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Roteiro das tascas da Pampilhosa da Serra nos anos 1950

por Júlio Cortez Fernandes, em 07.11.13

Estamos na "praça": quedemos um pouco mais na loja de Luís Nunes, Presidente da Câmara, homem austero, incluído na linha dura da situação politica vigente. O código Administrativo impunha a obrigatoriedade do Presidente da Câmara Municipal ser titular de licenciatura, na Pampilhosa da Serra, daquele tempo seria difícil cumprir este requisito, dada a escassez de"letrados", o recrutamento fazia-se convidando os indefectíveis, com meios de subsistência garantidos como era o caso, dada a condição de comerciante; cargo camarário remunerado, só o do Presidente. A sua atribuição poderia ser encarada como "um prémio". Uma vez no cargo, a primeira obra, mandada executar foi o arranjo da estrada carreteira da Vila ao termo; servia a sua propriedade chamada: "Eira do Mendes". Deslocava-se a cavalo, passava junto à casa onde morava, na Rua do Calvário, confesso incutia respeito. Normalmente dirigia-me umas palavras, não simpatizava muito com ele. Faleceu pouco depois, não lembro do funeral, talvez estivesse em Vale Côvo, na casa dos meus avós maternos onde passava temporadas, para regalo da minha querida avó Emília, que me mimava tanto! Ainda hoje largo tempo volvido, recordo a sua figura, frágil e doce deitando-me à noite na cama, fazendo o "credo" sobre as mantas, evocando o anjo da guarda, dava-me um beijo, adormecia, confortável e feliz.

O Presidente Luís Nunes, tomou uma atitude com repercussões no meio familiar. Conta-se rápido, meu avó Augusto Cortez, republicano, amigo de Eduardo Carlos, Porfírio Carneiro e Dr.Barateiro, durante a primeira republica pertenceu ao P.R.P (Partido Republicano Português), os "democráticos". Em 1951 as eleições Presidenciais, na sequência da morte do Marechal Carmona, concorreram o general Craveiro Lopes da união nacional e Quintão Meireles, Almirante, da oposição. Meireles desistiu com argumento de não serem eleições livres. O meu antepassado passou a afirmar, assim não iria votar. Luís Nunes deve ter sido informado, tendo encontrado meu pai teria dito: "António diz ao teu sogro que se não for votar mando prendê-lo". Preocupado correu a Vale Côvo informar do sucedido. O meu avô não se amedrontou, manteve a sua, não iria votar! A minha avó e outras  pessoas da família tentavam demovê-lo, tanto pressionaram, que para não os apoquentar mais, decidiu votar, riscando o voto só para "descarregar "o nome.

A taberna de Luís Nunes, possuía uma área de mercearia na qual normalmente aviava a sua viúva D.Amélia, sempre vestida de negro, pessoa afável, irmã da D. Aurora esposa do senhor Hermano. Na zona da "pinga" mandava o Ti Jaime Pires, por vezes algum dos filhos, o Luís que lembro, a filha Silvina moça bonita, encontrava-a na rua frente à casa. A tasca dispunha dum espaço interior relativamente amplo onde alguns clientes demoravam mais um pouco a beberricar; o local desta "loja" é na actualidade um conhecido mini-mercado da urbe.

Prosseguindo na rua da quinta, deparávamos com duas "locandas" uma frente à outra, a do lado esquerdo olhando na direcção da Igreja, pertencia ao Ti Zé Silva, popularmente conhecido: "borra carretas", casado com a Ti Lusitana Canhota. Ia pouco a este estabelecimento, devia ter vinho bom, fregueses não faltavam no banco corrido existente junto a uma das paredes, ocupação quase permanente. O Ti Zé Silva, sabia  lidar com a clientela. Curiosamente é a única tasca ainda, existente na Pampilhosa da Serra, sendo dirigida pela proprietária viúva do Carlos Beco, pessoa simpática e afável. Recordo muito bem a filha do Ti Zé Silva, Ernestina. Encontrava-a  amiúde na Igreja cuidando dos altares, pertencia ao grupo dos leigos activos da paróquia. As más línguas da vila diziam que as meninas casadoiras, tinham um "fraquinho" pelo jovem pároco da altura o saudoso Reverendo Benjamim Alves. Coisas dos meios pequenos: coscuvilhices.

Na tasca do outro lado da rua, pertença do meu primo Zé Gerúndio, passava muito tempo habitualmente, a prima Rosa, sua mulher tomava conta do estabelecimento, o marido dono do táxi da vila, despendia o seu tempo no transporte dos clientes. Aqui,colocado sobre a mesa da "Singer", maquina de costura postada logo a entrada, que a proprietária com regularidade utilizava, pela primeira vez vi o jornal REPÚBLICA. Zé Gerúndio era assinante. Nunca esqueci, mais tarde em Lisboa,apercebi-me do significado.A partir dos meus quinze anos,decidi,passei a ser também da oposição.O meu pai salazarista convicto, "picava-me" dizendo: havia de levar-me tabaco a Caxias, no fundo sentia orgulho de não ter receio de falar mal da situação, achava-me, como "Ti Augusto". Aqui casa do sobrinho, procurava o meu avô ficar, quando vínhamos ao mercado. Assávamos sardinhas num fogareiro à porta, comiam-se regadas com vinho tinto, quase sempre na companhia da irmã, a tia Glória Maria, viúva, mãe do Gerúndio. Eu costumava beber um pirolito. O avô não deixava cheirar sequer o vinho, afirmava se as criança bebessem "ficavam rudes". O primo Gerúndio adquirira um gira discos, de dar à manivela para funcionar, grafonola, nome vulgar, se ia Vale Covo, almoçar com os meus avós levava o aparelho, ouvíamos fados da D. Amália Rodriguese D. Maria Alice, como respeitosamente o meu avô referia,tocador de guitarra, cantador animador de bailes de roda mandada, passou a ser conhecido por "Augusto Hilário", desconhecia ao tempo,  não ser pejorativo, irritava-me quando alguém se atrevia a chamar-me neto do ti Hilário. Da influência politica exercida pelo meu avô, só muito mais tarde dei conta. Pouco assíduo à missa, pertencia à Irmandade do Santíssimo Sacramento, comparecia ao funeral de qualquer irmão, nas procissões de Domingos Terceiros, vestia uma opa vermelha, usava uma vara, também daquela cor, que levava desfilando sempre ,no meio do cortejo, fazia parte da Mesa da irmandade.

No fundo da rua perto da igreja, onde está agora a "estalagem e restaurante", encontravamos o estabelecimento do Ti Clemente, natural do Sobral, além de comerciante, exercia a função de carteiro. Se estava ausente no serviço oficial, ficava na loja a mulher. O edíficio inicial foi demolido para se construir a  "residencial",tinha uma traça antiga mais atractiva que  a do mamarracho sucedâneo.

A loja compunha-se de mercearia e taberna,separadas pela escada de acesso ao andar superior onde morava.A tasca espécie de "cova funda",não tinha muita luz natural,uma janela redonda,qual óculo,exercia um grande fascínio na garotada , ao passar na rua não resistia à tentação de espreitar, quase sempre víamos homens a jogar as cartas. O dono não gostava e "corria "com a malta, no entanto, um homem cordato, a tasca beneficiava do facto de estar perto da igreja, afluía muita gente aos domingos e por ocasião de funeral, enchente  garantida. Segue dentro em breve

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publicado às 20:32



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