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Pampilhosa da serra- roteiro dum futrica III

por Júlio Cortez Fernandes, em 12.09.13

Continuamos a percorrer o "Barreiro", retomando o percurso, um pouco adiante da casa do meu avô João Carloto, na da tia Branca, bela construção de dois andares, rodeada com grande pátio protegido por um robusto portão de madeira pintado de verde, cercado de altos muros, uma casa "rica", construída graças aos "dollares" amealhados,pelo marido o Ti Zé Caseiro, emigrado na terra do tio Sam. Na América do Norte, permaneceu outro morador do "bairro" o Ti Moreira, marido da Tia Maria do Sobralinho, sacristão na Califórnia regressou segundo constava com pecúlio razoável. A tia Branca franqueou-me algumas vezes a sua casa, lembro a "vista maravilhosa " que  desfrutava da ampla varanda virada a nascente, cujas madeiras recortadas, igualmente pintadas de verde, lhe davam um aspecto singular. No pátio existia um alambique instalado num compartimento próprio onde o Ti Zé Esquinha, trabalhador dos proprietários, fazia a aguardente. Além das benfeitorias realizadas na habitação, o ti Zé Caseiro, comprou várias propriedade perto da vila, nomeadamente no Vale do Pereiro, barroca junto à antiga estrada para as Aldeias,um pouco antes do "Rencão". Ao lado desta casa ficava uma mais humilde pertença do Ti Zé Pelado, normalmente desabitada, dono e família estavam "lá para Lisboa", moravam no Pátio do Carrasco, frente à cadeia do Limoeiro, junto ao Aljube e à Sé.

Nesta zona do Barreiro, ficava a casa da Ti Maria do Carmo "Boia", morada do filho Isaac, casado com a Ti Palmira,os filhos, o Júlio que já partiu e o Zé Carlos eram meus colegas de brincadeiras. O Ti Augusto dos Queijos e a tia Maria de Orvalho, natural daquela aldeia do Concelho de Oleiros, viviam no outro lado da rua. Ali teve lugar um episódio que marcou profundamente o povo da Pampilhosa de então.Incluída nas celebrações Pascais,  o Pároco visitava o domicílio dos paroquianos, dando a beijar a cruz com Cristo Crucificado,popularmente " o Cruzeiro". O acto dava azo á formação de um cortejo, as pessoas acompanhavam a Cruz, o Padre o Sacristão, e um acólito com a "caldeirinha "da água benta, entravam nas casas, primorosamente preparadas para a ocasião onde se ofereciam ao sacerdote diversas iguarias, os mais abonados também dinheiro para as obras da igreja, aproveitava-se para pagar a "congrua". O sucedido junto á casa do ti Augusto dos Queijos, esta alcunha, advinha do seu negócio de vendedor de queijo, conta-se em poucas palavras. O Reverendo Benjamim Alves, Prior da Vila, convidado a entrar recusou delicadamente os fregueses em questão, não sendo casados canonicamente estavam impedidos de receber a visita do clérigo. O Ti Augusto dos Queijos, profundamente triste, quase em pranto, continuou a solicitar ao Padre a honra da visita. Este num gesto de grande nobreza e fraternidade, retirou dos ombros a "sobrepeliz", dizendo para o sacristão, o Ti Agostinho: "a Cruz fica à porta, não posso entrar como Padre vou como homem." O povo presente irrompeu numa ruidosa salva de palmas, o episódio passou a fazer  parte da memória dos Pampilhosenses. O Pároco conquistou definitivamente a admiração e respeito das "ovelhas do seu rebanho".

Uma figura popular do sítio, a Ti Águeda, mulher solteira, invariavelmente quando questionada acerca da sua idade, respondia: "tenho 25 anos", esta particularidade entrou no anedotário da vila, de modo quando alguém pretendia "camuflar " a idade dizia-se: "tem 25 anos como a Ti Águeda". Ao lado morava a Ti Clementina, viúva do Ti Ramiro, vendedeira de sardinhas de parceria com a sua irmã a Ti Mercedes. Eram amigas da minha avó Olinda, tinham fama no bairro as sardinhadas realizadas na adega do meu avô Carloto. Mulheres de armas. As irmãs levavam as sardinhas e pão, o azeite e vinho, corria por conta da minha avó,coisas que sempre teve com fartura; era uma "festa"...

A exemplo doutros locais da Pampilhosa desse tempo, as ruas eram "estriqueiras"cobertas de mato para onde se atiravam as imundícies domésticas, na maioria das habitações haviam currais para o gado, num lado as cabras do outro o porco.(apesar do código de posturas camarárias de 1957, proibir).

Uma curiosidade, talvez, a casa mais antiga da vila, mantendo a traça do inicio do seculo XIX, continua de pé no barreiro, fica na Rua de S.Pedro ,antiga Rua do Calvário, nela vivia, na época deste "roteiro", o Ti Adriano da Quinta.


(Vista da Rua de S. Pedro)

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publicado às 22:42



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