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QUANDO MORREU O POETA QUE CANTOU A NOSSA TERRA

por Júlio Cortez Fernandes, em 01.02.18

Registam as crónicas,Fevereiro de 1924, decorreu frio e cinzento. No primeiro dia desse longinquo mês sexta feira faleceu com idade 77 anos, na casa  numero 173, Rua de Santa Marta, Lisboa, vitima de doença prolongada, o nosso conterrâneo Eduardo Cezar das Neves e Castro.O funeral realizou-se, Domingo seguinte para o cemitério lisboeta dos Prazeres.

Eduardo ,nascera na Vila de Pampilhosa da Serra, a 4 de Setembro de 1846, filho do segundo casamento de Francisco Caetano das Neves e Castro,natural da vila, um dos senhores da "casa branca", e Dona Antónia Joaquina ,  do lugar das Donas , concelho do Fundão.

Eduardo, funcionário publico de carreira ,  iniciou actividade profissional, como escrivão da Câmara Municipal da Pampilhosa , terminando secretário geral do Supremo tribunal Administrativo aduaneiro e Fiscal,no ano de 1916, quando atingiu a idade da reforma.

Durante a vida , participou activamente na política sendo companheiro de João Franco,na fundação do Partido Liberal.

 Na juventude  escreveu poesia tendo publicado  um livro : "ECHOS DO VALLE", em louvor da terra onde nasceu e da  gente que  nela habitava .A edição tem data 1873.

A vida sentimental, teve alguns dissabores,viúvo, viveu com outra senhora,o fretero seria depositado em jazigo emprestado.Mais tarde 1928, o filho Jaime Tudela de Castro, distinto clínico em Lisboa, republicano maçon, amigo de Hermano Neves, natural de Alvares Góis,mandou construir jazigo no Cemitério dos Prazeres, para onde foram trasladados os restos mortais dos seus pais

O jazigo de Jaime Tudela de Castro não ostenta seu nome , sim o do pai , homenageando desta forma  progenitor que muito admirava.Jaime deixou  em testamento o jazigo, a Santa casa da Misericórdia de Lisboa , onde trabalhou com médico pediatra.O documento, referia quem lá deveria ser inumado.Pelo facto de pertencer a Santa Casa o jazigo está bem conservado. Ultimo corpo  depositado, conforme estipulado pelo testador, a tia, Rosalina de Sousa Tudela de Lemos e Nápoles, falecida em 1948.

Lembrando Eduardo Cezar Neves e Castro,reproduzimos parte do poema "A minha Terra",  dedicado a nossa querida Pampilhosa.

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 E para quedar  ,aqui fica a capa do livro integrado da minha biblioteca.

 

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publicado às 13:18


O FOGO TORNOU VISÍVEIS MUROS APIÁRIOS

por Júlio Cortez Fernandes, em 13.01.18

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Escrevemos algures; transformações verificadas ao longo dos séculos nas montanhas da Cordilheira Central  de Portugal,região natural onde está situado concelho de Pampilhosa da Serra, decorreram em certas ocasiões de forma tão repentina,apagando memorias e factos dos quais ficaram vestígios cujo significado a maioria das pessoas ignora.

Para resgatar do esquecimento os saberes e cultura dos nossos ancestrais é indispensável "ler" a paisagem decifrar a toponímia , partilhar o conhecimento.

Tudo isto a propósito da apicultura nas nossas montanhas.por exemplo silha,conjunto de cortiços, colmeias ,assentes em parapeitos de pedra de xisto,denominados paredes ou muros,também  "malhadas". Instaladas as silhas nas encostas viradas viradas a sul e nascente, próximo de fontes de água, abrigadas das ventanias,porque vento forte "descalça" as abelhas impedindo entrega do pólen no cortiço.

Vicissitudes dos séculos fizeram desaparecer o rasto das construções.

Todavia permanecem  topónimos relacionados com produção de mel.Nas cercanias da vila de Pampilhosa da Serra encontramos , Vale dos Enxames, a montante, seguindo o curso da ribeira, o sítio das Malhadas da Ribeira, propriedade antigamente de personagem importante na história do burgo, Jaime Dias de Carvalho, o senhor Jaime das Malhadas, deparamos com muros apiários que deram nome ao sítio, o terrível incêndio do passado 15 de Outubro, consumindo a vegetação, deixou visíveis.Há males  fazem ainda que diminuto, algum bem, dando razão as nossas "cogitações" toponímicas.

 

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publicado às 15:36


ALMINHAS DE VALE CÔVO

por Júlio Cortez Fernandes, em 17.11.17

Passou um mês do dia trágico do grande fogo, implacável e mortífero, jamais as serranias da Pampilhosa da Serra, foram sujeitas a tamanha "fornalha".

Quem não percorreu o território depois da tragédia, não faz ideia da grandeza da devastação. Infelizmente querida amiga de infância pereceu, não quero escrever acerca disso agora.

Nesta ocasião vem a lembrança as árvores de fruto, sobretudo as oliveiras ardidas. Quanto trabalho e suor para plantio enxerto de milhares, em chãs, patamares de "palmos de terra", sustidos por paredes de xisto, a vista dos quais, socalcos das vinha do Douro,... são quase nada.

Gerações de antepassados, mãos calejadas do frio, sol e das pedras, construiram obra, o fogo reduziu-a cinza, em minutos.

 Boguela e "sardanisca", sítios próximos da vila, eram manto de verde polvilhado por dezenas de oliveiras, muitas plantadas, enxertadas podadas, cuidadas com esmero pelo Ti João Carloto, nosso querido avô de saudosa memória. Não ficou nada. Se vier Inverno rigoroso, tudo será arrastado para a ribeira. Dor de alma...

Além disso tentei avistar as alminhas de Vale Covo arrabalde da Pampilhosa, mandadas construir pelos donos da quinta dos Silvas, cumprindo  promessa feita pelo sucesso de melindrosa operação cirúrgica,de um dos herdeiros da propriedade.

Considerava as alminhas, como sendo seu "dono", acompanhei. há cerca seis décadas,  a construção, trabalho de nosso tio António Casaca, sob direcção de Ti Serafim Gaspar, feitor da herdade.Eu morava em casa dos avós maternos situada no vale da outra margem da Ribeira, fronteiro ao local onde ficaram as alminhas,no cruzamento das estrada da vila, Sobral de Baixo e caminho para aldeia dos Covões. Era fácil chegar lá, gostava muito do meu tio e padrinho de "crisma", quando podia ia ao seu encontro.

Se o fogo deu cabo das alminhas então foi desgraça total. Gostaria saber de fonte segura se ainda lá ficaram, caso contrário seja quem seja o causador da "ucha" demoníaca, não terá perdão.

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publicado às 16:10


UM MAR DE CHAMAS

por Júlio Cortez Fernandes, em 03.11.17

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No tempo da meninice avó Emília, costumava contar-me uma história segundo a qual o mundo vai  acabar, num mar de chamas. Recordo agora  "lenda"a propósito do terrível incêndio de Outubro pasado, catastrófico e mortífero, assolou  concelho de Pampilhosa da Serra.

Resolvi de moto próprio percorrer a área ardida,só visto, muito se tem  falado "lume " de Pedrogão Grande Castanheira e Pera e Figueiró dos Vinhos.ressalvando, horrível perda de dezenas de vidas, não se compara  em extensão do que ardeu pelas serras e vales do alfoz da Pampilhosa.

Já fiz despedida em pensamento dos recantos que conheci e desapareceram.será possível  tornem a ser verdejantes , não será o mesmo.

Vale covo, boguela, sardanisca , vale trigo, vinhas da quinta botelheiras, maunça, vale pereiro,cabeça pequena, foz das videiras,chã do sobral,covanca,vale cortiços, barroco caldeiro , bacelo ,barroco calvário, ribeira da póvoa , feiteira,vale dos enxames, jardim , ribeira de Praçais , cadavoso , carvalhal do coira,vale da grima vale castanheiro,vale da fonte ereira,retorno,selada da madeira, corga do laranjo,monte frio, que sei eu.

Deixei para fecho, praia da cadela, onde em tempos idos habitou prostituta de nomeada, para significar  puta de situação que a tragédia deixou.

A vila de Pampilhosa da Serra,cercada pelas chamas,deve ter sido um quadro de terror vivido pelos meus queridos patrícios.Espero sincera e ansiosamente a reflorestação que urge iniciar seja efectuada a base de carvalhos castanheiros sobreiros e cerejeiras; o ciclo do pinhal se encerre.Levará tempo , Outono dentro de 10 ou vinte anos com a folhagem amarelecida dessas árvores proporcionará paisagens de beleza idílica que atrairá multidões para  admirar. O turismo será  fonte de riqueza para a terra,e vida melhor para os que ficarem ou retornem ao torrão natal.

O mar de chamas  "inundou" as serranias da Cordilheira Central de Portugal, para dar razão a nossa avó, tem de ser o fim de um "mundo" o qual está demonstrado, já não serve o concelho de Pampilhosa da Serra.  

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publicado às 19:49


CASAMENTO ELEGANTE NO FIM GUERRA 1939-1945

por Júlio Cortez Fernandes, em 28.09.17

Épocas  de crise são tempo de prosperidade para alguns, apesar da penúria generalizada. Na Pampilhosa da Serra,também se verificaram situações destas.Durante  segunda guerra mundial,  comerciantes negociantes e industriais de resinosos da terra conseguiram bons proventos, fizeram fortuna.Sem falar claro na extracção clandestina  ilegal , e roubos de volfrâmio nas minas, outra fonte de fartos rendimentos , até para  pobres e miseráveis.

Na vila um comerciante prosperou no tempo da guerra,  Aníbal Cortez, proprietário da Pensão Central, único estabelecimento hoteleiro do burgo ,onde se hospedavam viajantes e pessoas importantes que trabalhavam ou se deslocavam as obras da barragem de Santa Luzia , em construção.Chegaram a trabalhar no empreendimento, milhares de operários, tinham direito alimentação na cantina da Companhia Eléctrica das Beiras, dona da obra, responsável do refeitório era José Cortez dos santos, vulgarmente conhecido por Gerundio, fazia as compras na Pampilhosa a diversos comerciantes um deles Ti Aníbal.

O intróito serviu para referir, dia 25 de Novembro de 1944, sexta-feira, acontecimento mundano alvoraçou a Vila serrana,  casamento da filha única de Aníbal e D. Palmira Simão, Alice Simão Cortez ,com José Augusto Henriques da Cunha,mais tarde seria presidente da câmara municipal, falecido em consequência de acidente de viação , próximo de Cambas, na estrada para Castelo Branco.

O celebrante da boda  Paroco da Freguesia Américo Braz da Costa. Durante a cerimónia religiosa,  acompanhamento musical, executado em órgão pelo padre Carlos Borges das Neves,grande amigo do noivo.

Finda a cerimónia organizou-se cortejo direcção a casa dos pais da noiva , no edifício da pensão, não distante da igreja, no trajecto muitas raparigas  com cestos de pétalas  dado pelos pais da noiva, lançaram sobre os noivos verdadeira chuva de flores.

O copo de água, lauto almoço,foi servido a numerosos convidados, cabritos para o repasto ,sei quem forneceu, não digo, sou herdeiro do fornecedor.

Presidiu ao almoço  padre Américo , ladeado  padres António Afonso, pároco de Santo Bartolomeu em Coimbra, Luciano do Cabril, já citado Carlos Borges , professor no seminário Coimbra.Os noivos receberam muitas e valiosas prendas, foram de lua de mel , não sei para onde.No dia seguinte os pais do noivo ofereceram  almoço em sua casa no qual estiveram os novos compadres.

Acontecimento muito falado durante largo tempo , não só pelo aparato mas também pela simpatia que gozavam , noivos e respectivas famílias.

Foram meus amigos , oficio de "historiador" permite recordar, felizes momentos, saudosa e respeitosamente lembrar o evento.Gravura mostra caminho da igreja a casa dos pais da noiva.

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publicado às 18:22

Manhã de quinta feira 30 de Agosto de 1917 10 horas o portão da luxuosa e ampla moradia com jardim,situada na esquina das ruas Bernardo Lopes e engenheiro Silva, na Figueira da Foz , abriu-se dando entrada a carreta dos pobres, puxada por muar da abegoria municipal, para conduzir a última morada, cadáver do dono da casa  falecido no anterior dia 28.

No exterior formou-se extenso cortejo de individualidades da sociedade figueirense, representantes de diversas associações locais , que o defunto auxiliou .Muitos curiosos manifestavam estranheza pela presença da carreta da Misericórdia, explicação simples, extinto deixou expresso esse desejo.

António Meireles Cardoso Gramacho, abastado proprietário e capitalista,havia nascido na aldeia de Carregal do Zêzere , freguesia de Nossa Senhora das Neves de Dornelas, Concelho de Pampilhosa da Serra,no dia 5 de Abril de 1829,residindo há muitos anos na cidade da Figueira da Foz.

Seus pais foram o bacharel Teodoro Cardoso de Meireles,natural do Carregal , e Dona Luísa Meireles Taborda Leitão ,ambos residentes que foram no Carregal.

António Meireles Gramacho , casou com Dona Carlota Mendonça Castro Lemos,natural de Cernache do Bom Jardim, não tiveram descendência.

Hábil administrador, António Gramacho,vendeu bens no Carregal,  comprou acções da Companhia do Caminho de Ferro da Beira Alta, e muitos hectares de Terrenos na area de expansão da Figueira da Foz,multiplicando a fortuna de modo  ser considerado dos mais ricos da região.

A sua protecção fez rumar, a cidade foz do Mondego,muitos naturais da  freguesia natal.

No testamento declarava herdeira universal a esposa, na falta desta alguns familiares,com relevância para sua irmã , Viscondessa de Tinalhas.

A influencia da família Meireles Gramacho, manteve-se por mais tempo, curiosamente quando fundaram a Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra em Lisboa no ano de 1941, uma das iniciativas primeiras da instituição, colónia balnear infantil na praia da Figueira destinada as crianças pobres da Pampilhosa, concretizou-se  graças ao  contributo da ilustre familia .

António Meireles Gramacho, ultimo senhor da casa do Carregal.Seu pai deteve a maior fortuna do Concelho de Pampilhosa.

No centenário do falecimento do nosso patrício,considerei interessante assinalar a efeméride.

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publicado às 16:43


FUNERAL REALIZADO EM 1931 NA VILA DE PAMPILHOSA DA SERRA

por Júlio Cortez Fernandes, em 23.08.17

Quinta feira 17 de Setembro, nas primeiras horas da manhã os sinos da igreja matriz dobraram a finados, "toques", anunciavam  morte de paroquiano do sexo masculino. Rapidamente o povo reconheceu ter exalado último suspiro, o filho de figura grada da sociedade Pampilhosense da época, Sr. António Carlos de Oliveira, igualmente de nome António.  Jovem de 23 anos de idade sucumbiu à tuberculose, a doença grassava por todo o país com  intensidade devido à penúria e miséria originadas pela grande crise de 1929, que atingia Portugal com dureza, não poupando ninguém.

Tudo indicava, triste acontecimento  nada mais do que isso, todavia o funeral  realizado pelas 10 horas da manhã do dia seguinte, iria impressionar a população da Vila.

Sendo pessoa importante, benemérito da filarmónica, os dirigentes da música, fizeram questão de manifestar intenção de acompanhar musicalmente o frétero. António Oliveira recusou. Não desejava pompas no funeral. Assim procurou as pessoas mais pobres da Pampilhosa, a quem deu esmola para conduzirem até a última morada o caixão do  querido defunto.

O cortejo saiu da casa da residência familiar rumo ao cemitério,  nele se incorporaram a Irmandade do Santíssimo Sacramento, da qual meu avô materno ao tempo era Irmão Mor, as pessoas mais destacadas do burgo, e multidão enorme de povo.

Durante muito tempo não se falou de outra coisa senão no facto da urna do filho de abastado Pampilhosense ter sido levada aos ombros dos mais pobres e humildes da sociedade da Vila. Havia quem dissesse ser  manifestação de "vaidade" e poder, nunca mais na vila, houve nada igual.Foto da Pampilhosa em 1931.(arquivo histórico CMPPS).

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publicado às 12:58


OS "BRAVOS " DOS PINHAIS INTERIORES

por Júlio Cortez Fernandes, em 31.07.17

Não esqueço esforçados trabalhadores do tempo de menino,personagens importantes da Pampilhosa durante o século passado: os resineiros.

Quando chega o verão os incêndios aparecem, retorna  imagem dos "povoadores do pinhal", onde com sangue suor e lágrimas arrancavam sustento das famílias, sujeitos a desenfreada exploração. Determinadas terras onde passo, é hábito perpetuar no espaço público, ofícios e ocupações que marcaram a história das localidades, pescadores, mineiros,arrancadores de cortiça, oleiros, almocreves etc. na Pampilhosa da Serra, não sucede ...

 Na solidão do pinheiral,  elemento importante na prevenção e combate a focos de incêndio, a  lida promovia  limpeza do terreno, para adequadamente extrair a resina, passagem por locais ermos permitia conhecer a zona exacta onde lavrava  fogo assim possibilitava adequado combate,  maioria das vezes  através de contra fogo.

A resinagem e resineiros foram "alma" e  prosperidade de actividade económica onde ganharam fortunas proprietários das fábricas de agua-rás e pez. Os donos dos pinhais os humildes "sangradores" dos pinos, ficavam com a côdea do "bolo".

Durante as décadas 30, 40 e 50 do século passado quotidiano da Pampilhosa estava impregnado de assuntos relativos a resina e pinhal.

Começava a campanha diziam andar na "descarrasca", consistia limpar o tronco onde seria a ferida ou sangria para "brotar" a seiva, caia  no púcaro de barro, suportado em estaca de madeira, sobre o púcaro ficava  cravada  no pinheiro chapa metálica de forma curva: a bica, púcaro cheio procedia-se a "colha" com uma espátula, para recipiente metálico, a "ferrada" ou balde. Esta tarefa competia a mulheres, "ferrada" cheia, poisava na rodilha  na cabeça, vazada em barris de madeira colocados  nas veredas, carros de bois, transportavam a sítios onde já podia chegar camioneta que levava  a fábrica "resineira".

Algumas ocasiões caminhando com a ferrada a cabeça as mulheres escorregavam na caruma,  resina entornava-se no cabelo, e vai de cortar  rente as tranças para se livrarem do pegajoso líquido. Infelizes ficavam sem  belo adereço capilar, durante muito tempo. Uma dor de alma.

Estes trabalhos eram motivo de conversa  a vida organizava-se conforme  as tarefas a realizar nos pinheirais.

O estatuto de responsável pela exploração do pinhal, implicava ser detentor de carta de aptidão, obtida na frequência de 15 dias de aulas, numa escola  de Candosa concelho de Tábua. Normalmente  pagavam  curso  as resineiras, no fim mediante aprovação, passavam cartão de "comissário empreiteiro". Estes profissionais respondiam perante a fiscalização Estado pelo cumprimento das regras da lei de resinagem.  .

Recordo  resineiros que conheci,  meus avós, meu pai, e tios, Ti António , marido da ti Laura da tenda, morava na minha rua, Ti Isac, Ti Laranjo,  muitos outros cujo nome esqueci. Gente esforçada, sujeita a trabalho durissimo para granjear  pão de cada dia. Praças rasas no  "regimento" dos assalariados mais explorados de Portugal.

Antepassados que labutaram na faina da resina são credores de  respeito,  exemplo de sacrifício resistência e luta por vida melhor, não deve ser olvidado.  Deixo referencia: mereciam fosse erigido na Pampilhosa, "memória" tal qual fizeram  outras terras em honra do  valor das classes laboriosas. Oxalá!   

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publicado às 12:59


SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - EPISÓDIO NO CONCELHO DE PAMPILHOSA

por Júlio Cortez Fernandes, em 07.06.17

Barragem de Santa Luzia.bmp

 

Afastado dos grandes centros urbanos de difícil acesso,mesmo assim nesta região ocorreram, factos directamente relacionados com a problemática humanitária inerente ao conflito bélico que dilacerou o mundo, principalmente a Europa de 1939 a 1945 .

No período conflituoso prosseguiam a ritmo "alucinante" as obras para conclusão da barragem de Santa Luzia, tempo urgia, a produção de energia eléctrica destinava-se a abastecer em primeiro lugar as minas de volfrâmio da Panasqueira, possibilitando aumentar até onde fosse possível  extracção do minério utilizado principalmente na industria do armamento, cuja cotação no mercado atingia preços nunca imaginados.

Assim os donos da obra a Companhia Eléctrica das Beiras,lançaram mão das mais inovadoras tecnologias, contrataram no estrangeiro, maquinaria e engenheiros experientes para  rapidamente concluírem a barragem e  iniciar venda de electricidade.

Um dos engenheiros de nacionalidade Francesa encarregue da montagem da conduta de água e turbinas da central eléctrica, pretendeu trazer para junto de si familiar idosa; pediu intervenção dos donos da obra. Em 1941 a Companhia Eléctrica das Beiras (CEB),endereçou ao Presidente do Conselho Prof.Doutor António Oliveira Salazar. exposição " solicitando a intervenção superior de Vxa. junto da Policia de Vigilância e Defesa do Estado,(P.V.D.E ) no sentido de ser autorizado visto de entrada a Madame Fidelman-Zina residente em França, nascida na Roménia em 7 de Fevereiro de 1870. CEB, argumentava com facto da senhora ter 72 anos, não poder dispensar  os cuidados  prestados pelos sobrinhos que se encontram em Portugal. Um deles Alexandre  Lajous, cuja presença indispensável nos trabalhos de Santa Luzia , teria de regressar a França , por dever de familia a não ser seja possivel a entrada em Portugal de sua tia, Não obstante ter nascido em antiga região ocupada pela Rússia, abandonou o seu país como refugiada entrando em França 1923, onde sempre se tem conservado até hoje."

 A petição  remetida por ordem pessoal do Presidente do Conselho ao director da  PVDE, peregrinou por ministérios e repartições, voltando ao gabinete de Salazar. A 21 de Maio 1942 mandou o secretário Dr. Ribeiro da Cunha, responder a CEB, nos seguintes termos:

" venho comunicar que da repartição competente informam não ser possível conceder a autorização  que é solicitada  para a vinda ao nosso País  de Mme. Fidelman-Zina"

Resta esclarecer. a senhora de origem judaica,  quem sabe não foi deportada para um dos tenebrosos locais de tão triste memória?.Fiquemos por aqui.

 

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publicado às 17:08


Pampilhosa da Serra ."Comércios" Desaparecidos

por Júlio Cortez Fernandes, em 27.05.17

Nas pequenas povoações a importância das "vendas" onde podiamos comprar quase tudo, era  maior quando comparada com aglomerados  mais populosos .Na Vila, idos da minha infancia existiu um,  durante dilatado tempo  assumiria relevância no dia a dia vida do "burgo".

 Pensão Central, situada na estrada nacional , baptizada, Rua Rangel de Lima onde actualmente funciona   posto de turismo. Edifício de grandes dimensões para o sítio, construido em 1924,  ocupava todo terreno desde a ponte sobre a ribeira de Unhais ou Pampilhosa, até acesso ao largo José Henriques da Cunha, antigo presidente da Câmara do concelho.

A pensão ocupava o primeiro andar ,no rés do chão ao nível da estrada ficava a sala do restaurante, lado esquerdo da escada de acesso ao piso dos quartos, do lado direito a "venda " onde se vendiam um sem numero de artigos.Normalmente ao balcão pontificava dona Palmira mulher do  Ti Anibal, e certas ocasisões, a filha do casal  Alice, casada com  Zé Cunha, anteriormente referido.

Aníbal Augusto Cortez, primo do meu avô materno Augusto Cortez.Descendia da nossa tia avó Adriana, mãe solteira  por isso, ostracizada pela família, como era costume antigamente.

 Ti Anibal  teria amealhado  apreciável fortuna, garantia de nivel de vida invejável.Deslocava-se as suas "fazendas" montando luzidio macho. Passava na  minha rua, a caminho da  "horta" na barroca chamada Ribeiro da Maúnça.

 Possuía também  propriedade conhecida por  "prazo", situada onde se edificou hotel "vila Pampilhosa"; horta fértil ,regada com agua canalizada em tubo de ferro desde sitio denominado Vale da Grima.O precioso liquido enchia  grande tanque de cimento.A captação da agua deu origem a conflito,  Ti Anibal ganhou porque dispunha de meios financeiros para contratar  bom advogado.

A pensão fechou depois de 25 de Abril de 1974,nos últimos tempos serviu de residência  estudantil,albergando alunos oriundos de todo o concelho que frequentavam a escola preparatória da Pampilhosa.

Durante quase cinquenta anos de funcionamento,milhares de viajantes, e visitantes ilustres da Vila,ficaram hospedados no estabelecimento.

Lembro quando passava na ponte ver as criadas estender roupa no terraço de cobertura  da zona da cozinha ;moças vistosas de uniforme a preceito,  originarias do alto do concelho . Dona Palmira  natural de Praçais na freguesia de Cabril.

Curiosamente há cem anos Maio de 1917, Anibal Cortez ,iniciava a vida comercial, assentando casa de alfaiate na vila,  dizia-se "trabalhava razoavelmente",pelo visto, não se deu mal ,  com agulhas linhas e engenho fez " agasalho" confortável resistente  e protecor contra  carencias quotidianas, guindou-se a personagem importante da sociedade da Pampilhosense, dono e senhor da ´"Pensão". A foto mostra em primeiro plano a "pousada " .

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publicado às 13:32


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