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Rota das Tascas da Pampilhosa da serra nos anos de 1950

por Júlio Cortez Fernandes, em 13.10.13

Façamos um intervalo na "ronda dos sítios da vila,para dedicarmos um pouco da nossa atenção "as tascas",onde os pampilhosees,se encontravam para,degustar o seu copito e dar um dedo de conversa.Para não nos cansarmos muito ,porque ficamos no barreiro,começemos pela rua 5 de Outubro,incorrectamente,também chamada da Misiricórdia por ser ali a capela da instituição.

Descendo as escadas do cimo da rua, em frente onde estava o posto da GNR,ficava a taberna do Ti Olivença e da tia Célia,ou também da Ti Idalina, ferquentada pela gente das redondezas,pequena e acollhedora,tinha uma particularidade: o Ti António Olivença,exercia o ofício de sapateiro,na oficina instalada entre a porta.A meio, esquina da rua da fonte do barreiro, encontravamos o estabelecimento do TI Acácio Talau,de aspecto sombrio, fosse noite ou dia.O proprietário cordial, era meu parente.Entre nós passou-se um episódio   tema de conversa ,durante algum tempo na vila.O Ti Acácio,possuia uma propriedade,num sítio chamado Covanca,em frente da aldeia desaparecida da FOZ DO SOBRAL,a cerca de tres quilometros da vila.Na epoca da apanha da azeitona,um rancho de mulheres  e homens,enchiam de colorido o local,soalheiro e bonito; havia uma casa com loja e sobrado para o qual se subia por uma escadaria de pedra.A água para a "horta" vinha duma nascente,a meio da encosta,conduzida através dumas "cales " de madeira.Em dado momento apeteceu-me beber água , já tinha sido retirada á água das"cales" por ter passado o tempo da rega,teria de ir á nascente , assim fiz ,o Ti Acácio Talau  emprestou  copo  feito de chifre de boi para beber,Não sei como,chegado á fonte,poisei o copo  bebi,directamente do manancial,água fresquissima e leve,o utensílio deve ter caído para alguma das silvas próximas, procurei não consegui,encontrá-lo.Regressei a chorar,num pranto ,que causou espanto,em todos  ,alguém perguntou, que se tinha ,passado,até ti Acácio saiu da casa, no cimo da escadas,estacou estupefacto;num choro convulsivo  respondi :"Perdi o corno do ti Acácio Talau",risota geral ,incluindo o próprio .Na altura não compreendi  a falta de repreensão ,ou do esperado  tabefe. Só muito mais tarde percebi o alcance da expressão, Durante muito tempo onde quer que passava perguntavam-me,"então Júlio o que fizes-te na covanca?" só para ouvirem a resposta usual"perdi o corno do ti Acácio Talau", a risada surgia, eu gostava, aqui para nós, sem saber, começei a achar graça.

A taberna seguinte,junto Capela da Misiricórdia a do Ti Zé Dias, era um estabelecimento com várias actividades ,alfaiataria,barbearia, ao  fundo o balcão da taberna.no primeiro andar funcionava uma pensão,local de pernoita para alguns caixeiros viajantes.Naquele tempo a distancia  para Coimbra ou Castelo Branco,levava horas a percorrer; muitos dos passantes se ao fim do dia estivessem na vila era forçoso ficar.

O ti Zé Dias, a sua mulher  Ti Lucinda,eram pessoas simpáticas, Ti Zé Dias, uma espécie de "fogueteiro" oficial.quando solicitado lá ia ao alto do Calvário.lançar o foguetório, tinha um medo "patológico "dos foguetes,se o via passar, canas debaixo do braço ,tratava de esconder-me,não fosse alguma cana caír-me em cima.Sabendo disso, ao cortar o cabelo,sentado na tabua colocada sobre os braços da cadeira da barbearia,atirava a pergunta:"queres ir comigo lançar uns foguetes?", a resposta chegava "Lá está este alma do diabo a tesicar-me".Gargalhada geral entre os presentes.O Ti Zé Dias gostava de se divertir  tinha um apurado sentido de humor,qualidade que  um dos  filhos, também Zé, industrial de alfaitaria,no bairro da Graça em Lisboa,herdou.Uma ocasião, com um grupo de amigos,nossos patrícios, dados á brincadeira, alugaram um carrão último modelo,duma conhecida marca da época; deixaram meia vila de cara á banda ,por alturas da festa do 15 de Agosto,ao irromperem  na terra,transportados com estilo e opulência.  Passaram uma semana divertindo-se á grande com os comentários,á sua "máquina" e à prosperidade exibida, não passava pela cabeça de ninguém o facto do automóvel poder ser  alugado.Continuaram a divertir-se sempre que falavam do assunto,como sucedeu quando me contaram muitos anos depois. A seguir a loja da Luizinha, ainda convivi com a sua mãe D.Maria,viúva de José Luis Nunes ,que não conheci. Importante industrial de produtos resinosos,dilecto amigo do Dr. Luiz Barateiro,maçon, um dos fundadores do triangulo maçónico,da Pampilhosa em 1933.Não me lembro se no estabelecimento,vendiam vinho.Recordo  longo balcão e o aspecto arrumado do sítio.O local é hoje(2013),a estação dos Correios.

Continuando estamos na "praça"dita Barão de Louredo ,em homenagem a um emigrante enriquecido no Brasil.Para conseguir um título ofereceu ao concelho a escola de Praçais e o fontanário existente, apesar de ser natural do vizinho Municipio de Góis.Na "praça" existiam duas tabernas: a da Tia América,mulher do Ti Zé Morgado,alfaite; e a de Luis Nunes,Presidente da Câmara,pessoa temida naquela altura.

Achava a Ti América uma pessoa afável,gostava de falar comigo, se minha mãe mandava fazer um recado para comprarar alguma coisa,perguntava-me pelo dinheiro.A resposta aparecia directa , sem demora ,a minha mãe disse para pores no livro. Ti America para me soltar a lingua,costumava,fingir, assim não aviava o pedido.Respondia sempre :"se não levo o que a minha mãe quer "roo"

Nunca negou nada, era só brincadeira.A loja ficava a seguir á casa dos Afonsos, casita que ainda lá está.A tasca no res-do-chão era parada de muitos "bebedores",vários saíam com evidentes "borracheiras". Algumas vezes a Guarda prendia aqueles que provocavam reboliço na via pública,encarcerava-os no "segredo",uma cela húmida escura na cave do posto.No dia seguinte libertavam-os,sem dar explicações.Enfim...

A loja do Luis Nunes vendia os pirolitos fabricados pelo Ti Jaime Pires seu feitor,sobrinho do meu avô Augusto, grande músico,chegou a ser o mestre da banda filarmónica.As tascas da Praça,perto da Cãmara e "recebedoria",serviam freguesia constituída por gente de todo o concelho.Ficamos por aqui,até à próxima crónica.

 

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