião ordenou: em todas as vilas do reino á entrada ou saída delas se erguesse uma ermida dedicada ao Santo  do seu nome, na Pampilhosa foi escolhido aquele local por ser a saída da estrada para a Covilhã.Por hoje ficamos.

A imagem da procissão integrada nas celebrações do dia quinze de Agosto de há vinte cinco anos atrás, mostra algums edíficios contemprâneos da narrativa.

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publicado às 11:16


3 comentários

De Rita a 25.11.2013 às 13:25

Isto é há mais de 25 anos...parece-me! ;)

De Júlio Cortez Fernandes a 25.11.2013 às 14:11

Talvez vinte sete,o numero indicado é somente como referência.Não faz grande diferença um ou dos anos.Obrigado pela visita

De mcarvalho a 30.05.2014 às 22:47

Só há pouco tempo tive conhecimento do seu blog, e desde então, tenho vindo a ler os seus relatos que são a nossa história.
Obrigada, Sr. Júlio por não nos deixar esquecer as memórias dos nossos antepassados.
Marisa Carvalho

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